Pandoravírus: O que são os misteriosos micro-organismos e por que cientistas duvidam que sejam vírus

José Carlos Cueto - BBC News Mundo
·3 minuto de leitura
Representação gráfica de um vírus gigante.
Pandoravírus, incluídos no grupo dos vírus gigantes, contêm muito mais genes do que um vírus normal.

Quando o primeiro pandoravírus foi descrito há alguns anos, ficou claro para os cientistas que eles estavam diante de algo novo.

Os pandoravírus fazem parte da família dos vírus gigantes e podem ser até dez vezes maiores do que um vírus comum, medindo tanto quanto ou mais do que bactérias pequenas.

Além disso, eles têm muito mais genes. O vírus influenza A, por exemplo, tem um genoma composto de cerca de oito genes. Um pandoravírus pode abrigar cerca de 2,5 mil.

A investigação de vírus gigantes descobriu coisas surpreendentes, como o fato de que eles costumam ser o alvo de vírus canibais, ou seja, vírus que parasitam outros vírus.

E, recentemente, um estudo encontrou evidências de que alguns pandoravírus geram uma membrana em potencial que só é possível por meio da produção de energia.

Representação gráfica de um vírus gigante
Os vírus gigantes costumam ser alvos de vírus canibais, ou seja, vírus que parasitam outros vírus

Este estudo, liderado pelo Instituto de Infecções do Hospital Universitário Mediterrâneo, na França, se insere no debate científico sobre se os pandoravírus são um tipo de vírus ou se estamos lidando com um grupo biológico ainda não categorizado.

Especialistas continuam céticos em relação a essa possibilidade, argumentando que ainda há muitas pesquisas pendentes para se pensar em outra classificação biológica.

Origem

"Os primeiros vírus gigantes foram descritos em 2003, e o primeiro foi chamado de mimivírus. Desde então, os chamados pandoravírus foram descobertos e seus genomas, estudados", diz David Lamb, cientista da Universidade de Swansea no País de Gales, no Reino Unido.

Eles são caracterizados por seu tamanho, maior que 200 nanômetros, enquanto os vírus comuns são definidos como sendo menores que 200.

Os vírus gigantes são observáveis ​​à luz de um microscópio óptico, enquanto os outros só podem ser vistos com um microscópio eletrônico.

Mulher observando através de um microscópio
Os vírus gigantes podem ser vistos por meio de um microscópio comum

Mas só em 2013 o termo pandoravírus foi cunhado, quando um dos maiores, o salinus, foi descoberto no pantanal de Tunquén, no Chile.

"Chama-se pandoravírus em referência à 'caixa de pandora', uma caixa misteriosa da qual se fala na mitologia grega. Foi chamado assim porque seu genoma codifica 80% de proteínas completamente desconhecidas que compõem esse tipo de vírus, o que faz dele uma caixa cheia de surpresas", explica o professor Bernard La Scola, da Universidade Aix-Marseille, na França.

Eles são realmente vírus?

Pandoravírus e vírus gigantes, de acordo com os pesquisadores do estudo recente, mudaram a definição de vírus de várias maneiras.

Por exemplo, a primeira vez que foi descrito que os vírus também poderiam ser infectados por outros vírus foi por meio da análise destes micro-organismos gigantes.

Representação gráfica de vírus e bactérias
Alguns vírus gigantes podem medir tanto ou mais do que algumas bactérias pequenas

Agora, com a descoberta de um gradiente elétrico, esse grupo de cientistas suspeita que os pandoravírus também sejam capazes de produzir sua própria energia.

"A produção de energia está associada ao mundo celular vivo, mas certamente não a vírus que, por definição, não são considerados seres vivos, porque parasitam um organismo e exploram seu metabolismo energético para se replicar", diz La Scola.

"As descobertas questionam a definição de vírus e podem sugerir que os pandoravírus simplesmente não são vírus."

"Estruturalmente, os pandoravírus ainda são vírus pela forma como se replicam. Ainda há muita pesquisa a ser feita para saber se poderia ser outra coisa, mas o certo é que estão lançando cada vez mais luz sobre a biologia", esclarece Lamb.

O estudo sobre a produção de energia dos pandoravírus é preliminar e ainda não foi revisado por pares.

Diante da recente pandemia de coronavírus, La Scola reconhece que há uma tendência crescente de classificar os vírus com base na capacidade de infectar humanos ou não.

"Mas o mundo dos vírus é muito grande. Os patógenos são apenas uma parte um pouco mais estudada. No momento não há dados que sugiram que eles possam ser perigosos", conclui o especialista.

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