Pandemia mantém desafios para o mundo esportivo em 2021; adiamentos e cancelamentos voltam à pauta

Tatiana Furtado
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No início de 2020, a pandemia do coronavírus pegou de surpresa o mundo esportivo que, às pressas, se viu obrigado a cancelar e adiar uma série de eventos, incluindo os Jogos Olímpicos de Tóquio — o COI afirma que está de pé este ano. Quase um ano depois, a epidemia global não arrefeceu, contabiliza recordes mundiais de casos e mortes, surgem novas ondas em praticamente todos os continentes e o esporte se vê novamente diante da decisão de aceitar alguns riscos ou ser impedido de realizar as competições na data prevista por medidas governamentais e por deliberação própria.

E assim os calendários esportivos de 2021 já começam cheios de buracos em diversas modalidades. Do final de dezembro até o momento, a Fórmula 1, o tênis, o surfe, e eventos de base, como os mundiais Júnior, sub-17 e sub-19 de pentatlo moderno, por exemplo, tiveram etapas e competições adiadas ou canceladas. Ontem, o Comité Paralímpico Brasileiro (CPB) comunicou a suspensão do calendário de competições de atletismo, halterofilismo, natação e tiro esportivo do primeiro semestre por causa do aumento de casos no país.

Menos de um mês depois de anunciar o calendário oficial com 23 GPs, a Fórmula 1 confirmou o adiamento de duas etapas esta semana. Incluindo a de abertura, que seria na Austrália, em março, remarcada para novembro por causa das restrições impostas aos viajantes para conter a nova onda do coronavírus. O GP da China também não será mais em abril, mas a nova data não foi confirmada pelos organizadores.

Competições mundiais que reúnem atletas de várias partes do mundo, como os circuitos de surfe e tênis, também se veem impedidos de realizar algumas etapas por causa da situação das cidades e países sedes dos eventos. A WSL, por exemplo, cancelou a etapa do Havaí, deste mês, após o governo local proibir torneios de surfe no estado, e adiou a da Califórnia, ainda sem data remarcada.

Já a ATP, em dezembro, havia anunciado o calendário com mudanças. O primeiro Grand Slam do ano, o Australian Open, passou de janeiro para fevereiro. O ajuste feito pela organização visa a cumprir as medidas restritivas impostas pelo país, com uma quarentena de duas semanas dos atletas. O qualifying do torneio teve de ser disputado em Dubai esta semana. Com as mudanças de datas, o Masters 1000 de Indian Wells e o Rio Open foram adiados sem previsão de encaixe, por enquanto. Os torneios de Auckland e Nova York foram cancelados.

No caso do Rio Open, o pedido de adiamento partiu da organização do evento que vem monitorando a situação da pandemia na cidade e no país.

Segundo o diretor do torneio, Lui Carvalho, as previsões de novembro já mostravam uma situação crítica nos primeiros meses do ano, deixando bem claro que a pandemia não acabou:

– Achamos prudente não operar o evento em fevereiro e foi a melhor das decisões. A intenção é migrar para o meio do ano, entre junho e agosto, mas não temos informações certeiras de como estaremos até lá. A esperança é conseguir achar uma data e a pandemia estar controlada com um plano de vacinação corrente. De qualquer forma, não vai ser um evento 100% normal. Mas para o Rio Open o modelo sem público é o menos adequado, tirando o público perderia muito a essência. Estamos trabalhando com vários modelos possíveis, a última opção é o cancelamento.

Na visão estritamente médico-sanitária, os grandes eventos não deveriam estar acontecendo mesmo sem público. Especialista em medicina do esporte, Claudio Gil, argumenta que o mundo vive o pior momento da pandemia, mais intensa do que no ano passado. A prática do esporte de competição, neste cenário, só se sustenta por se tratar de negócio:

– O esporte é sempre bom, mas ele não tem a ver com saúde mais, é entretenimento e business. A maioria dos esportes têm contato, mesmo os que não têm, numa competição é difícil restringir o contato. Neste momento, cada um deve se proteger para proteger a comunidade. Não há outro modelo, o resto é fantasia.

Quem optou por manter a temporada, como a NBA, teve de correr para modificar protocolos por causa dos surtos da Covid-19. Até ontem seis partidas foram adiadas por os times não terem atletas suficientes para colocar em quadra. Agora, a circulação dos atletas no período em casa e nos hotéis terá de ser restrita aos eventos relacionados ao esporte pelas próximas duas semanas. Ano passado, a liga americana de basquete só conseguiu terminar a temporada por realizar uma bolha na Disney.

A bolha foi a saída para a realização do Mundial de Handebol masculino, que começou ontem, no Egito. A competição é considerada o primeiro grande evento da pandemia por reunir 32 seleções num mesmo local. Estima-se que sejam realizados 20 mil testes de PCR ao longo do torneio (todos serão testados a cada 72 horas). Mas antes mesmo de começar, os efeitos da pandemia apareceram. Por causa do número casos de Covid-19 no elenco, os times dos Estados Unidos e da República Tcheca desistiram de participar; Suíça e Macedônia serão as substitutas.

A seleção brasileira também foi afetada e sequer realizou os últimos amistosos. Durante o período de preparação, sete casos foram confirmados, sendo os jogadores Thiago Petrus e Ferrugem, e cinco integrantes da comissão técnica, incluindo o técnico Marcus Tatá. Ferrugem foi substituído por Bombom. Petrus e Tatá farão novos exames para poderem embarcar com competição em andamento. O Brasil estreia na sexta-feira contra a Espanha.

O futebol é um caso à parte. Mesmo países que retomaram algum tipo de lockdown, como Inglaterra e Alemanha, mantiveram os campeonatos nacionais. A Champions também segue a programação prevista. Apesar de a vacina já ser uma realidade em dezenas de países europeus, os efeitos sobre a pandemia não serão imediatos.