Pandemia do novo coronavírus avança em um mundo cada vez mais confinado

Por Alexandria Sage, con las oficinas de AFP en todo el mundo
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Sacerdote com máscara de proteção dá sua bênção a um falecido pela epidemia de coronavírus, às portas de um cemitério da Lombardia, norte da Itália, 23 de março de 2020

A lista de países que decidem confinar seus cidadãos cresce a cada dia, o último deles foi o Reino Unido nesta segunda-feira (23), mas apesar de haver mais de 1,8 bilhão de pessoas no mundo submetidas a uma gigantesca quarentena, a pandemia do coronavírus continua matando e avançando.

"A partir desta noite, devo dar aos britânicos uma instrução muito simples: devem ficar em casa", anunciou nesta segunda o primeiro-ministro, Boris Johnson, confinando o país por pelo menos três semanas para tentar conter o novo coronavírus, após 335 mortes e 6.650 casos confirmados, embora os possíveis infectados se estimem em pelo menos 55.000.

A pandemia "acelera" mas é possível "mudar sua trajetória", disse nesta segunda o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, pedindo mais exames de diagnóstico e mais quarentenas para contê-la.

O novo coronavírus provocou mais de 16 mil mortes no mundo desde que surgiu em dezembro passado na China, mais de 10 mil delas na Europa, segundo cálculos feitos pela AFP com base em números oficiais.

Além disso, mais de 360 mil pessoas foram infectadas, segundo os casos diagnosticados, embora a cifra real seja, sem dúvida, muito mais elevada.

A pandemia não respeita fronteiras. Do outro lado do Atlântico, o balanço aumentou tragicamente nas últimas horas nos Estados Unidos e é grande a preocupação em Nova York.

"Avança tão rápido...", pensava em voz alta o prefeito da cidade, Bill de Blasio, que pediu urgentemente "centenares de respiradores" e "milhões de máscaras" para salvar as vidas de pessoas que têm saúde mais delicada.

Nova York tem até agora 12.300 casos diagnosticados e 99 mortos. Está longe dos 6.000 mortos registrados na Itália, um espelho no qual ninguém quer se refletir, mas poderia "se aproximar" daquela realidade, segundo as autoridades sanitárias americanas.

Na Itália foram registrados 600 mortos nas últimas 24 horas, um balanço desolador, mas inferior aos registrados no sábado e no domingo. O país se agarra a estes dados e quer acreditar que pode ser o início do recuo da pandemia.

"Ainda não é o momento de cantar vitória, mas vemos uma luz no fim do túnel", comentou com um sorriso tímido Giulio Gallera, encarregado de Saúde do governo regional da Lombardia (norte).

- Pista de patinação no gelo vira necrotério -

Em Itália, França e outros países do mundo foram decretadas medidas mais estritas para o confinamento da população, com o convencimento de que são o melhor antídoto contra a pandemia.

Quem não respeitar as restrições é punido, multado e em alguns países, preso.

"Chega!", disse o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, nesta segunda, indignado com a falta de civismo de alguns de seus compatriotas.

O mesmo ocorreu na Bolívia, onde as autoridades mostraram-se preocupadas ao ver que os cidadãos continuavam saindo às ruas quase normalmente apesar da quarentena decretada.

"Se os bolivianos não levarmos isto a sério, o que vai nos matar não será o vírus, mas a estupidez", disse o ministro boliviano de Obras Públicas, Iván Arias.

Na Espanha, o segundo país mais afetado da Europa pela COVID-19 depois da Itália, a epidemia não recua e o número de mortos já passa dos dois mil. Deste total, 462 foram registrados nas últimas 24 horas o dia mais letal desde o início da epidemia. O governo repete que os dias mais difíceis ainda estão por vir.

"Parece que vai abrandando progressivamente o aumento de casos que vemos a cada dia. No entanto, ainda não temos certeza de ter chegado ao pico", disse o diretor de emergência sanitária, Fernando Simón.

As autoridades transformaram uma pista de patinação no gelo de um shopping center de Madri em um necrotério para armazenar corpos de falecidos por causa do novo coronavírus. Por outro lado, a ministra da Defesa, Margarita Robles, anunciou que o Exército tinha encontrado em casas de idosos "idosos absolutamente abandonados, quando não mortos em suas camas".

- "Silenciem as armas" -

De Nova York, o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo nesta segunda "a um cessar-fogo imediato e global" para preservar os civis dos países em conflito durante a pandemia do novo coronavírus.

"A fúria do vírus revela claramente que a guerra é uma loucura", ressaltou, sem citar nenhum país em particular.

A Síria reportou o primeiro caso de COVID-19 em um país que já sofreu dez anos de uma guerra brutal e foram registrados contágios em outros locais conflituosos como a República Democrática do Congo e o Afeganistão.

"Silenciem as armas; detenham a artilharia; ponham fim aos ataques aéreos", pediu Guterres.

Um a um, os países parecem se render às evidências: esta crise sanitária será longa e a primeira vacina, segundo os grandes grupos farmacêuticos, não estará disponível antes de 12 a 18 meses.

Enquanto isso, o remédio mais eficaz parece ser lavar as mãos com água e sabão e manter distância dos demais, dois requisitos complicados nos locais mais pobres do mundo.

"Nos dizem que temos que lavar as mãos o tempo todo, mas como podemos fazê-lo se falta água corrente o tempo todo?", perguntava Vania Ribero, encarregada de uma associação de uma comunidade no Rio de Janeiro.

Na África, outra causa de preocupação para os especialista sanitários, a pandemia ainda não causou estragos, mas a cada dia mais países anunciam casos ou mortes por coronavírus. Nesta segunda, a África do Sul decretou três semanas de confinamento e países como Senegal e Costa do Marfim impuseram toque de recolher e decretaram estado de emergência.

Na China, para prevenir uma segunda onda de contágios por casos "importados" (39 só nesta segunda), os passageiros de voos internacionais com destino a Pequim terão que fazer uma escala prévia em outra cidade chinesa para se submeterem a exames.

- Isolamentos, quarentenas e toques de recolher na América Latina -

Na América Latina, onde há 4.900 infectados e 65 mortos, segundo dados da AFP, muitos países impuseram restrições severas à circulação. Cuba decidiu isolar todos os turistas em hotéis e o México anunciou o fechamento, a partir de hoje, de museus, teatros, cinemas e zonas arqueológicas.

Brasil e Uruguai acordaram fechar suas passagens terrestres por pelo menos 30 dias e o Chile começou a aplicar toque de recolher noturno, somando-se a medidas similares adotadas em Bolívia, Peru e Equador.

Na Venezuela, a luta contra a pandemia virou batalha política e o presidente Nicolás Maduro e o opositor Juan Guaidó se enfrentaram por causa das cifras de pessoas infectadas no país.

Nos Estados Unidos, apesar do aumento de casos - 573 mortos e 41.000 infectados - os democratas e os republicanos do Senado não conseguiram chegar a um acordo no domingo sobre um plano de incentivos, que pretendia mobilizar quase 2 trilhões de dólares para ajudar a economia.

Consequentemente, a grande maioria dos mercados operaram em baixa nesta segunda-feira.

Nesta segunda, os países da União Europeia (UE) deram sinal verde à proposta da Comissão Europeia (braço executivo do bloco) de suspender as regras de disciplina orçamentária para permitir aos governos aumentar seus gastos públicos para enfrentar o novo coronavírus.

A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, advertiu que o dano econômico do coronavírus para a economia mundial poderia provocar uma "recessão pelo menos tão ruim" quanto a da crise financeira de 2009.

Por fim, a pandemia poderia levar ao adiamento dos Jogos Olímpicos, previstos para julho no Japão, uma possibilidade que, em vista da situação, parece um fato, mas que não foi oficializada ainda pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

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