Entre o vírus e a bala, Brasil desenha seu roteiro para um filme de terror

Foto: Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket (via Getty Images)

Às favas os procedimentos técnicos.

Vai ter cloroquina, sim.

Se os médicos à frente do Ministério da Saúde se opunham, que saiam os médicos.

Sem eles, o protocolo que passa a valer é que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina está liberado até para casos leves. 

Mesmo sem comprovação científica. Mesmo com efeitos colaterais, como os problemas cardiovasculares.

Quem reclamar que tome Tubaína.

É o que deseja o presidente da República.

E ele já disse que é ele quem manda.

Quem não quiser tomar, não tome. Pronto. Está decidido.

Com os militares à frente do Ministério da Saúde, a hierarquia está restabelecida.

Jair Bolsonaro pode agora se concentrar em outras prioridades.

Uma delas é explicar por que queria tanto trocar, já em agosto do ano passado, a chefia da Polícia Federal no Rio.

A vontade foi revelada, oito meses depois, por Sergio Moro em sua despedida do Ministério da Justiça.

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Foi naquele mês que, segundo a Folha de S.Paulo, a defesa de Fabrício Queiroz, o ex-aliado tóxico da família, foi informada sobre a existência de um inquérito sigiloso da PF no Rio em que o ex-PM não era sequer investigado.

Como chegou à informação, ainda não se sabe.

O que se sabe é que, em outubro, Queiroz deixou vazar um áudio em que contava a um interlocutor que o Ministério Público tinha uma encrenca do tamanho de um cometa para enterrar na gente. A gente quem?

Naquela época, o filho de ex-uma funcionária do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa no Rio já estava entocado na Bahia. Tinha uma vida de patrão.

Chamava-se Adriano da Nóbrega e era próximo de Queiroz.

Condecorado e tratado como heroi pela família presidencial, foi morto em uma troca de tiros com a polícia.

Queiroz, hoje desaparecido, já estava na mira desde 2018, após a apuração do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre movimentações atípicas em sua conta. O mesmo Coaf que entrou num jogo de empurra entre os ministérios da Economia e da Justiça no primeiro ano do governo.

Flávio foi avisado da apuração sobre o assessor no meio da campanha, segundo o empresário Paulo Marinho.

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Queiroz e a filha, que trabalhava para Bolsonaro pai, foram exonerados dos respectivos cargos. A filha estava lotada em Brasília, embora trabalhasse como personal trainer no Rio.

Sob nova direção desde o ano passado, a PF fluminense pediu arquivamento de um inquérito que apura supostos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica por parte do hoje senador.

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O Ministério Público discordou e vai seguir a apuração.

Bolsonaro nega que os filhos sejam alvos de investigações, embora tenha dito aos ministros na famosa reunião de 22 de abril que não ia deixar ninguém f...sua família, nem que para isso tivesse que trocar a “segurança” e demitir o ministro da Justiça.

O ministro se demitiu e a troca nos comandos da PF foi consumada pouco depois.

A cronologia é mais ou menos essa até o momento em que o Brasil se aproxima de 20 mil mortos, só nas contas oficiais, pela pandemia do coronavírus.

E daí?, diria o chefe do Executivo.

No país que não tem ministro da Saúde há quase uma semana, a pandemia é uma bomba-relógio nas áreas historicamente vulneráveis das cidades brasileiras.

Enfurnados, os moradores da periferia são agora sufocados nas casas atravessadas pelo surto da doença e da violência diária. 

Na mesma semana, duas vidas inocentes foram ceifadas no Rio.

Uma das vítimas, de 14 anos, estava em quarentena brincando no quintal quando sua casa foi alvejada por 72 tiros em uma ação policial em busca de traficantes. Seu corpo foi encontrado só no IML pela família.

Na quarta-feira (20), outro tiroteio tirou a vida de um jovem de 18 anos em outra ação mal planejada, desta vez na Cidade de Deus. 

Os tiros aconteceram enquanto voluntários da Frente Cidade de Deus finalizavam a entrega de 200 cestas básicas.

Encurralado, um dos voluntários, que sobreviveu à ação, resumiu de forma avassaladora a situação: “Estamos tentando fazer o que o Estado não faz, que é levar comida, levar aquilo que falta. O Estado só leva isso aqui, bala. A única coisa que a gente tem é bala dentro da favela”.

A mensagem era para o governador Wilson Witzel, que foi eleito prometendo atirar na cabecinha de quem portava fuzil (na favela, claro, porque na zona sul tem ex-delator posando com arma nas redes e prometendo, impunemente, matar ou morrer pelo governo ao qual está prestes a se aliar).

No domingo, Witzel exonerou seu secretário estadual de saúde, Edmar Santos, em meio a uma operação policial que tinha como alvo um empresário conhecido de outras farras. Há suspeitas de desvios nas compras emergenciais NO MEIO da pandemia.

A demissão ocorreu por “falhas na gestão de infraestrutura de campanha para atender as vítimas da Covid-19”.

Para os amigos, o eufemismo; para os inimigos, balas.

A oposição enquanto isso?

Ninguém sabe, ninguém viu.

Na última vez que apareceu, uma de suas lideranças, o ex-presidente Lula, estava dando graças a Deus que a pandemia está aí para provar suas teses sobre economia e sociedade.

A história recente do Brasil mudou de prateleira.

Sai o suspense, entra o terror.