Pandemia como pretexto para violência em áreas da Colômbia durante confinamento

Por Diego LEGRAND
Indígenas colombianos preparam bolsas de comida de suas colheitas para compartilhar entre famílias vulneráveis em Popayán, Cauca

Apertados em uma moto, Armando Muñoz, sua esposa e duas filhas pequenas avançavam por uma aldeia empoeirada no sudoeste da Colômbia quando foram baleados. O homem e seu bebê de nove meses morreram na hora e a menina de cinco anos dois dias depois.

A família foi atacada em 9 de maio, supostamente por um grupo armado que espalhou panfletos que ameaçavam de morte quem violasse o confinamento imposto pelo governo para conter a pandemia, segundo a promotoria. Apenas a esposa de Armando sobreviveu.

Em regiões mais distantes, guerrilheiros, dissidentes das FARC, narcotraficantes e gangues criminosas de origem paramilitar encontraram na emergência de saúde um pretexto para impor suas regras de aço e ampliar o domínio territorial, afirmam especialistas entrevistados pela AFP.

Esses grupos querem "ganhar legitimidade" nas mesmas áreas onde já aterrorizavam os civis, explica Mateo Gómez, diretor do sistema de alertas antecipados da Defensoria do Povo.

"Não é um fenômeno novo, é o modo como os grupos armados estão adequando sua forma de operação ao contexto e à realidade da crise de saúde", acrescenta.

Desde a detecção do primeiro caso de COVID-19 na Colômbia em 6 de março, a Defensoria registrou até meados de maio 42 eventos violentos, entre homicídios e ameaças.

Envolvidos na luta estão rebeldes que se afastaram do acordo de paz que dissolveu as FARC em 2016, guerrilheiros do ELN e gangues ligadas a cartéis mexicanos.

O exército também reforçou seu contingente para tentar impedir a violência de décadas que o acordo de paz não conseguiu extinguir.

- De longa data -

Quando ocorreu o assassinato da família Muñoz, nenhuma autoridade o relacionou ao controle da pandemia.

Os grupos armados não impõem o confinamento "por serem altruístas e estarem preocupados com a saúde pública, o fazem para gerar medo na população. E deixar mensagens (...) de que eles, sim, podem controlar" a expansão da doença, afirma o general Marco Mayorga, chefe de comando do exército para o Cauca.

Desde antes do surgimento da emergência na saúde, as organizações armadas já aplicavam o confinamento como estratégia de guerra.

Até o momento neste ano, pelo menos 43.500 colombianos foram forçados ao confinamento em suas comunidades, de acordo com o Departamento de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU.

Essa prática viola o direito internacional humanitário e "invisibiliza a guerra" devido ao seu baixo nível de denúncia, destaca o responsável pelo sistema de alertas da Defensoria do Povo.

Com a extensão do confinamento até 31 de maio, a ameaça aumenta.