"Pantanal" levanta discussão sobre machismo em cena entre Filó e Irma sobre estupro

Filó, José Leôncio e Irma em Pantanal (Globo/João Miguel Júnior)
Filó, José Leôncio e Irma em Pantanal (Globo/João Miguel Júnior)

Nos capítulos recentes de "Pantanal", Irma (Camila Morgado), Filó (Dira Paes) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira) tiveram uma conversa delicada falando sobre machismo e o papel dos homens no aprisionamento e violência contra as mulheres.

O papo começou quando Filó revelou para as amigas que foi estuprada aos 12 anos, e passou alguns anos como prostituta por não ter para onde ir nem como se sustentar. O público, além de se emocionar com a história de Filó e o desabafo de Bruaca (que apoiou a amiga e contou parte da tortura que sofreu morando com Tenório), estranhou a reação de Irma.

Em vez de apoiar as duas e ouvir a história de vida de duas mulheres pobres e de passado trágico, a carioca repetiu várias vezes o discurso de que "nem todo homem" e que é impossível generalizar.

Quando Irma tentou se justificar, dizendo que a sociedade já avançou muito em relação ao ódio às mulheres, as mulheres do "Pantanal" deixaram claro o privilégio contido no discurso da carioca. "É porque você é filha de gente rica, da cidade grande", rebate Bruaca. "Pois então, já que está melhorando, manda essa tropa aí que está mudando as coisas, porque enquanto as coisas não mudam, quem toma no lombo somos nós", completa Filó.

A conversa foi importante por mostrar como tais discursos são atravessados por questões de classe. Irma só teve o privilégio de pensar da forma que pensa por não ter ficado vulnerável o suficiente para sentir o efeito devastador do machismo na pele. A personagem já nasceu rica e protegida, e nunca foi expulsa da casa dos pais após ser estuprada, como aconteceu com Filó, ou vítima de anos e anos de abuso e manipulação psicológica, como aconteceu com Bruaca.

Por ter vivido muito tempo dentro da mansão da família no Rio de Janeiro, sem contato com pessoas de outras origens e classes sociais, Irma adotou o discurso nocivo do "nem todo homem" que dificulta a discussão real a respeito do machismo e da misoginia. Quando esse tipo de discurso generalista é desconstruído, o que fica claro é que a ideia não é acusar todos os homens de serem machistas, e sim mostrar que o problema é estrutural e que faz parte da educação dos homens em toda a sociedade.

Outra questão importante é que a cena já existia na versão dos anos 90 de "Pantanal", mas foi adaptada para discutir a questão de forma séria. Na época, a cena mostrava Irma falando do hímen e de como a sociedade ainda via a virgindade. Na adaptação de Bruno Luperi, a discussão foi para um caminho mais crítico.

Ao dar espaço mais para o desabafo de Filó e a história de Bruaca do que para o discurso de Irma, "Pantanal" mostra a importância de ouvirmos as histórias dessas mulheres para que algo mude quando falamos sobre casos de violência ainda tão comuns em todas as regiões do Brasil.