'A pandemia está escancarando as desigualdades', diz o ator Érico Brás

Pedro Willmersdorf
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Pelas redes sociais, Érico Brás vem exercendo sua militância durante a quarentena: 'É preciso chegar junto do asfalto'

RIO — Com a suspensão das gravações do vespertino "Se joga", da TV Globo, o ator Érico vem aproveitando o confinamento para exercitar nas redes sociais seu engajamento sociopolítico.

"É hora de dar a cara a tapa e fazer girar ainda mais as informações e protestos que surgem na internet. Movimentar as páginas de igualdade social, quebrar com as correntes de fake news e assistir a lives de cultura e de assuntos relacionados à crise", opina o baiano.

Érico é conselheiro do Fundo de População da ONU. A agência de desenvolvimento internacional trata de questões populacionais, sendo responsável por contribuir com os países para garantir o acesso universal à saúde reprodutiva.

Nesta entrevista ao GLOBO, o ator aprofunda sua visão sobre as mazelas geradas pelo avanço do novo coronavírus em áreas de periferia, faz um balanço do desafio literário que ele lançou em seu perfil no Instagram e relembra sua amizade com o ator Flávio Migliaccio, com quem conviveu durante cinco anos gravando a série "Tapas e beijos" (2011-2015): "Era um experiente homem das artes e que me recebeu carinhosamente quando cheguei ao Rio pra trabalhar".

Você tem uma consciência sociopolítica muito ativa. Quais suas maiores preocupações em meio a essa pandemia?

As duas questões que estão sendo mais fortes para mim: a disseminação do vírus nas comunidades e a economia. Tenho receio de que o número de vítimas de mortos nas periferias seja muito maior do que o esperado. A realidade dentro das favelas é que muitos não têm nem o básico para manter a higiene necessária de combate ao vírus. Lá falta tudo! Sem falar no preço do álcool em gel que subiu um absurdo! Por outro lado, também temo a recessão econômica que vem por aí depois que tudo isso passar. Muita gente que trabalhava no mercado informal perdeu sua renda.

É possível botar em prática o ativismo estando em quarentena?

Lógico. Existem duas formas de se fazer isso: a primeira é usar as redes sociais para militar e dialogar com pessoas relevantes e que promovem a diferença no espaço em que atuam. E a segunda forma é conseqüência da primeira, pois assim conseguimos levar a nossa mensagem para pessoas que realmente necessitam. É preciso também chegar junto tanto no asfalto quanto nas favelas. Só assim conseguimos promover a equidade, palavra que já é o meu mantra há tempos. A crise do coronavírus está escancarando todas as desigualdades do mundo. Então, eu, nós e principalmente o governo e os empresários precisam garantir assistencialismo e oportunidades iguais para todos – sem preconceito de origem, raça, gênero, cor e outras formas de discriminação.

Quais as lições que você acha que nós tiramos disso tudo que estamos vivendo?

Existe uma lição que tenho pensado durante esse tempo em casa que é: a estrutura que move o mundo composta pela religião, economia, política e cultura é forjada pelo ser humano, que ainda produz a pobreza, racismo, machismo e todo tipo de intolerância. A doença não faz seleção de cor, gênero ou condição social, matando qualquer pessoa sem distinção. Espero que isso provoque uma tomada de consciência para aqueles que concentram riqueza.

O que é o "Papo 40" e como surgiu a ideia?

É um bate-papo entre pessoas que estão na quarentena com a finalidade de colocar em dia assuntos variados. A ideia surgiu na cozinha de casa, quando me peguei conversando com um amigo sobre assuntos que não eram ligados ao trabalho de apresentador/ator. Daí vi que dentro da onda positiva das lives podia chamar pessoas anônimas que tivessem um trabalho interessante nas redes sociais e começar a entrevistar. Eu já falei com crianças, idosos e jovens, que me surpreenderam com suas posições sobre política, economia, religião e cultura.

Qual foi o saldo do Desafio 19, que você lançou no Instagram? Curtiu a experiência?

Saldo positivo. Aproximadamente 500 pessoas mostraram que se interessam por leitura e estão lendo de verdade nesse período de isolamento social. Estou pensando, inclusive, em retomar o projeto porque tenho relato de pessoas que já não liam há tempos e voltaram a ler pelo menos uma página por dia, como pedia o #Desafio19.

Como foi conviver cinco anos com Flávio Migliaccio? O que você mais aprendeu com ele?

Flávio era um experiente homem das artes e que me recebeu carinhosamente quando cheguei ao Rio de Janeiro pra trabalhar. Ele me ensinou muitas coisas. Lembro de um dia que a gente estava escalado para duas cenas de ‘Tapas e Beijos”, uma no final da manhã e outra no final do dia, e Flávio teve a ideia de irmos ao cinema durante o longo intervalo que havia entre as cenas. Nós assistimos ‘Um Conto Chinês’ com o Ricardo Darín e foi uma delícia conversar sobre cinema e arte com esse mestre da interpretação. Engraçado que, quando voltamos para gravar a última cena, nós fizemos várias alusões ao filme. Tenho muito carinho por este dia e guardo isso como se fosse um curta-metragem estrelado por Flávio Migliaccio e Érico Brás. Era o nosso ‘Conto Chinês’. Saudades.

Vamos falar sobre o 'Se joga'? Houve uma resistência inicial do público com o programa, refletida na audiência, que depois se estabilizou. A que você credita isso? Uma certa saudade misturada com vontade de desapegar do Vídeo Show, talvez?

O "Vídeo Show' era um programa que já fazia parte da vida das pessoas e quando você mexe em um costume que estava ali há anos, os fãs se manifestam de alguma forma. O “Se Joga” estreou num horário que estava vazio há meses e vinha cumprindo um papel importante de fazer a ligação com o novo momento da televisão, que é essa troca com o conteúdo da internet.

Como andam as conversas sobre o retorno das gravações? Há chance de o programa não voltar?

Ainda não temos uma data para voltar ao ar. Nosso programa é ao vivo e a equipe é grande. O que sabemos é que devemos permanecer em casa e seguir as regras para não ficarmos doentes. Mas já, já a gente volta para celebrar a vitória da humanidade sobre essa pandemia.

O momento é complicado, mas é preciso pensar no futuro. O que vem pela frente na sua carreira, além do provável retorno do programa?

Realmente o momento é difícil. Mas como estou escrevendo muito nesse confinamento, talvez lance algo de literatura no final do ano.