Papa Francisco descarta ordenar homens casados como padres na Amazônia

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 28.07.2013: O Papa Francisco se despede após ficar no Brasil durante uma semana na Jornada Mundial da Juventude, JMJ, na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ). (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O papa Francisco descartou, nesta quarta-feira (12), a proposta de que homens casados pudessem ser ordenados padres na região da Amazônia e denunciou as empresas que semeiam a "injustiça e o crime" na região, violando os direitos dos povos tradicionais.

A declaração, dada por por meio de um documento chamado "exortação apostólica", foi uma resposta às recomendações do Sínodo da Amazônia, que ocorreu no ano passado. A carta não define a doutrina oficial, mas instrui práticas da igreja.

Com essa decisão, o papa se afastou de temas que dividem a igreja e se concentrou nos desafios ecológicos, sociais e pastorais.

A proposta de ordenação de homens casados estava no parágrafo 111 do relatório final do sínodo, formulado em outubro do ano passado.

“Considerando que a legítima diversidade não prejudica a comunhão e a diversidade da igreja, (…) propomos (…) ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterato, podendo ter família legitimamente constituída e estável.”

Na época, o tema foi o mais controvertido. Recebeu a aprovação de 128 padres sinodais, o mais baixo número de votos dos 120 parágrafos, que são aprovados individualmente. Os padres que se opuseram somaram 41 votos.

A recomendação não previa que padres pudessem se casar, mas que homens com família pudessem assumir as funções de sacerdócio.

A expectativa era a de que a medida aumentasse a presença da igreja em áreas remotas, onde os padres atualmente só conseguem visitar poucas vezes por ano. Seria também uma forma de confrontar a crescente presença de igrejas pentecostais na região.

Mais recentemente o tema voltou à tona, quando, em um livro, o papa emérito Bento 16 defendeu o celibato de padres na Igreja Católica, no que parecia ser um movimento estratégico para que o papa Francisco não mudasse as regras sobre esse assunto, em especial após o sínodo.

O sínodo havia recomendado também a criação do "pecado ecológico" (atos e hábitos de "poluição e destruição da harmonia do ambiente"), o respeito à religiosidade não cristã indígena, o estabelecimento de um “observatório pastoral socioambiental” e o alinhamento a povos amazônicos que denunciam o "modelo econômico de desenvolvimento predatório e ecocida".

Por outro lado, por falta de consenso, o relatório final deixou de fora a criação de um diaconato para as mulheres. O tema continuará a ser discutido pela igreja por uma comissão específica, mas o papa já se posicionou.

Reconhecer ministérios à mulher conseguiria apenas "clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e provocaria sutilmente um empobrecimento de sua contribuição indispensável", escreveu ele na exortação desta quarta-feira, chamada de "Querida Amazônia".

O documento traz poucas propostas práticas. Nele, o papa defende que novos caminhos sejam encontrados para estimular padres a trabalhar em regiões remotas —e permitiu que os diáconos possam assumir mais funções.

Os diáconos podem dar sermões, ensinar, batizar e comandar paróquias, mas não podem conduzir uma missa. Homens casados podem ser ordenados como diáconos.

Devido à falta de padres, os fiéis de cerca de 85% da região da Amazônia não podem ir à missa semanalmente. Em alguns casos, chegam a ficar anos sem participar de uma celebração da liturgia.

A medida havia sido proposta como solução para a escassez de sacerdotes na região, única no país com o mesmo número de evangélicos e católicos. A proposta gerou críticas da ala conservadora da igreja, que viu a mudança como um risco para a centenária tradição do celibato dos padres e considerou a proposta como herética.

Os conservadores temiam que a aprovação da proposta para a Amazônia encorajasse outras regiões do mundo onde faltam padres a pleitear o mesmo direito.

"O papa cedeu à pressão e não aprovará a ordenação de padres casados", comentou, decepcionado, José Manuel Vidal, da página católica Religião Digital.

Sobre as questões ecológicas, o papa defendeu que os empreendimentos "que prejudicam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos originários do território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, devem receber o nome que lhes corresponde: injustiça e crime"

O papa escreveu ainda ter quatro sonhos para a Amazônia: que a região lute pelo direito dos pobres, preserve suas riquezas culturais e naturais e que a igreja seja capaz de ter um comprometimento generoso e forte ao atuar ali.


O que é sínodo

O Sínodo dos Bispos é uma reunião episcopal de especialistas. Convocado e presidido pelo papa, discute temas gerais da Igreja Católica (como juventude, em 2018), extraordinários (considerados urgentes) e especiais (sobre uma região). Instituído em 1965, aconteceu em 2019 pela 16ª vez.


Especial Amazônia

Anunciado em 2017 pelo papa Francisco, o Sínodo da Amazônia tratou de assuntos comuns aos nove países do bioma, organizados em dois eixos: pastoral católica e ambiental. Depois de meses de escuta da população local, bispos e demais participantes se reuniram de 6 a 27 de outubro, no Vaticano.


Para que serve

O sínodo é um mecanismo de consulta do papa. Os convocados têm a função de debater e de fornecer material para que ele dê diretrizes ao clero, expressas em um documento chamado exortação apostólica. As duas exortações pós-sinodais anteriores foram publicadas cerca de cinco meses depois de cada assembleia.


​Quem participa

O Sínodo da Amazônia reuniu 185 padres sinodais (como são chamados os bispos participantes), sendo 57 brasileiros. Além dos bispos da região, havia convidados de outros países e de congregações religiosas. Também participaram líderes de outras comunidades cristãs, da população e especialistas —no total, havia 35 mulheres.


Principais polêmicas

Este sínodo recebeu críticas do governo brasileiro, incomodado com o viés ambiental e pressionado pela situação na Amazônia, e da ala conservadora da igreja, que viu como inapropriado o debate sobre a ordenação de homens casados como sacerdotes, a criação de ministérios oficiais para mulheres e a incorporação de costumes indígenas em rituais católicos.