Pandemia e redução do auxílio jogam 23 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, maior nível já registrado

A pandemia de Covid-19 e os vaivéns das políticas de transferência de renda levaram a uma piora do nível de pobreza no país. Mais de 23 milhões de brasileiros, ou 10,8% da população, estavam abaixo da linha da pobreza em 2021. É o nível mais alto da série histórica anual, iniciada em 2016, em termos relativos e absolutos. Estar abaixo da linha de pobreza significa sobreviver com uma renda mensal de R$ 210 ou R$ 7 por dia, considerando preços do final do ano passado.

Mais baratos: Produtos perto da validade com descontos de até 70% em aplicativos ajudam a enfrentar inflação

Estudo: Mulheres só alcançarão igualdade no comando das empresas privadas daqui a mais de 40 anos

Gasolina: Petrobras está dando dica que vai aumentar preço, diz Bolsonaro

Em apenas um ano, 7,2 milhões de brasileiros passaram a fazer parte desse contingente. Em relação ao pré pandemia, há 3,6 milhões a mais nesta condição.

Quando observada a linha que vive na extrema pobreza, aproximadamente 5,9% dos brasileiros recebeu menos que R$ 105 reais por mês - ou R$ 3,50 por dia - em 2021. É também o maior nível da série anual.

É o que aponta pesquisa dos economistas Marcelo Neri, diretor do FGV Social, e Marcos Hecksher, doutor em População, Território e Estatísticas Públicas. O objetivo foi mensurar o nível do bem-estar social na população brasileira a partir da chegada da pandemia de Covid-19 e a adoção de novas políticas de transferência de renda.

Afetados com perda de receita: Prefeitos dizem que vão 'monitorar' preços nos postos após aprovação de limite para o ICMS

'Convocação' foi feita por Confederação Nacional dos Municípios (CNM), que estima queda de R$ 80 bi na arrecadação de estados e cidades

O levantamento foi feito com base nos dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2021, publicada pelo IBGE.

Montanha-russa entre os mais pobres

O estudo revela que os mais pobres viveram uma espécie de montanha-russa nos últimos anos. O país já havia atingido o maior percentual da população (9,2%) abaixo da linha de pobreza em 2019, nível que vinha subindo desde 2016, início da série.

Com a chegada da pandemia e o pagamento do auxílio emergencial que beneficiou 68 milhões de brasileiros, o número de pessoas que recebeu menos de R$ 210 por mês caiu para menos da metade: 4,2% da população - nível próximo ao de 2016, quando foi de 4%.

Magalu: Luiza Trajano deixa lista de bilionários da Forbes, com queda das ações da empresa

Acontece que, com a gradual redução do auxílio emergencial em 2020 e a posterior interrupção do benefício em março de 2021, não somente a população mais pobre cresceu como essa parcela sofreu uma queda abrupta da renda.

Veja outros países: Brasil cai para 59ª posição em ranking global de competitividade

O economista Marcelo Neri, um dos autores do estudo, ressalta que o país tem passado por uma grande instabilidade, principalmente nos últimos três anos. Enquanto a primeira meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio era diminuir a pobreza em 50% em 25 anos, a pobreza no Brasil cresceu 42% em apenas seis meses, saindo de 3,9% em agosto de 2020 para 13,2% em março de 2021, quando atingiu pico na variação mensal.

— O Brasil é o pais da desigualdade, mas também da instabilidade. Fomos do céu ao inferno e vice-versa algumas vezes em função da pandemia e das políticas adotadas nesse período. O auxílio emergencial levou o país ao menor nível de pobreza da história. Mas seis meses depois você voltou ao maior nível dos últimos dez anos. E essa montanha-russa é uma oscilação tão custosa quanto uma estagnação econômica ou falta de crescimento.

Neri destaca ainda que as políticas públicas devem ser pensadas de modo a suavizar o padrão de vida dos pobres, e não gerar alta oscilação . — O desafio de alguma forma é permitir que as pessoas comam todos os meses e não comam carne um mês e depois passem fome no outro mês — explica.

Triste estatística: A cada 30 horas surge um bilionário no mundo, enquanto mais 1 milhão de pessoas entra na extrema pobreza

A renda mensal dos 10% mais pobres caiu de R$ 114 em novembro de 2019 para R$ 52 em março de 2020, início da pandemia. Em seguida, foi mais do que quadruplicada até atingir o pico histórico em agosto do mesmo ano, com R$ 215, durante a fase mais generosa do pagamento do auxílio emergencial. Já em janeiro, com a suspensão do programa, desabou para R$ 55.

Com o retorno do benefício com cobertura e valores reduzidos, a renda foi parcialmente recuperada para R$ 113 em agosto de 2021, mas recuou no fim do ano e ficou 15,8% abaixo do nível pré-pandemia, o equivalente a R$ 96 em novembro de 2021.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos