Papa Francisco fala em "prazer" e é aplaudido pelos fiéis ao voltar a rezar na praça após quase três meses

Por Lucas Ferraz

ROMA- As pequenas alegrias da retomada da vida na Itália após o confinamento geral da população por causa do coronavírus ganharam neste domingo (31) um novo capítulo: os fiéis puderam voltar à Praça São Pedro, no Vaticano, para rezar junto ao papa Francisco. 

A tradicional benção de domingo, que geralmente reúne milhares de turistas, foi esperada com satisfação pelo público -- ainda tímido em relação aos tempos "normais" e praticamente só de residentes de Roma -- que foi acompanhá-la na praça.

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Um grupo de freiras ensaiava um abraço simbólico assim que o pontífice aparecesse na janela do palácio do Vaticano, de onde ele faz a benção aos domingos. Famílias com crianças e muitos idosos também compareceram. 

A indiana Daisy Chacko, que vive em Roma há mais de 30 anos, chegou com duas horas de antecedência para acompanhar uma cerimônia que ela classificou de "histórica".  "Estamos todos cansados desse período e com uma certa neurose, o medo de contágio ainda é grande. O papa fez muitas reflexões nos últimos meses sobre a pandemia, sua mensagem é espiritual e também psicológica, por isso estou aqui", disse. 

Para entrar no local era necessário usar máscara, higienizar as mãos com álcool gel e passar por um aparelho -- junto ao raio-x obrigatório -- que media a temperatura corporal. Policiais controlavam para que fosse respeitado a distância de pelo menos um metro entre os presentes. 

"Hoje a praça está aberta e podemos retornar com prazer", disse Jorge Mario Bergoglio assim que apareceu na janela, pontualmente ao meio-dia (7h horário de Brasília), sendo saudado pelo público com palmas. Era a primeira vez, em quase três meses, que o papa reencontrava os fiéis na praça de São Pedro. 

A última cerimônia pública de Francisco no local ocorreu no dia 8 de março, dois dias antes de a Itália iniciar um confinamento amplo e geral à toda população. O Vaticano, o menor Estado independente do mundo, localizado numa área pequena e central de Roma, acatou todas as normas estabelecidas pelas autoridades italianas. Desde então, o papa passou a comandar as cerimônias (transmitidas na internet) de dentro biblioteca apostólica do Vaticano. 

O romano Raffaele Pirolli, 73 anos, disse que era o primeiro domingo que o Vaticano, de fato, voltava à "normalidade". Ele chegou na praça 30 minutos antes do início da oração e se animou quando viu a faixa vermelha estendida na janela do palácio vaticano, sinal de que Francisco iria para a janela, abandonando as celebrações solitárias da internet. 

"Estou aproveitando que não tem nenhum turista na cidade, pois normalmente é impossível vir aqui no domingo, há muita gente e filas enormes", afirmou Pirolli. 

Como as fronteiras na Europa serão abertas para o turismo nas próximas semanas, a retomada dos visitantes na Itália será lenta, num primeiro momento voltada apenas para locais ou no máximo europeus.

A cerimônia deste domingo de Pentecostes (celebração do catolicismo que ocorre 50 dias depois do domingo de Páscoa, que comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo) foi precedida por uma missa dentro da basílica São Pedro com a presença de 50 fiéis selecionados. 

A oração na praça durou cerca de 15 minutos. Nela, Francisco mencionou que "curar as pessoas é mais importante que a economia" --  "nós, pessoas, somos o templo do Espírito Santo, a economia não" -- e mencionou como a pandemia do coronavírus está impactando os pobres e as populações indefesas da Amazônia. "Tantos são os contagiados e mortos, inclusive entre os povos indígenas, particularmente vulneráveis", ressaltou. O papa também pediu para os fiéis rezarem para ele.

No dia 16 de março, o primeiro domingo da quarentena que vigorou na Itália por quase dois meses, Francisco surpreendeu ao sair por Roma caminhando. Ele deixou seus aposentados no Vaticano para rezar solitariamente em duas igrejas da cidade, fazendo o percurso de uma a outra a pé. Sua equipe de comunicação registrou o passeio por uma das mais agitadas ruas do centro (a via del Corso) de Roma, naquela altura completamente esvaziada. 

"É um pouco estranha a reza do Angelus de hoje", disse ele quando iniciou a gravação na biblioteca em março, dizendo-se "enjaulado". "Mas eu os vejo, estou ao lado de vocês", disse ele naquele domingo aos fiéis que o acompanhavam por streaming.

Até o domingo passado, as cerimônias eram gravadas na biblioteca e depois o argentino ia até a janela para uma espécie de benção à praça vazia. A partir de hoje, os fiéis e o pontífice voltam à relação cotidiana. O público começou a retornar às igrejas italianas (inclusive a basílica do Vaticano, para visitar) em 18 de maio. Mas neste domingo a praça de São Pedro recebeu o maior número de fiéis desde o início da pandemia -- a polícia não fez estimativa, mas é provável que os presentes tenham superado a marca de mil pessoas. 


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