Pandemia de coronavírus avança rapidamente para o interior do estado do Rio

Rafael Galdo e Letícia Lopes
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SAPUCAIA

Vigilância Sanitária de Sapucaia higieniza prédio onde houve suspeita da doença. Sem hospital, município corre contra o tempo para montar 5 leitos com respiradores

Na pequena Sapucaia, de 18,2 mil habitantes, no Centro-Sul fluminense, o gerente de um posto de gasolina morreu de Covid-19, e funcionários do principal mercado local adoeceram, o que pôs todos os trabalhadores em quarentena. Cortada pela BR-393 (antiga Rio-Bahia) e com 37 casos e três óbitos confirmados pela prefeitura, a cidade está na rota do acelerado avanço do coronavírus pelo interior do Rio — um dos argumentos da Fiocruz para recomendar o lockdown no estado. Até sexta-feira, a doença já tinha chegado a 93,5% (86) dos 92 municípios. Só não tinham casos confirmados Varre-Sai, Rio Claro, Cambuci, Duas Barras, Trajano de Moraes e Laje do Muriaé.

Desde 15 de abril, o número oficial de infectados cresceu 307% na região metropolitana, contra 465% fora dela.

Embora a interiorização seja um drama nacional, no Rio de Janeiro há motivos para o alerta acender mais forte. Como parâmetro, também na sexta-feira, eram 62% dos municípios paulistas afetados, e 25% dos mineiros. No país, o percentual do Rio só era superado pelo Amapá (100%) e se assemelhava ao de Roraima (93,3%) e Ceará (91,3%). Um processo que, para especialistas, precisa ser mitigado com medidas rígidas de confinamento e planejamento regionalizado da rede de saúde para atender pacientes de lugares que, às vezes, não têm UTIs ou sequer hospital.

É o caso de Sapucaia, que corre contra o tempo para montar cinco leitos com respiradores num posto de saúde. Enquanto não ficam prontos, doentes são mandados para cidades da região, como Três Rios.

— Tem sido difícil conseguir as transferências. Há muitos pacientes da Baixada, por exemplo, vindo para os municípios próximos daqui — diz Marília Gabriela Teixeira, coordenadora de epidemiologia de Sapucaia: — E é complicado convencer sobre o distanciamento social, sobretudo nos distritos rurais. A BR-393 é outra preocupação, porque é federal, não podemos fechá-la nem fazer barreira sanitária.

Assim, o tráfego pesado de caminhões e carretas segue normal na estrada. No Centro da cidade, a via se transforma numa rua de paralelepípedos, onde trabalham pessoas como o vendedor de frutas ambulante Antônio Luiz Benedito, de 52 anos:

— Acredito que a doença chegou pela BR. Mas continuo trabalhando, com máscara e álcool, porque é minha fonte de renda.

‘A única vacina’

Nesse estágio atual do Rio, o epidemiologista Roberto Medronho, da UFRJ, é taxativo: o lockdown é a única saída para evitar um espalhamento ainda maior da Covid-19.

— É a “vacina” que temos disponível. Para que seja efetiva, deveria ser aplicada em âmbito estadual, principalmente na Região Metropolitana, de onde a doença irradia, com a avaliação da medida em outras áreas — afirma ele.

O também epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde, da Fiocruz, ressalta que, no Rio, no dia 20 de março, o coronavírus já tinha atingido todas as cidades com mais de 500 mil habitantes. Em 23 de abril, afetava 100% das com mais de cem mil moradores. E, em 4 de maio, zerava a lista dos municípios com mais de 50 mil pessoas. Hoje, a doença só não foi identificada em seis municípios, o maior deles Rio Claro, na divisa com São Paulo, com 18,5 mil habitantes.

— O coronavírus segue as redes de conexão entre as cidades, irradia das maiores para as menores. Avisamos que seria assim — diz Xavier, um dos responsáveis pela ferramenta MonitoraCovid19, da Fiocruz.

No Rio, segundo ele, um dos erros foi que medidas como o isolamento social não foram adotadas seguindo a lógica de redes de interações entre municípios:

— As cidades não existem de forma isolada. Mesmo o lockdown não pode ocorrer com decisões unilaterais. As prefeituras precisam fazer isso de forma conjunta, com coordenação dos governos estadual e federal.

Na Região dos Lagos, o guarda-vidas e surfista Marcos Monteiro, de 44 anos, conta que Saquarema fechou as praias depois de municípios do entorno. O resultado não demorou a aparecer.

— Muita gente que não podia surfar em suas cidades veio para cá — conta.

Às vésperas do feriado de 1º de maio, a prefeitura chegou a pedir nas redes sociais que turistas não visitassem a cidade, que até sexta contabilizava 47 casos e 4 mortes por Covid-19.

Com as rodovias como um dos vetores do espalhamento da doença, o fechamento delas (pelo menos as estaduais e intermunicipais) foi cogitado na semana passada no ofício enviado pelo governador Wilson Witzel ao Ministério Público, no qual ele diz que o estado elabora proposta de lockdown. Mas o documento da Fiocruz que recomenda o bloqueio mais duro — em particular na Região Metropolitana — ressalta que, até municípios com menos de 50 casos, possivelmente já registrem transmissão comunitária. Ou seja, não é possível mais saber a origem da infecção, indicando que o vírus circula entre pessoas que não tiveram contato com quem veio de fora.

Descompasso entre estado e municípios

A velocidade com que o coronavírus toma o interior pode ser maior do que a divulgada oficialmente. Ao cruzar dados do boletim do estado de quarta-feira com os anunciados por 82 municípios até então, levantamento do EXTRA mostrou que, naquele dia, havia ao menos 1.936 casos e 103 óbitos confirmados por prefeituras que não apareciam nas estatísticas da Secretaria estadual de Saúde.

Ainda não estavam nos bancos de dados histórias como a de um aposentado de 60 anos, morador de Miracema, no Noroeste Fluminense, morto no último dia 30. Ou a de um idoso de 86 anos, que não resistiu à doença em Pinheiral, no Médio Paraíba. As duas cidades não apareciam com um caso sequer no boletim do estado. Uma das maiores discrepâncias ocorria em Teresópolis, cuja prefeitura informava 310 casos na sexta-feira, mas só 77 estavam no boletim.

Esse descompasso pode prejudicar outra ação que especialistas apontam como crucial: o manejo e o dimensionamento da rede hospitalar para atender os pacientes.

— Três Rios, por exemplo, precisará dar conta da sua população e de outras, como a de Sapucaia — afirma Regina Flauzino, especialista em Saúde Coletiva e Epidemiologia das Doenças Transmissíveis da UFF.

Conselheiro da Associação dos Hospitais do Rio, o médico Graccho Alvim Neto sugere parcerias interestaduais:

— Pacientes poderiam ser levados, por exemplo, para Minas, que tem cidades hoje com uma situação mais confortável.

Se não forem tomadas medidas regionalizadas, com a inauguração dos hospitais de campanha dentro do prazo, Diego da Xavier, da Fiocruz, aponta que as consequências podem ser graves:

— Há o risco de ambulâncias dessas pequenas cidades não terem para onde levar os doentes.

Respostas

Questionada na quinta-feira, a Secretaria estadual de Saúde não respondeu como planeja o arranjo do sistema de saúde no interior. Sobre a defasagem nos números, o órgão informou que a notificação de casos e óbitos é de responsabilidade dos municípios e que, sendo observadas discrepâncias, a Subsecretaria de Vigilância em Saúde entra em contato com a prefeitura.

Já o Palácio Guanabara afirmou que reiterou que o governador apoiará e colocará a estrutura do estado, inclusive a PM, à disposição das prefeituras que decretarem medidas mais rígidas de isolamento.

Prefeito testa positivo

Na sexta-feira, o prefeito de São Pedro da Aldeia, Cláudio Chumbinho, testou positivo para Covid-19, após sentir desconforto respiratório e dor de garganta. Até sexta-feira, o tratamento era feito em casa. No fim de março, Chumbinho teve pneumonia, fez tratamento e se curou. Na época, foi testado para coronavírus e teve resultado negativo.