Papa Francisco viaja ao Canadá onde deve reforçar pedido de desculpas por abusos em internatos indígenas

REUTERS - REMO CASILLI

O Papa Francisco deixou Roma na manhã deste domingo (24) em direção ao Canadá para uma viagem de cinco dias, em que deve renovar o seu pedido de desculpas a povos nativos por abusos cometidos pela Igreja. Em visita a três regiões do país, o soberano pontífice irá participar, a partir de segunda-feira (25), de encontros com representantes locais em que deve discutir o papel da Igreja no drama dos pensionatos católicos para estudantes indígenas.

Sofrendo dores no joelho direito, o papa de 85 anos embarcou em uma cadeira de rodas e teve de usar uma plataforma elevatória para entrar no avião. Com mais de dez horas de voo, esta é a viagem mais longa do papa desde 2019. Francisco está acompanhado por seu chefe da diplomacia, o cardeal Pietro Parolin.

A expectativa é de que o pontífice anuncie um plano de reconciliação e de abertura de arquivos da igreja para a compreensão de como funcionavam esses pensionatos. Ao todo, 150 mil crianças indígenas foram separadas de suas famílias e enviadas a força para esses internatos, onde muitas foram vítimas de violência e cerca de 5 mil morreram, entre o fim do século 19 até 1990.

As populações ancestrais ameríndias representam 5% da população do Canadá e se identificam em três grupos: índios ou Primeiras Nações, Métis e Inuit. Uma comissão nacional de inquérito denuncia um "genocídio cultural", após a descoberta de mais de 1.300 túmulos anônimos, em 2021. O fato chocou o país e várias igrejas foram incendiadas.

Na época, o primeiro-ministro Justin Trudeau afirmou que as "descobertas assustadoras" dos túmulos sem nome obrigavam os canadenses “a fazer uma reflexão sobre as injustiças históricas e frequentes enfrentadas pelos povos indígenas”. Trudeau solicitou a todos que participassem da reconciliação e condenou os incêndios de igrejas em todo o país.

"Agora, 38 anos mais tarde, eu compreendo os efeitos e o impacto na minha vida. E mesmo que o papa se desculpe, isso não vai mudar nada”, disse em entrevista à RFI Jimmy Papatie, um sobrevivente de uma dessas escolas para estudantes indígenas. “Eu acredito que a sua visita é um exercício de relações públicas para acalmar a opinião pública do país”, completou.

Os mais de 130 internatos subsidiados pelo Estado eram administrados principalmente pela Igreja Católica. Nesses locais, longe de suas famílias, de sua língua e de sua cultura, muitas dessas crianças sofreram abusos físicos e sexuais de diretores e professores.

A viagem do pontífice desperta grande expectativa entre as populações indígenas. Elas esperam que Francisco renove o pedido de desculpas feito em abril, no Vaticano.

Gesto simbólico

O jesuíta argentino também poderá realizar gestos simbólicos, como levar de volta objetos de arte indígenas que estão guardados no Vaticano há décadas.

"Esta viagem histórica é uma parte importante da jornada de cura", mas "muito ainda precisa ser feito", disse George Arcand Jr., Grande Chefe da Confederação do Tratado das Seis Primeiras Nações, em uma entrevista coletiva, na quinta-feira (21).

"Os eventos da próxima semana podem abrir feridas nos sobreviventes", alertou Irvin Bull, chefe da tribo Louis Bull Cree.

Depois de um dia de descanso, François deve se encontrar com indígenas pela primeira vez na manhã de segunda-feira em Maskwacis, a cerca de cem quilômetros ao sul de Edmonton, onde são esperadas até 15 mil pessoas. Alberta foi a província com o maior número de internatos católicos.

“Gostaria que muitas pessoas viessem” para “ouvir que não é inventado”, confidenciou à AFP Charlotte Roan, de 44 anos, em Maskwacis.

Outros olham com amargura para o evento. "Para mim, é um pouco tarde demais porque muita gente sofreu", lamenta Linda McGilvery, 68, que passou oito anos de sua infância em um internato e hoje mora em de Saint-Paul, 200 quilômetros a leste de Edmonton. “Perdi muito da minha cultura, minha ancestralidade, são muitos anos de perda”, lamenta esta mulher da Nação Cree de Saddle Lake que não pretende ver o papa.

Na tarde de segunda-feira, o líder espiritual de 1,3 bilhão de católicos em todo o mundo fará um segundo discurso na Igreja do Sagrado Coração dos Primeiros Povos, em Edmonton. Na terça-feira (26), o papa deve celebrar uma missa em um estádio de Edmonton, antes de ir ao Lago Sainte-Anne, local de uma importante peregrinação anual.

Francisco deve visitar Quebec de 27 a 29 de julho, antes de partir parar Iqaluit (Nunavut), uma cidade do arquipélago ártico no extremo norte canadense.

No total, Francisco fará quatro discursos e quatro homilias, todos em espanhol. Ele é o segundo papa a visitar o Canadá, depois de João Paulo II, que esteve no país três vezes: em 1984, 1987 e 2002.

Uma parcela de 44% da população do Canadá é católica, mas a Igreja vive uma crise no momento, com forte declínio em suas práticas nos últimos anos.

Em agosto do ano passado, o governo do Canadá tentou consertar os erros do passado indenizando indígenas vítimas dos internatos católicos que funcionaram no país durante um século. As autoridades repassaram cerca de € 220 milhões para ajudar as comunidades a encontrar túmulos não identificados de crianças indígenas que morreram nessas aéreas e para apoiar os sobreviventes.

(Com informações da RFI e AFP)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos