Panmela Castro disponibiliza telas de sua nova exposição em seu site

Eduardo Vanini

Panmela Castro já está habituada a escutar histórias de mulheres ao pé do seu ouvido, nas mais diversas ocasiões. “Às vezes, estou num evento tomando uma cerveja, e elas vêm até mim. Já é assim há algum tempo.” A artista plástica carioca de 38 anos diz isso sem demostrar qualquer incômodo em relação às abordagens, intensificadas desde que as suas obras ganharam projeção internacional. Entre grafites, telas e performances, Panmela costuma se debruçar sobre os temas do machismo e da violência contra a mulher em suas criações.

Boa parte desse repertório tem a ver com dolorosas experiências pessoais. Em 2004, quando ainda não existia a Lei Maria da Penha, Panmela foi espancada e mantida em cárcere privado por seu companheiro, durante uma semana. Mais recentemente, precisou acionar a Justiça para se proteger de um ex-namorado que ameaçava a sua integridade pelas redes sociais e cobria suas pinturas em locais públicos. “Como eu trabalho com esses assuntos há muitos anos, tem gente que me vê como uma confidente. E eu sei lidar com elas de um jeito que se sentem bem. Muitas vezes, o que precisam é ser escutadas.”

Seguindo a mesma linha de pensamento, a artista concebeu a exposição “Retratos relatos”, cuja parada inicial é o térreo do Museu da República. Essa é a sua primeira individual numa instituição do tipo e traz um gênero pouco explorado pela artista: o retrato. São 15 telas pintadas a partir de histórias (na sua maioria de abuso físico, sexual e psicológico) recebidas por Panmela através do Facebook, acompanhadas por selfies de suas autoras. “Como não sou psicóloga ou socióloga, não posso ficar dando palpite. No máximo, encaminhá-las a atendimentos por meio da Rede Nami (ONG criada por ela que dá visibilidade aos direitos das mulheres por meio da arte). Como artista, porém, consigo ajudar dessa forma, transformando suas histórias em arte.”

Desde o início da semana passada, a visitação à mostra — que ainda deve percorrer outros museus — está suspensa por causa pandemia do novo coronavírus. Mas Panmela não quer privar o público do contato com as obras. Ela disponibilizou os quadros e os relatos em seu site (panmelacastro.com).

A inquietação, mesmo diante de uma situação extrema, é coerente com a trajetória dessa mulher nascida e criada na Penha e hoje moradora do Catete. “Desde criança, eu organizava jornais e revistas no colégio para contar histórias. Aos 17 anos, cheguei a ser censurada pela direção”, diz ela, que no fim do ano passado voltou a sentir o gosto da repressão, ao ter um painel com criticas à truculência policial censurado em Miami. Ela, porém, não baixa a cabeça e segue com determinação, para citar outra característica. “Sou artista desde sempre. Fiz o meu primeiro trabalho aos 12 anos. Minha mãe me botava para vender as obras e, jovem, fazia caricatura a R$ 1 no Largo da Carioca.”

Entre prêmios e mostras internacionais, Panmela já esteve na lista das 150 mulheres que estão abalando o mundo feita pela revista americana “Newsweek”, ao lado de nomes como Oprah e Hillary Clinton. Mesmo assim, ainda sente sua obra tratada como algo marginal no Brasil. “Por eu ser artista de rua, não ser branca e até pelo jeito como eu falo, não sou convidada para um monte de coisas”, diz ela. “Mas não deixo me colocarem num lugar de fetiche. O ponto mais importante do meu trabalho é o fato de ser feito com pessoas e para pessoas.”