Pandemia de Covid-19 vai gerar um custo de US$ 500 milhões para a Vale

Glauce Cavalcanti

RIO - A pandemia do novo coronavírus vai representar um impacto de aproximadamente US$ 500 milhões para a Vale, considerando ajustes em operações, ajudas humanitárias e à cadeia de fornecedores, afirmou Luciano Siani Pires, diretor de finanças e relação com investidores da companhia, em teleconferência com analistas na manhã desta quarta-feira. No Brasil, a companhia vai destinar R$ 500 milhões a esforços para combater o avanço e os efeitos da Covid-19.

A mineradora registrou um lucro líquido de R$ 984 milhões no primeiro trimestre do ano, ante um prejuízo de R$ 6,42 bilhões em igual período de 2019, quando ocorreu o desastre na mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, que resultou em mais de 250 mortes.

Apesar do bom desempenho nos primeiros três meses deste ano, favorecido pela variação cambial, a companhia revisou para baixo sua diretriz de produção para 2020 devido principalmente a ajustes que tiveram de ser feitos em razão da pandemia. No caso do minério de ferro, a redução pode chegar a 12,7%, caindo de uma estimativa de 340 milhões a 355 milhões de toneladas para 310 milhões a 330 milhões de toneladas.

Também a estimativa de investimentos foi reduzida, passando de US$ 5 bilhões para US$ 4,6 bilhões.

Eduardo Bartolomeo, diretor-executivo da Vale, destacou que o cenário atual é “de guerra”, reconhecendo que a depender do avanço da pandemia de Covid-19 poderá ser necessário fazer novos ajustes nas operações da companhia, além dos já realizados.

— A Vale está enfrentando este cenário com responsabilidade, disciplina e senso de segurança. Temos um plano sólido. Estamos claramente m um cenário de guerra e contra um inimigo comum. Esta guerra não será rápida, mas venceremos.

Os riscos à produção resultam do atraso em processos de inspeção, obras e mesmo na operação de unidades da companhia em meio à pandemia. O fator preponderante é se haverá aumento do absenteísmo de trabalhadores e redução ou interrupção de atividades conforme o avanço da doença.

Combate ao coronavírus no Brasil

No Brasil, dos R$ 500 milhões a serem utilizados no combate à pandemia, R$ 353 milhões já foram gastos em ações como a compra e transporte de 30 milhões de unidades de equipamentos de proteção individual, além de cinco milhões de testes de detecção da Covid-19 vindos da China, para doação. A companhia contribuiu também com hospitais emergenciais de campanhas em localidades onde mantém unidades.

A mineradora também já realizou mais de R$ 900 milhões em pagamentos antecipados a fornecedores, como forma de injetar recursos na economia.

Bartolomeu frisou que os esforços de combate à Covid-19 não interferem no prosseguimento das medidas de reparação ao desastre de Brumadinho. A companhia alcançou R$ 3,6 bilhões em indenizações em acordos fechados com aproximadamente sete mil pessoas. E está dando prosseguimento ao projeto de descaracterização de barragens a montante, o mesmo sistema que era utilizado na de Brumadinho.

— Temos perfeitas condições de fazer frente às reparações e também pagar dividendos, uma vez que tenhamos pago a linha de crédito que tomada agora (em razão da pandemia). Do ponto de vista financeiro, as incertezas da pandemia, a companhia está pronta para pagar dividendos — afirmou Siani.

A Vale tomou crédito no valor de US$ 5 bilhões para reforçar o caixa da mineradora, o que foi descrito por Bartolomeo como uma espécie de “seguro” durante a pandemia. Ele afirmou que o pagamento de dividendos independe da companhia alcançar um acordo com as autoridades de Minas Gerais, o que não tem prazo nem garantia de que ocorra.

Retomada da produção

A companhia mantém o foco em estabilizar ao máximo a produção, restabelecendo operações reduzidas em consequência ao desastre de Brumadinho:

— O minério de ferro é uma das commodities menos afetadas pela crise da Covid-19 e a China nosso maior mercado já está em recuperação. Vamos trabalhar com foco em garantir a segurança de nossas pessoas e operações. Estamos restabelecendo operações. Timbopeba retoma na semana que vem.

No ano passado, em consequência às interrupções causadas após o rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão, a produção de minério de ferro pela companhia em 2019 diminuiu em 21,5%, para 301,9 milhões de toneladas. Com isso, a Vale perdeu o posto de maior produtora global de minério de ferro para a anglo-australiana Rio Tinto.

A revisão da estimativa de produção para 2020 foi justificada pela Vale devido à queda da produção no trimestre, além do atraso na retomada de operações interrompidas, como Timbopeba e Fábrica, porque tem havido atraso em inspeções, avaliações e autorizações de unidades em razão da pandemia da Covid-19. Também está atrasada a implementação de alternativas para disposição de rejeitos da Mina de Brucutu (MG). A Samarco, em Mariana, deve ser reativada a partir do fim do ano.

Na área de minério de ferro, houve interrupção temporária das operações no Terminal Marítimo de Teluk Rubiah, na Malásia, mas sem impacto na produção. No segmento de metais básicos, a companhia reduziu a mineração em Voisey’s Bay (Canadá), que foi posta em regime de manutenção, reduzindo a produção de cobre, havendo também baixa na produção de carvão em Moçambique, na África.

— A Covid-19 vai somar aproximadamente US$ 500 milhões de impacto agregado tanto no ativo quando na geração de caixa da companhia. São US$ 50 milhões por mês devido à paralisação de projetos. Só a Parada de Voisey’s Bay tem custo de US$ 55 milhões. Vai ter um impacto no capital de giro, mas que será parcialmente compensado pela redução do investimento já anunciado devido à redução de projetos — explica Siani.

A Vale segue com os planos para venda de sua unidade na Nova Caledônia (VNC) conforme previsto para este ano.

— O plano de fechamento da unidade foi confirmado em fevereiro, o que será feito nos próximos dias. Haverá demissões, mas sem custo relevante. O processo de venda foi iniciado entre novembro e dezembro e já há foram recebidas ofertas não vinculantes. Teremos uma definição nos próximos dois meses — explicou Mark Travors, diretor-executivo interino de Metais Básicos.