Pandemia reduz aprendizado em toda a educação básica, aponta avaliação federal

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O fechamento das escolas por causa da pandemia de coronavírus resultou em uma queda de aprendizado dos alunos de escolas públicas e privadas em todas as etapas da educação básica, mostram os resultados de avaliação federal realizada em todo o país em 2021. Os dados foram divulgados nesta sexta (16).

Considerando as redes pública e privada, a maior perda ocorreu em matemática no 5º ano do ensino fundamental, cuja nota na avaliação passou de 227,88 em 2019 para 216,85 pontos em 2021. O resultado representa um regresso ao patamar de 2013.

Segundo os resultados, 38,9% dos estudantes chegaram a essa série sem conseguir, por exemplo, identificar figuras geométricas como um triângulo ou círculo. Em 2019, eram 30,3% alunos nesse patamar.

A queda interrompeu uma tendência de melhoria experimentada desde 2005, início da série histórica do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

Na rede pública, a queda foi de 12,36 pontos (passando de 222,41 para 210,05). Essa perda equivale ao aprendizado de um ano, segundo a escala da avaliação.

Com essa pontuação, um aluno do 5º ano não conseguiria converter mais de uma hora inteira em minutos.

Em língua portuguesa, o impacto na aprendizagem foi menor no 5º ano. O resultado total do país passou de 214,64 para 208,01, o que representa um recuo de 6,63 pontos —ou meio ano de aprendizado.

O professor da USP Ocimar Alavarse destaca que há de se ter uma preocupação especial com a questão de leitura, que é fundamental para a obtenção de outros conhecimentos.

"Provavelmente, essa geração está no 6º ano, onde entram vários professores e disciplinas e, pela própria característica da etapa, os alunos recebem menos atenção", diz ele. "Os resultados chegam só agora e há necessidade de um acompanhamento especial".

O Saeb compõe o principal termômetro da educação brasileira. A aplicação é feita a cada dois anos pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão do Ministério da Educação.

A avaliação, que envolve provas de português e matemática, compõe um indicador chamado Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), ao combinar resultados de aprovação escolar. Como na pandemia as redes de ensino seguiram orientação de não reprovar os alunos, os dados do Ideb ficaram prejudicados, indicando um comportamento artificial de melhora.

O Brasil foi um dos países com maior tempo de escolas fechadas no mundo. Foram quase dois anos letivos sem aulas presenciais. A oferta de ensino remoto foi desigual pelo país.

Nos anos finais do ensino fundamental (9º ano), a queda em matemática foi menor, de 6,52 pontos (passando de 265,16 para 258,64) quando consideradas também escolas públicas e privadas. Em português, o cenário foi de estabilidade nesta série (era 262,30 em 2019 e passou para 260,41 no ano passado).

Essa média em português do 9º ano indica que os alunos não conseguiriam reconhecer opiniões distintas sobre o mesmo assunto em reportagens, contos e enquetes.

Já no ensino médio, a nota de matemática passou de 278,53 para 271,00 (perda de 7,53 pontos).

Em língua portuguesa, a queda foi mais leve, de 3,56 pontos: de 279,53 para 275,97 entre 2019 e 2021.

Tantos nos anos finais do fundamental quanto no ensino médio os resultados intensificam o cenário preocupante já identificado nas avaliações de anos anteriores. As duas etapas são consideradas grandes gargalos da educação brasileira.

"Essas perdas são decorrentes do longo período de escolas fechadas e também de dificuldades históricas dos nossos sistemas educacionais, estratégias são fundamentais para recuperação de nossos estudantes", disse o ministro da Educação, Victor Godoy, em entrevista coletiva nesta sexta.

O diagnóstico surge mais de um ano depois do início do retorno presencial mais generalizado, ocorrido a partir de agosto de 2021. Especialistas indicam necessidade de cautela na análise desses resultados, uma vez que cada rede teve uma realidade diferente, seja de capacidade para oferta de ensino remoto ou de possibilidade de retorno presencial.

"Esse Saeb é um grande alerta porque é possível, especialmente no 9º ano e no ensino médio, que ele não captado toda queda que ocorreu por causa da queda na taxa de participação", diz o diretor de conhecimento, dados e pesquisa da Fundação Lemann, Daniel de Bonis.

"Temos que tomar muito cuidado para não interpretar os dados achando que não foi tão ruim e que basta seguir no modus operandi de sempre, o que seria muito ruim. O foco na recomposição das aprendizagens é importante e os impactos ainda estão sendo sentidos".

No Saeb são avaliados estudantes do 5º ano e 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio. Há provas amostrais no 2º ano do ensino fundamental e de ciências no 9º ano.

O governo Jair Bolsonaro (PL) não promoveu ações para acompanhar o impacto do fechamento das escolas durante a pandemia. As escolas começaram a ser fechadas em março de 2020.

Não houve no período ações de apoio federal às redes de ensino para a manutenção do ensino remoto ou mesmo para o retorno à escola, o que se agrava entre as prefeituras mais pobres. Os indicadores oficiais de qualidade surgem sem que o MEC tenha um projeto para recuperar as aprendizagens.

Algumas pesquisas pontuais haviam indicado prejuízos de aprendizado para os alunos. Mas somente agora o país tem um diagnóstico mais amplo e que busca alcançar todo país.

Os dados divulgados nesta sexta-feira não permitem analisar impactos em populações específicas, como os relacionados a alunos mais pobres e negros, por exemplo.

O ano de 2021 marca o fim do ciclo do Ideb. O indicador foi criado em 2007 e estipulou metas até 2021, na efeméride dos 200 anos da Independência do Brasil. Por causa da pandemia, a mensuração sobre o alcance dessas metas fica imprecisa.

A própria realização do Saeb de modo amostral e a decisão de manter a divulgação do Ideb não foram consenso entre especialistas —um grupo defendia a aplicação de avaliações amostrais, para serem feitas com maior velocidade e que pudesse fornecer informações sobre os impactos. O MEC manteve, entretanto, o mesmo modelo de aplicação.

Na edição de 2021, houve participação de 71,27% dos alunos previstos. Um conjunto de 5.320.116 estudantes da educação básica realizou a prova.

A consequência disso, além de uma divulgação considerada atrasada com relação aos desafios enfrentados, foi a dificuldade de participação dos estudantes. O MEC teve de alterar as regras de divulgação, reduzindo o percentual mínimo de presença no Saeb, para que houvesse resultados mais amplos.

O Ideb e o Saeb sempre são lançados em anos eleitorais. O governo Bolsonaro decidiu fazer a divulgação sem antecipar os dados para a imprensa, quebrando uma tradição do que ocorria nas últimas edições.