Papa Francisco se reunirá com aiatolá xiita Sistani em viagem ao Iraque

Sarah BENHAIDA
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Retrato do aiatolá Ali Sistani, o principal clérigo xiita que o papa Francisco deve conhecer em sua visita histórica

O papa Francisco se reunirá com o grande aiatolá Ali Sistani, a principal autoridade xiita do Iraque, durante sua visita ao país prevista para início de março - anunciou o cardeal iraquiano Louis Raphaël Sako nesta quinta-feira (28).

Neste "encontro privado", que será realizado na cidade iraquiana de Najaf, santa para os xiitas, os dois devem conversar "sobre uma espécie de marco para condenar todos aqueles que atentam contra a vida", disse o cardeal patriarca da Igreja Católica Caldeia do Iraque.

Residente em Najaf, ao sul de Bagdá, Sistani, uma figura-chave na política iraquiana, não aparece em público, recebe poucos visitantes e faz sermões durante as orações de sexta-feira por meio de um representante.

Em fevereiro de 2019, o papa Francisco assinou com o xeque Ahmed al-Tayeb, grande imã da instituição islâmica sunita Al-Azhar, sediada no Cairo, um "documento sobre a fraternidade humana", em Abu Dhabi.

Francisco foi então o primeiro chefe da Igreja Católica a pisar na Península Arábica, berço do Islã.

O diálogo inter-religioso está no centro da visita do sumo pontífice ao Iraque, marcada para 5 a 8 de março, uma viagem sem precedentes para um pontífice.

Autoridades cristãs e xiitas dizem que estão discutindo a questão inter-religiosa, e alguns advertem que um acordo pode precisar ainda de várias reuniões antes se concretizar.

O cardeal Sako disse à AFP, porém, que "espera que haja uma assinatura durante esta visita".

A viagem do santo padre poderia, no entanto, ser cancelada devido à pandemia, mas também devido ao ressurgimento da violência no Iraque, país abalado há 40 anos por conflitos quase ininterruptos.

Se a visita prosseguir como planejado, Francisco, já vacinado contra a covid-19, vai oficiar missas em uma catedral de Bagdá atacada em 2010 e em um estádio em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, onde muitos cristãos buscaram refúgio ao fugir do grupo Estado Islâmico (EI).

Para esses encontros, "precauções serão tomadas", advertiu o cardeal.

O Iraque registra atualmente menos de 10 mortes por covid-19 por dia e centenas de infecções, em comparação com milhares de meses atrás.

O papa também participará de uma oração inter-religiosa em Ur (sul), local de nascimento de Abraão, na companhia de dignitários xiitas, sunitas, yazidis e de Sabá, acrescentou.

- "Consolo e esperança" -

Esta visita é, nas palavras do cardeal, "consolo e esperança" para os cristãos do Iraque, que eram 6% da população em 2003 e atualmente são menos de 1% dos 40 milhões de iraquianos devido ao exílio e à violência.

"É a anarquia no Iraque. O Estado oficial é muito fraco", acrescentou o patriarca caldeu, que defende a proteção da "cidadania" dos cristãos que se dizem indefesos contra os diferentes grupos armados.

Desde a invasão americana que derrubou o presidente Saddam Hussein em 2003, os cristãos dizem que são discriminados.

O novo poder está dividido entre xiitas - a maioria no Iraque -, sunitas e curdos.

O avanço do EI em 2014 intensificou a provação dos cristãos do Iraque, muitos dos quais foram para o exílio e ainda não podem retornar para suas casas.

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