Desigualdade social e sofrimento psíquico: pandemia pode colapsar educação no Brasil

Lucas Tomazelli
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Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Foto: AP Photo/Eraldo Peres

O acesso à educação, presencial ou à distância, é sem dúvidas um dos maiores entraves vividos pelo mundo durante a pandemia do novo coronavírus. As consequências desse cenário podem ecoar por anos, ainda mais em um país marcado por desigualdades como o Brasil.

Em 2021, Goiás foi o primeiro estado a anunciar uma retomada no setor educacional ainda em janeiro. Em fevereiro, 14 estados brasileiros definiram a volta às aulas (presencial ou remotamente). Distrito Federal e mais 9 devem retomar em março. Bahia e Rondônia ainda não apresentaram uma previsão exata.

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Em entrevista ao Yahoo!, Denise Carreira, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora institucional da Ação Educativa, pediu prioridade na área da educação por parte do poder público nesse momento de crise sanitária.

"Em fevereiro teremos a aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) [que estabelece os Orçamentos da União]. Ela é muito importante para todas as políticas públicas. Na área da educação estamos atuando para que haja um acréscimo de recursos para adequação das escolas aos padrões sanitários de segurança", conta.

Abstenção recorde no Enem e alunos fora das escolas

O Enem 2020, realizado em janeiro em todo o país, registrou taxas de abstenção recorde. Em um dos dias do exame, mais de três milhões de candidatos faltaram: 55,3% do total de inscritos, o maior índice da história.

Para Carreira, as atuações erráticas do governo Jair Bolsonaro (sem partido) e do Ministro da Educação são parte visceral do problema. “Com certeza o que aconteceu no Enem é revelador, mostra a falta de uma política coordenada da pandemia. Isso tem a ver com a falta uma atuação nítida do poder público no enfrentamento da crise sanitária. Isso tem contribuído para o acirramento das desigualdades", diz.

ENEM 2020 teve protocolos contestados e registrou abstenção recorde - Foto: Andre Coelho/Getty Images
ENEM 2020 teve protocolos contestados e registrou abstenção recorde - Foto: Andre Coelho/Getty Images

Já no início da retomada das aulas presenciais, o país já assistiu a episódios de surtos de Covid-19 em escolas, o que preocupa pais e gestores.

No fim de janeiro, a UNICEF apontou que o Brasil tem quase 1,4 milhão de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos fora da escola. O levantamento mostra também que mais de 5,5 milhões de brasileiros nessa faixa etária não tiveram atividades escolares em 2020 por causa da pandemia.

Diante desse cenário, a professora defende um "piso emergencial" para educação garantido pelo governo federal, que seja voltado para ações como adequação das escolas aos protocolos, diminuição de alunos por turma, contratação de mais profissionais da educação, aumento no acesso à internet de banda larga [para auxiliar a parcela de alunos que ainda estudará de casa], entre outras.

"É muito importante esse piso para garantir as condições de retomada das creches e das escolas. Além do prejuízo em relação ao acesso de conhecimento, há que se considerar que a escola é muito importante para a população também em aspectos como alimentação e socialização".

A docente cobra ainda uma ação dos gestores públicos no sentido de distribuir melhor as verbas aos municípios menores do país para que ao menos um montante que garanta a alimentação seja acessado pelos mais carentes, já que se trata de uma questão de “vida ou morte para as famílias".

Sofrimento psíquico crescente

Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Foto: AP Photo/Eraldo Peres

A coordenadora da Ação Educativa lembra também que a pandemia realçou problemas como crescimento da fome, falta de perspectiva, desemprego e aumento de violência doméstica.

"Esse sofrimento psíquico crescente permeia todas as classes sociais, mas evidentemente é maior nas mais pobres. É muito importante avançar num programa nacional de apoio psicológico porque o problema é real", alerta Carreira.

A professora avalia que os efeitos da pandemia na educação persistirão mesmo com o início da vacinação e uma retomada gradual das aulas. Por isso, ela pede um trabalho entre diferentes setores da sociedade.

"Há um conjunto de fatores que fragiliza o estudante mais pobre em relação a uma certa classe média/alta no país. É preciso uma política pública numa perspectiva intersetorial para amenizar esse cenário, mesmo que seja contra a política econômica do governo atual, que prega cortes e ajustes fiscais", aponta.

Para Carreira, o governo Bolsonaro precisa democratizar o debate na economia para dar condições de combate às desigualdades que já eram profundas antes da pandemia. "É necessário pensar que o acesso à educação depende de outras políticas provenientes de áreas como saúde e assistência social", avalia a professora. Ela ressalta a importância da atuação do Congresso Nacional para pressionar o governo numa atuação em prol da parte mais desfavorecida da sociedade brasileira.