Coronavírus: "Rede social serviu para dar voz a quem não tem nada a dizer", diz professor

Luiz Anversa
·4 minuto de leitura
(Foto: BBC)
(Foto: BBC)

O novo coronavírus já matou mais de 60 mil brasileiros. Com 1,4 milhão de casos, o Brasil só fica atrás dos Estados Unidos no número de mortos e registros oficiais. Um dos aspectos diferentes dessa pandemia é a politização da doença. Nas redes sociais, em certo momento, foi comum observar expressões como “vírus chinês”, “China vírus”, “vírus comunista” e por aí vai, inclusive vindo de membros do governo federal, como o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Por que a discussão chegou a esse ponto? Em outros momentos da história atingidos por pandemias houve comportamento parecido?

Para o doutor e mestre em Ciência Política pela USP, José Maria de Souza, o aspecto da comunicação instantânea e o momento histórico que estamos atravessando fazem toda diferença. “Existia antes da pandemia um acirramento de ideias no plano internacional, uma guerra comercial EUA x China em curso e e ascensão de governos anti-establishment”, analisa.

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O tensionamento já vinha de antes, com líderes populistas como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán questionando, até de forma agressiva, o multilaterismo e a globalização.

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Em outras crises mundiais de saúde, como a da Aids e do Ebola, essa politização também era recorrente? “A politização sempre existiu em algum nível. A questão é resolver ou não esses problemas de saúde pelas políticas públicas. A Aids na África ainda é alta", pondera Souza.

O professor lembra um ponto interessante do debate atual: o nível inédito de politização. “Hoje, você politiza a discussão para demonizar um país. Comunista e liberal viraram xingamentos. Ambas correntes são riquíssimas. A rede social serviu para dar voz para quem não tem nada para dizer. Isso é muito ruim para conduzir uma democracia. A democracia começa a ruir quando os xingamentos começam a crescer", diz o professor.

E o Brasil ainda sofreu com outro empecilho: a falta de coordenação dos trabalhos para combater o coronavírus. No plano federal, o presidente Jair Bolsonaro passou a mensagem de que a pandemia “não era tão grave assim”. Em São Paulo, João Doria, que se elegeu na onda conservadora que levou Bolsonaro ao Planalto, virou o principal antagonista do chefe do Executivo. Essa confusão, claro, também deixa mais turvo o debate. “Em São Paulo, temos uma política que prega o isolamento [agora relaxado]. No plano federal, o presidente diz que ‘a gripe não é tão forte’. Nenhuma das duas políticas estão funcionando. Servem apenas para fazer reunião e publicar coisas em cadeia nacional", fala o analista.

Para o doutor pela USP, é preciso ter uma “política baseada em ciência e que crie convergência para ter a melhor solução possível numa situação adversa. A questão unir politicas públicas para depois sairmos desse pântano”, diz.

E como podemos sair dessa discussão política que parece nunca ter fim? O professor esboça um caminho.

“Para se ter uma democracia você precisa compartilhar uma base comum de informação. Compartilhar algo que não é certo, nem confirmado, só deixa a democracia mais fraca. O papel dos governantes é central para sairmos desse processo. E essa função pode estar comprometida por causa desse desgoverno. Existe muita ênfase no embate político. As pessoas compram isso. Poderíamos pensar em nossas funções sociais, sobretudo no emprego. A grande maioria dos brasileiros depende de renda para viver e saúde para trabalhar. Hoje, esses dois aspectos estão ameaçados. É o debate raso da ideia que a saúde contrapõe o emprego, o que é absurdo”, analisa

“As redes sociais intensificaram a comunicação. De uns anos para cá a politica vem sendo feita nas redes sociais. A instantaneidade é muito grande, com informalidade nas relações. Políticos podem ver isso como oportunidade, mas também há um certo risco. Antes, você implementava uma política e divulgava. Agora, existe uma inversão. Você divulga algo que nem fez ainda. Perde-se a noção de lastro”, argumenta José Maria de Souza.

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