Papa critica pena de morte em visita ao Bahrein, criticado por violar direitos humanos

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ - O papa Francisco se despede após ficar no Brasil durante uma semana. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ - O papa Francisco se despede após ficar no Brasil durante uma semana. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O papa Francisco condenou, nesta quinta-feira (3), a pena de morte e defendeu a liberdade religiosa em um discurso no Bahrein. O país árabe, governado por uma monarquia sunita desde o século 18, é acusado de perseguir xiitas e de burlar os direitos humanos de presos.

"Penso em primeiro lugar no direito à vida, na necessidade de garantir esse direito sempre, inclusive para aqueles que estão sendo punidos, cujas vidas não devem ser tiradas", afirmou o pontífice ao lado do rei Hamad bin Isa Al Khalifa, no palácio real da região de Sakhir.

Essa é a segunda viagem de um papa à Península Arábica -a primeira, também feita por Francisco, foi em 2019, aos Emirados Árabes Unidos. A atual visita do pontífice chamou a atenção para os coflitos entre o governo do Bahrein e a comunidade xiita do país, responsável por liderar grandes protestos pró-democracia durante a Primavera Árabe. Na época, as manifestações foram anuladas com a ajuda da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes.

Desde então, a monarquia prendeu e condenou milhares de manifestantes, jornalistas e ativistas. Além disso, nos últimos anos, o país reacendeu sua rígida política de pena de morte; desde 2017, segundo a ONG Human Rights Watch, seis prisioneiros foram condenados à morte e outros 26 esperam a confirmação do rei para o cumprimento da sentença.

Nos últimos dias, aliás, as famílias desses presos e defensores de direitos humanos apelaram ao papa para se manifestar contra a pena de morte. Após a fala do pontífice, Sayed Ahmed Alwadaei, diretor do Instituto de Direitos e Democracia do Bahrein, disse que a fala de Francisco era um "momento histórico" e instou o rei a libertar aqueles que, segundo ele, estão presos injustamente.

Para Alwadaei, a soltura desses condenados seria o "começo da cura do país depois de anos de violência e opressão". Fato é que o Bahrein rejeita as críticas das Nações Unidas sobre a condução de julgamentos e diz que segue o direito internacional em todos os casos.

Ainda nesta quinta, o papa disse que a Constituição do país deve ser colocada em prática para que "a liberdade religiosa seja completa" e a igualdade de dignidade e oportunidades "reconhecidas concretamente para cada grupo". "São compromissos que precisam ser colocados em prática para que a liberdade religiosa seja plena e não se limita à liberdade de culto", acrescentou -uma menção, ainda que velada, às acusações de perseguições contra xiitas, grupo majoritário na nação.

Cerca de 70% da população do Bahrein é muçulmana, mas ao contrário da Arábia Saudita, por exemplo, o país permite que sua comunidade de cerca de 80 mil católicos -formada majoritariamente por trabalhadores estrangeiros- reze em igrejas. A nação árabe, aliás, abriga a primeira igreja católica construída na área do Golfo nos tempos modernos.

Após o discurso do papa, o rei Hamad defendeu que seu país protege a liberdade de todas as crenças e condenou a discriminação religiosa. "O Bahrein busca fortalecer nosso propósito comum em direção a um mundo em que a tolerância prevaleça, enquanto lutamos pela paz", disse.

Ainda coube a Francisco a defesa de "condições de trabalho seguras e dignas do homem". A declaração acontece a poucos dias do início da Copa do Mundo no emirado vizinho do Catar, alvo de denúncias pelo tratamento dado aos trabalhadores estrangeiros. "Desumanizar o trabalho" representa "um ataque à dignidade humana", disse o papa, exortando o Bahrein a ser "um farol que promova, em toda a região, direitos e condições justas e melhores para os trabalhadores".

Francisco ficará no país até o domingo (6) e ainda participará de um fórum religioso e de um conselho com autoridades do Islã.