Pantanal perde 74% da água desde 1985, e pesquisadores dizem que Brasil está secando

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.08.2019 - Entrevista com o engenheiro florestal Tasso Azevedo em praça na zona oeste de São Paulo. Tasso é engenheiro florestal formado pela USP, é coordenador do projeto MapBiomas, consórcio que monitora o uso do solo no Brasil, e do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa). (Foto: Danilo Verpa/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1908241702144489
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.08.2019 - Entrevista com o engenheiro florestal Tasso Azevedo em praça na zona oeste de São Paulo. Tasso é engenheiro florestal formado pela USP, é coordenador do projeto MapBiomas, consórcio que monitora o uso do solo no Brasil, e do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa). (Foto: Danilo Verpa/Folhapress) ORG XMIT: AGEN1908241702144489

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas últimas três décadas, o Brasil vem ficando cada vez mais seco. O país, de 1991 até 2020, perdeu cerca de 15,7% da superfície de água que possuía, o equivalente a 3,1 milhões de hectares. Todos os biomas apresentaram perdas, mas a situação mais preocupante é do Pantanal, com redução de 74% da superfície de água.

Os dados são provenientes do MapBiomas Água, ferramenta do MapBiomas que acaba de ser lançada. A partir de imagens de satélites Landsat, em pixels de 30 m por 30 m, e com auxílio de inteligência artificial, os pesquisadores conseguiram mapear a dinâmica mensal e anual dos corpos d'água superficiais do Brasil, desde 1985.

“O Brasil está secando”, resume Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. “É realmente impressionante.”

O dado encontrado foi tão surpreendente que os pesquisadores do MapBiomas repetiram diversas vezes as verificações dos modelos para confirmar o que era visto, conta Azevedo.

Não é para menos. O pico de área de superfície de água ocorreu em 1991 e, desde então, fica clara a tendência de perda. Considerando todo o período analisado, desde 1985, a redução fica na casa de 7,6%.

Segundo os dados do MapBiomas Água, há tendências de perda de água em 8 das 12 regiões hidrográficas do país.

A Amazônia, desde 1985, teve uma leve oscilação positiva de 0,5%. Mas, tomando como ponto de partida 1991, a perda é de 13%. Na caatinga, a queda da superfície de água ficou em 15%; no cerrado, em 5,5%; no pampa, em 0,4%; e na mata atlântica, em 4,6%, todos com referência no pico, em 1991.

Mas a situação mais crítica é a do Pantanal, ironicamente, um bioma caracterizado por ser alagadiço. Ele perdeu 74% de sua superfície de água desde 1985 e 71% desde 1991.

Segundo Cássio Bernardino, coordenador de projetos do WWF-Brasil, em áreas em que em 1985 seria possível ver espelhos d’água, hoje são encontradas zonas secas. Apesar da queda em todo o período, nos últimos dez anos o processo ficou mais acentuado, diz o especialista.

“Isso afeta toda a dinâmica do bioma”, afirma Bernardino. Ele ressalta que a água no Pantanal é um elemento que ajuda a controlar incêndios. Com a diminuição da área alagada e mais temporadas sem chuva, a matéria orgânica vai ficando mais seca e mais propensa ao fogo.

Em 2019, grandes incêndios na Amazônia chamaram a atenção do mundo. Em 2020, ficou clara a potência que as chamas podem ganhar no Pantanal. Em meio a um período amplamente seco, mais de 20% do bioma queimou, levando também a perdas de fauna na região, prejuízos para proprietários rurais e ainda o potencial de problemas respiratórios atrelados à fumaça das queimadas.

Um cruzamento curioso entre fogo e redução da superfície de água pode ser vista nos dados das novas ferramentas do MapBiomas. Corumbá, de 1985 a 2020, foi a cidade no Brasil com o maior número de queimadas e também o que mais perdeu água. O MapBiomas Fogo, lançado na semana passada, mostra que 20% do país já queimou nas últimas décadas.

Os dois líderes na perda de superfície de água são Mato Grosso do Sul (queda de 57%) e Mato Grosso (queda de quase 53%).

Mas o que pode explicar um desaparecimento tão massivo de água no Pantanal e no Brasil, como um todo, nas últimas décadas?

Azevedo afirma que o MapBiomas Água foi feito para gerar dados passíveis de serem usados em pesquisas que possam ajudar a responder a essa e outras questões. Mas, mesmo assim, há pontos que podem ajudar na compreensão da situação.

O primeiro deles é a crise climática, que provoca a expansão dos períodos secos e chuvas mais concentradas em um curto período de tempo. O relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) lançado recentemente mostra que esse processo deve se intensificar e aponta a urgência em ações para reduzir drasticamente a emissão de gases-estufa.

O segundo ponto destacado pelo coordenador do MapBiomas é o desmatamento da Amazônia.

“Antes a gente tinha muito receio de falar isso, mas eu não tenho mais dúvida. O desmatamento na Amazônia está reduzindo a quantidade de água na própria Amazônia e no Centro-Sul”, afirma Azevedo. “O desmatamento na Amazônia está provocando uma redução de chuva.”

A destruição na Amazônia também influencia a situação do Pantanal, segundo Bernardino, pesquisador do WWF-Brasil. “A Amazônia tem papel fundamental para a chuva na América do Sul. Esse grande sistema que ajudava a regular a precipitação foi impactado”, diz Bernardino.

No caso do Pantanal e de outras regiões do país, a expansão da fronteira agrícola, que, usa os recursos hídricos e faz intervenções, também pode ter contribuído para a situação. Na região pantaneira, o especialista da WWF aponta ainda que as dezenas de barragens para produção hidrelétrica em rios que formam o bioma podem contribuir para a situação de menor quantidade de água.

Por fim, o terceiro ponto, ainda ligado ao desmatamento e à redução das matas, é a diminuição do efeito esponja das florestas, que absorvem a água da chuva e a soltam aos poucos.

Não há soluções simples, principalmente quando se fala na crise climática. Já para a situação local, há remédios possíveis, sendo o mais imediato deles frear o desmatamento. Azevedo também aponta a importância de proteção dos mananciais.

O momento atual, porém, é preocupante. “Estamos em uma trajetória em que não há nenhum elemento para voltarmos ao que era antes”, afirma Azevedo. “As condições estão dadas para perdermos mais água. Podemos estar criando as condições para acabar com o recurso.”

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