Pantanal volta a encher após segunda pior seca da história

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Desde o dia 12 de abril o Rio Paraguai registrava quedas em seu nível, mas desde o último sábado vem subindo e está 5cm mais alto que no fim de semana.
Desde o dia 12 de abril o Rio Paraguai registrava quedas em seu nível, mas desde o último sábado vem subindo e está 5cm mais alto que no fim de semana. (Foto: Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)

Após seis meses de uma das piores secas da história, o Pantanal voltou a encher com as chuvas dos últimos dias. 

Desde o dia 12 de abril o Rio Paraguai, principal rio do Pantanal e um dos mais importantes da América do Sul, vinha registrando sucessivas diminuições no seu nível, até ficar a 1cm do menor já registrado no último sábado. Desde então o rio vem subindo e está 5 cm mais alto que no fim de semana.

Apesar da melhora, é muito cedo para comemorar ainda na opinião do pesquisador da Embrapa Pantanal Carlos Padovani. “Ainda estamos com o rio muito baixo, próximo do mínimo histórico, e nas próximas semanas deve oscilar muito, tanto para cima quanto para baixo, até o final de novembro”, explica o especialista em clima e hidrologia da região, que não projeta melhora significativa nos próximos meses:

"Todas as estações rio acima e em rios como o Cuiabá estão baixos, não tem como esperar mesmo para os próximos meses que a chuva restaure o nível do rio como ocorria nas últimas décadas”.

Padovani utiliza como referência não exclusiva a medição feita a 111 anos pela Marinha do Brasil na cidade de Ladário/MS, vizinha a Corumbá. Trata-se “do melhor termômetro para identificar secas no Pantanal e na Bacia do Alto Paraguai”.

Engenheiro agrononomo e diretor da ONG SOS Pantanal, Felipe Dias explica que o nível do rio Paraguai é crucial para a inundação de toda a planície, em efeito cascata: “Quando a água de rios como o Miranda ou o Cuiabá chegam ao Paraguai cheio, ela é represada e transborda para todo o Pantanal, o que não acontece quando o nível lá em Ladário está baixo”.

Ele conta ainda que se dependesse apenas das chuvas locais, toda a região seria um semi-árido semelhante à Caatinga. “Cerca de 80% da água daqui vem da área norte, em Mato Grosso; quando soube que outubro choveria acima da média até bati palma, mas me preocupa muito que novembro e todo o verão tem previsão para menos que o comum sob efeito do La Niña. Venho torcendo muito, mas não temos nenhuma melhora em vista”, relata.

Projeto Solos
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Mais um ano de La Niña

O verão de 2019 e 2020 teve chuvas abaixo da média em grande parte das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país muito em função do evento La Niña, que desloca os “rios voadores” da Amazônia que normalmente fluem até o litoral paulista para o Nordeste do país.

“As únicas partes do Sudeste que acabam recebendo mais chuva que a média com La Niña são aquelas no norte da região, já quase na Bahia, então é quase uma certeza de que não teremos chuvas acima do esperado neste verão, e devemos continuar com rios e reservatórios secos em 2022”, afirma Michelle Reboita, doutora em meteorologia pela Universidade Federal de Itajubá.

Segundo os dados da Marinha obtidos pela reportagem do Yahoo!, 1964 foi o ano mais seco da história no Pantanal e Alto Paraguai. Enquanto o governo de João Goulart era deposto pelos militares, o rio recuava até chegar à marca de -0,61m em 21 de outubro. Nos dez anos seguintes as planícies inundáveis do Pantanal ficaram secas.

Boletim do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) prevê chuvas abaixo da média ao longo do verão para grande parte do Pantanal, Cerrado e Caatinga — justamente as regiões já afetadas pela estiagem neste ano. Esta diminuição das chuvas pode ter como explicação a volta do fenômeno La Niña. Segundo a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, dos EUA), após um período de relativo equilíbrio atmosférico desde o início do ano, o La Niña se intensificará nas próximas semanas e não deve perder força até o outono de 2022, diminuindo as chuvas na América do Sul justamente no período chuvoso, responsável pela recarga de rios e aquíferos.

Hidrovia parada

Os dez anos de seca entre as décadas de 1960 e 70 alteraram a paisagem do bioma brasileiro com a maior densidade de mamíferos do mundo, enquanto uma transformação social ocorreu: muitos criadores de gado abandonaram as áreas com as cheias. Estas fazendas descuidadas ou abandonadas acabaram acumulando vegetação que, com o recuo da água no ano passado, secou e virou combustível farto para os incêndios registrados.

Gustavo Basso/Projeto Solos
Gustavo Basso/Projeto Solos

Entre junho e outubro de 2020, quase um terço do Pantanal foi consumido pelo fogo; na sua área no Mato Grosso, quase metade foi queimada, incluindo a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Sesc Pantanal, que perdeu mais de 80% da sua vegetação.

O impacto econômico hoje ocorre com a interdição da hidrovia, que liga toda região de ambos os lados da fronteira com a Bolívia ao oceano Atlântico via Paraguai e Argentina. Para os produtores de Santa Cruz de la Sierra, a hidrovia fechada representa custos e tempo de transporte.

“O canal Tamengo, que liga por água Puerto Suarez a Corumbá, está praticamente seco atualmente; onde há dois meses passavam barcaças, hoje passam bois”, conta Rafael Riva, gerente técnico da Câmara de Exportadores, Logística y Investimentos de Santa Cruz.

Aos bolivianos, restam duas saídas: o transporte rodoviário até portos no oceano Pacífico, já no Chile, a mais de 1.200 km; e a aduana argentina, que tem capacidade limitada de trânsito. “São necessários 60 caminhões para transportar a mesma carga que é levada por somente uma barcaça; é um incremento de tempo muito impactante”, afirma Riva.

Do lado brasileiro o cenário é semelhante. Filas de caminhões vêm se formando na BR-262, entre Corumbá e Campo Grande/MS para levar as cargas - sobretudo ferro e manganês - por 1.700 km para exportação pelo porto de Imbituba, em Santa Catarina.

Com o retorno da hidrovia inteira esperada somente para o fim de dezembro, o setor logístico teme o pior. “Ano passado foram seis meses funcionando e seis meses fechados, e isso vai se repetir este ano; dois anos sem o resultado esperado”, lamenta o gerente de logística em Ladário Luiz Dresch.

Ação do homem

A maior seca já registrada no centro-sul em 111 anos, e que vem deixando os reservatórios do maior núcleo de geração hidrelétrica do país vazios é fruto de uma soma de fenômenos climáticos.

Michelle explica que desde 1995 o Oceano Atlântico vem se aquecendo mais com o aquecimento global, e mais ao norte do Equador, o que resulta em menos chuvas sobre a floresta Amazônica, que por sua vez é principal fonte de umidade e chuvas sobre o centro-sul do país.

Alessandra Souza/Projeto Solos
Alessandra Souza/Projeto Solos

“O aquecimento do Oceano já está deslocado; aí o homem vem e afeta a hidrologia local, tanto na Amazônia quanto no Sudeste, o que leva a ter menor umidade nos chamados rios voadores, e menor efeitos deles”, comenta a docente.

O gerente logístico Rafael Riva resume o sentimento de quem observa ansioso as águas do rio do qual tantos dependem: “Há dias que eu estou otimista, outros pessimista quanto ao clima por aqui, mas o pior mesmo é a incerteza de não saber o que pensar ou esperar há pelo menos seis meses”.

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