Pandemia de coronavírus: os benefícios para a saúde de viver em cidades densamente povoadas

Matthew Keegan - BBC Future
·9 minuto de leitura

"Há um nível de densidade populacional na cidade de Nova York que é destrutivo. Isso tem que parar, e tem que parar agora. Nova York precisa desenvolver um plano imediato para reduzir sua densidade." Tuitou o governador Andrew Cuomo, quando o Estado de Nova York entrou em lockdown pela primeira vez em meio à pandemia de covid-19.

O medo em torno da densidade urbana e os apelos para reduzi-la continuam. Há relatos de cidades se esvaziando — um potencial êxodo em massa de pessoas deixando centros urbanos densamente povoados rumo a cidades mais periféricas e rurais para escapar do vírus.

Uma pesquisa realizada em maio de 2020 pelo Conselho Internacional de Shopping Centers revelou que 27% dos adultos nos Estados Unidos estavam pensando em mudar de casa por causa da pandemia — assim como 43% dos millennials.

Mas, apesar de todas as alegações de que as pandemias provam que a densidade urbana é prejudicial, estudos recentes sugerem o contrário. Dados coletados de 284 cidades chinesas pelo Banco Mundial mostraram que a densidade urbana pode não ser tão antagonista na luta contra o coronavírus quanto pensávamos.

Na verdade, cidades com densidades populacionais muito altas, como Xangai, Pequim e Shenzhen, tiveram muito menos casos confirmados por 10 mil habitantes do que cidades com densidades populacionais mais baixas.

Da mesma forma, um estudo não encontrou associação entre a densidade populacional de 36 cidades do mundo (medidas em pessoas por quilômetro quadrado) e as taxas de casos ou mortes por covid-19.

E uma pesquisa realizada em 913 condados metropolitanos dos EUA revelou que a densidade populacional não está significativamente relacionada a uma maior taxa de infecção por covid-19. E isso pode ter mais a ver com o comportamento das pessoas do que com o espaço disponível.

"Descobrimos que as pessoas são mais cautelosas sobre a ameaça em áreas densamente povoadas e são mais propensas a adotar comportamentos de proteção", diz Shima Hamidi, professora assistente de saúde americana na Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

População de máscara
Um estudo não encontrou associação entre a densidade populacional e as taxas de covid-19

Sua pesquisa mostra que a tendência dos moradores de áreas densamente povoadas é ser mais cauteloso, seguir melhor as recomendações de distanciamento social, evitar lugares cheios e ficar em casa.

Isso parece ter sido confirmado pelas taxas de infecção relativamente baixas em várias áreas metropolitanas hiperdensas, como Cingapura, Hong Kong, Tóquio e Seul.

Embora haja outras variáveis ​​envolvidas — como uma taxa maior de uso de máscara em países asiáticos, assim como o coronavírus afetar desproporcionalmente minorias raciais e étnicas — a pesquisa parece respaldar o conceito de que a densidade de uma forma geral não está ligada à taxa de infecção.

"Não se trata de densidade, o que realmente importa é como a densidade é administrada", afirma Sameh Wahba, diretor global do Banco Mundial.

Wahba cita o exemplo de Manhattan e Mumbai, que têm mais ou menos a mesma densidade populacional. No entanto, Manhattan tem uma área construída quatro vezes maior.

"Em Mumbai, eles têm um quarto do espaço disponível para cada pessoa em Manhattan para se isolar", diz Wahba.

"Isso faz com que as pessoas em Mumbai vivam em uma situação muito mais aglomerada, embora tenham a mesma densidade populacional porque a área construída é muito diferente."

Wahba explica que o ponto principal é como você transforma uma cidade superlotada em uma cidade de "densidade populacional habitável".

"Pelo o que aprendemos sobre como o vírus se espalha, o risco de infecção é maior em espaços internos lotados... bares, frigoríficos, galpões industriais, casas de repouso, prisões e cruzeiros, não em cidades", afirma Deepti Adlakha, professora assistente de planejamento ambiental na Queen's University, em Belfast, no Reino Unido.

Na verdade, a densidade populacional pode ser boa para nós e está provado que oferece uma série de benefícios surpreendentes para a saúde e o meio ambiente.

Um estudo mostrou que viver em áreas mais compactas e densas resulta em uma diferença de cerca de dois anos e meio na expectativa de vida, em comparação com áreas mais dispersas. Hong Kong, uma das cidades mais densamente povoadas do planeta, tem a maior expectativa de vida do mundo.

Acredita-se que isso se deve a escolhas de estilo de vida.

"Pessoas que vivem em áreas densamente povoadas são significativamente mais propensas a praticar atividades físicas", diz Hamidi.

"A densidade nos dá a opção de ser fisicamente ativos; caminhar, andar de bicicleta, correr e de ser menos propensos a dirigir. Doenças crônicas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares — estão todas relacionadas a tipos de desenvolvimento mais afastados e à vida em áreas mais dispersas."

Paciente sendo levado de ambulância
Os tempos de resposta a emergências tendem a ser muito mais rápidos nas áreas urbanas

As áreas metropolitanas densas também tendem a ter melhor acesso a assistência médica, infraestrutura de qualidade superior, serviços mais especializados, assim como tempos de resposta mais rápidos a emergências.

Na verdade, um estudo mostrou que pessoas que moram em áreas mais dispersas (de baixa densidade populacional) têm três vezes mais chance de sofrer um acidente fatal do que aquelas que vivem em áreas mais densas.

A probabilidade de ser obeso também é significativamente menor em áreas densamente povoadas. Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade de Hong Kong revelou que em 22 cidades britânicas, as pessoas que moravam em áreas mais densas apresentavam níveis mais baixos de obesidade e se exercitavam mais do que aquelas que viviam em áreas periféricas, mais dispersas.

Mais uma vez, tudo se resume a uma quantidade maior de movimento e menos dependência de carros para se locomover.

"As áreas de alta densidade são mais propensas a serem bem servidas de transporte público, e as jornadas de transporte público sempre envolvem uma caminhada", explica Chris Webster, professor de planejamento urbano e economia do desenvolvimento na Universidade de Hong Kong.

Não é apenas nossa saúde física que se beneficia. De acordo com Layla McCay, diretora do think tank Centre of Urban Design and Mental Health, "facilitar as caminhadas e uma vida mais vibrante nas ruas pode oferecer oportunidades para interações sociais positivas e, em última análise, diminuir o isolamento".

"Você não pode superar o que uma cidade oferece em termos de proximidade de empregos, serviços, habitabilidade, cultura e diversidade", diz Wahba, um morador de cidade grande assumido.

Para Hamidi, outra amante das grandes cidades, mudar para um bairro na cidade de Baltimore, nos EUA, significava ter a oportunidade de caminhar, andar de bicicleta ou correr, assim como a capacidade de usar o transporte público e ter um supermercado, restaurante ou café a cinco minutos a pé.

No entanto, a densidade urbana habitável que respalda e disponibiliza esses benefícios só é possível com bom planejamento e fornecimento prévio de infraestrutura e espaços públicos. Do contrário, os males da urbanização — congestionamento, aglomeração, poluição, crime e violência — podem ficar rapidamente fora de controle.

"Se o governo local for totalmente incapaz de planejar e prestar serviços, as cidades crescem em virtude do desenvolvimento informal — as pessoas começam a se aglomerar em favelas ou praticar ocupações, e você obtém uma urbanização não planejada", diz Wahba.

"Se você vai viver com a falta de condições de moradia adequadas, falta de infraestrutura adequada, falta de planejamento, falta de espaços públicos e falta de serviços, então a densidade nesse caso se torna prejudicial."

O nível de renda também influencia significativamente na qualidade de vida e na saúde das pessoas em uma cidade. Quem tem uma renda mais baixa é mais propenso a ter acesso reduzido a alimentos saudáveis, serviços públicos e privados, maior incidência de condições crônicas e falta de licença médica remunerada ou seguro saúde.

As famílias com rendas mais baixas também são mais suscetíveis a viver em unidades habitacionais superlotadas, tornando-as mais vulneráveis ​​a doenças infecciosas como a covid-19. Alguns estudos sugerem que as taxas de mortalidade nos bairros mais pobres são mais do que o dobro das regiões mais ricas.

Em condições "apertadas" com falta de espaço pessoal, é quase impossível seguir as diretrizes de distanciamento social. Em Cingapura, as taxas de covid-19 eram baixas, mas a maioria dos casos era proveniente de dormitórios de trabalhadores migrantes que acomodavam até 20 pessoas por quarto.

Outra desvantagem frequentemente destacada de se morar em lugares densamente povoados é o alto custo da moradia.

"Os impostos, o IPTU e o aluguel mensal tendem a ser mais altos nas cidades, e as unidades habitacionais tendem a ser menores do que em áreas periféricas", diz Hamidi.

"Então, esses são alguns dos fatores que fazem as pessoas repensarem quando cogitam se mudar para as cidades."

Eva Li, de Hong Kong, trabalha na área de finanças e não tem planos de deixar a cidade, apesar de ter sido atingida tanto pela pandemia quanto pela turbulência política.

"É minha casa", diz ela.

"Quase tudo que preciso está na porta de casa. Eu odiaria viver em um lugar onde teria que dirigir até mesmo para ir ao mercado."

Na verdade, Li tem esperança de que a pandemia possa trazer algumas mudanças positivas.

"Temos áreas em Hong Kong como Sham Shui Po, onde as pessoas vivem em apartamentos minúsculos subdivididos e até mesmo em casas-gaiola", afirma.

"Espero que seja dada mais atenção às áreas populosas que correm mais risco de propagar a infecção. Há muita desigualdade aqui e acho que, mais do que nunca, há uma necessidade urgente de saúde pública para que os lugares que foram deixados para trás na nossa cidade recebam mais atenção."

Prós e contras à parte, o fato é que a pandemia de covid-19 fez muita gente repensar sua condição de vida. E o que isso significa para o futuro das cidades?

"É muito improvável que o poder de atração da cidade mude significativamente", diz Webster.

"Cidades, desenvolvimento econômico, bem-estar e enriquecimento cultural da sociedade andam de mãos dadas. As pessoas prosperam quando se agrupam... Quanto maior o número de pessoas vivendo em uma cidade ou município, maior e melhor a qualidade da vida cultural, do lazer, da saúde e de outros serviços e experiências. A vida em uma cidade pequena é uma vida provinciana por um motivo."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.

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