Pandemia de Covid-19 reacende discussão sobre a relevância dos desfiles

Gilberto Júnior

O primeiro alerta foi dado em fevereiro, durante a temporada de inverno 2021 de Milão. Giorgio Armani fez sua apresentação “de portas fechadas” devido ao avanço do novo coronavírus no país. Depois, foi a vez de Paulo Borges cancelar a São Paulo Fashion Week N49 — que ocorreria entre os dias 24 e 28 de abril. Em meio à pandemia e seguindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para se evitar aglomerações, os lançamentos masculinos para o verão 2021 do Hemisfério Norte e a semana parisiense de alta-costura de inverno 2021 também foram suspensos. Sem perspectiva de uma solução a curto prazo, a francesa Saint Laurent avisou, recentemente, que não estará presente nas datas preestabelecidas pela indústria este ano, reformulando assim sua programação.

As mudanças provocadas pela Covid-19 trouxeram novamente à tona uma antiga discussão sobre a relevância dos desfiles. Para muitos players do setor, a passarela tradicional ainda é uma maneira eficaz de mostrar coleções. Os críticos ao sistema afirmam que o modelo é obsoleto e pouco sustentável. “Estamos passando por uma crise planetária de efeitos profundos em diversas áreas. A moda claramente não ficará fora disso. Vejo como uma oportunidade”, avalia Paulo Borges, diretor criativo e idealizador da SPFW. “Neste instante, não é possível trabalhar com ‘previsibilidades’, mesmo que estejamos falando de cinco ou seis meses à frente. Entretanto, o desfile é de extrema importância. O que a gente vem debatendo é sua função, o formato e a razão de ele acontecer.”

Para a jornalista Lilian Pacce, o “momento é bom” para rever processos de criação, confecção, distribuição, divulgação e liquidação. “O calendário já vinha sendo questionado. O mundo seguiu quase cegamente a estratégia do excesso e do descartável do fast fashion, inclusive o mercado de luxo, e agora parece que está havendo um desabafo em uníssono de grandes nomes da moda, como Armani, Donatella Versace e Marc Jacobs. Vamos repensar o esquema com responsabilidade social e ambiental”, diz Lilian.

Yamê Reis, coordenadora de Design de Moda do Istituto Europeo di Design do Rio, aposta que a pandemia permitirá questionar antigos hábitos. “Muitas marcas promovem oito lançamentos anuais, cuja venda dos produtos não se realiza, e isso acarreta em sobras gigantescas de estoque que causam preços abusivos e exploração da mão de obra. Ou seja: a forma de produção e difusão será alterada. Esses pontos prejudicam tremendamente o segmento”, observa Yamê. “As semanas de moda foram colocadas em xeque há tempos pelo impacto que causam na natureza, com viagens aéreas, gastos energéticos e outros desperdícios sem fim.”

Há 22 anos circulando por bastidores de fashion weeks, Anderson Baumgartner, diretor da agência Way Model, acredita que o desfile ocupa lugar de prestígio por ser uma importante vitrine para as manequins novatas e o espaço ideal para estilistas exibirem seus talentos. “A passarela é o ápice do glamour na moda”, observa ele. “Depois do isolamento, os shows voltarão com força, mas será difícil organizar esses espetáculos nos próximos meses com top models, maquiadores e plateia. Quem sabe em outubro ou, no pior dos cenários, em janeiro com a couture?”

Diante dessa nova realidade, as grifes começaram um movimento de adaptação. Em março, a À La Garçonne mostrou sua coleção por vídeo. “Não dá para saber ao certo como e se as semanas de moda acontecerão. Não existem mais fórmulas prontas”, diz Alexandre Herchcovitch, diretor de estilo da etiqueta.

Sócia do Instituto Rio Moda, Alessandra Marins acrescenta: “Num futuro próximo, teremos mais apresentações ao ar livre e produções pensadas para o universo virtual, evitando aglomerações no pós-crise. Não acho que a indústria será enfraquecida, desde que trabalhe em parceria com a tecnologia”.