Pandemia leva tradicional benção dos Capuchinhos para calçada da basílica na Tijuca

Geraldo Ribeiro
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RIO - A pandemia do novo coronavírus alterou uma antiga tradição religiosa do Rio, que é inclusive patrimônio cultural do município: a benção dos frades Capuchinhos, que acontece sempre na primeira sexta-feira de janeiro, para que os cariocas possam começar o ano com a proteção divina, e atraía uma média de 40 mil pessoas até o ano passado.

Desta vez, para garantir o distanciamento social e evitar aglomeração, tanto a igreja como o acesso ao pátio permaneceram fechados. Mas, não significa que os fiéis ficarão sem atendimento espiritual. Para isso, foram montados dois palanques do lado de dentro do muro e as pessoas recebem a benção da calçada ou de dentro dos carros.

— A igreja tem que se adequar às mudanças e essa foi a forma que encontramos para o povo não ficar sem a benção — explicou o frei Arles Dias de Jesus.

Ele contou que 15 frades capuchinhos estão se revezando desde às 6h no atendimento ao público. A benção é dada por cima da grade do muro, sem qualquer tipo de contato físico. Com a igreja aberta, esse número costuma dobrar, recebendo reforço de religiosos de outras cidades, como Petrópolis e Teresópolis e até de outros estados como Minas Gerais e Espírito Santo.

Com o fechamento do templo, os fiéis podem acompanhar as missas que estão sendo transmitidas online pelas redes sociais do santuário. Foram programadas um total de cinco, sendo que a primeira foi às 7h e a última está marcada para as 18h. Em condições normais, costumavam ser 15.

— Também optamos por suspender a confissão, que costumava acontecer junto com a benção, porque nesse caso não tem como manter o distanciamento entre o fiel e o religioso — explicou o frei.

A alteração da forma de receber a benção não afastou fiéis como a aposentada Maria Amélia Soares, de 62 anos, que foi pedir saúde e proteção. Ela aproveitou para pedir também pelos profissionais de saúde.

— Nessa época de pandemia precisamos estar apegados a Deus. Espero que a situação melhore logo. Vim pedir também pelos médicos e profissionais da saúde que estão na linha de frente ajudando as pessoas — afirmou.

O empresário Robson Pereira, de 42, que ia pela primeira vez receber benção dos Capuchinhos fez um pedido especial pela chegada da vacina. Também pediu proteção para ele e sua família.

— Espero que esse ano apareça uma vacina que combata esse vírus. Não podemos entrar na igreja, para evitar aglomeração e a benção vem pela grade, de uma forma nunca vista antes. A pandemia mudou as rotinas e temos de nos adaptar.

A mudança foi decidida há cerca de duas semanas. Até então, diante da queda de casos de Covid-19 as missas presenciais tinham voltado e estavam sendo realizadas com público reduzido, em 30%. Mas, com o aumento dos registros de contaminados pelo novo coronavírus, a igreja optou por suspender s cerimônias. E é provável que o mesmo aconteça no próximo dia 20, quando é celebrado o Dia de São Sebastião, o padroeiro da cidade do Rio de Janeiro.

Em princípio, nesse dia só deve ser realizada uma única missa, às 10h, sem a presença de público. A cerimônia conduzida pelo cardeal arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, deverá contar apenas com a participação de autoridades religiosas e políticas. Também não está prevista a realização da tradicional procissão do padroeiro, também considerada patrimônio cultural do Rio. A imagem do padroeiro deve percorrer a cidade, acompanhada apenas por batedores, sem o cortejo dos fiéis.

— Isso pode mudar. Vamos acompanhar as orientações da Organização Mundial da Saúde e autoridades municipal e estadual, além do decreto do cardeal — disse o frei Arles.

Tradição centenária e patrimônio do Rio

A benção dos Capuchinhos, também conhecida como bênção dos Barbadinhos, teve início em 1886 e é considerada Patrimônio Cultural Carioca desde 2014. O mesmo acontece com a procissão de São Sebastião, o padroeiro da cidade, realizada no dia 20 de janeiro.

A tradição começou com o frei Fidélis de Ávola, fervoroso devoto de Nossa Senhora de Lourdes. Ao ser curado de uma grave enfermidade com água benta, o religioso mandou construir uma gruta dedicada à santa, ao lado da então Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo, no Centro do Rio. A partir daí, os freis Franciscanos Capuchinhos passaram a dar a benção sempre na primeira sexta-feira de cada mês.

Mas, com o passar dos anos e o aumento do número de fiéis juntamente com a crença de se começar bem o novo ano abençoado por Deus, com essa bênção especial dos "barbadinhos” passou para primeira sexta-feira de janeiro. Com a demolição do Morro do Castelo e a transferência da igreja para a Rua Haddock Lobo, na Tijuca, em 1931, a bênção passou a ser dada na basílica de São Sebastião no bairro da Zona Norte do Rio.