Papa pede desculpas por ação da igreja em genocídio cultural de indígenas no Canadá

GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Após anos de reiteradas solicitações de lideranças do Canadá, o papa Francisco fez nesta segunda-feira (25) um pedido de desculpas aos povos indígenas do país pelo papel da Igreja Católica na manutenção de internatos nos quais foram registrados casos de violência contra crianças.

O pontífice disse estar envergonhado. "Sabemos como a política de assimilação, que incluía essas escolas, foi nefasta", afirmou Francisco a uma plateia repleta de representantes indígenas em Maskwacis, na província de Alberta, onde ficava uma das instituições. Por mais de uma vez, foi aplaudido de pé.

O argentino teceu críticas à colonização. "Quando os colonos aqui chegaram, houve a oportunidade de um encontro frutífero, mas não foi o que sucedeu. Línguas e culturas indígenas foram suprimidas; crianças foram expostas a abusos físicos, verbais, psicológicos e espirituais."

O líder da Igreja Católica já havia formalizado o pedido de desculpas em abril, mas a distância. Agora, a despeito de problemas de saúde, ele está no país para uma visita oficial que deve durar seis dias. Francisco chegou ao evento em uma cadeira de rodas.

As instituições religiosas foram projetadas para apagar a cultura indígena e separaram à força ao menos 150 mil crianças de suas famílias para assimilá-las a costumes ocidentais de 1880 a 1990. A Comissão Nacional da Verdade criada pelo Estado para investigar o caso o descreveu como genocídio cultural.

O caso ganhou projeção quando, no ano passado, uma vala comum com 215 corpos de crianças foi encontrada na província da Colúmbia Britânica. Tratava-se da Escola Residencial Kamloops, que funcionou de 1890 até os anos 1970, sob o comando da igreja e do governo.

O número de alunos que morreram nas escolas ainda é incerto, mas o ex-senador Murray Sinclair, que chefiou a comissão, diz estimar que sejam mais de 10 mil crianças. O governo do Canadá pediu desculpas às comunidades indígenas há 14 anos por essa prática e pagou bilhões de dólares em indenizações a ex-alunos. A igreja administrava de 60% a 70% das 130 instituições por meio de contratos com o governo. Durante anos, porém, o Vaticano silenciou sobre a reivindicação de um pedido de desculpas.

Francisco também pediu perdão por isso. "Muitos cristãos adotaram uma mentalidade colonialista das potências que oprimiram os povos indígenas; peço perdão pelo modo com que membros da igreja cooperaram, com indiferença, com esse projeto de destruição cultural", afirmou. "Sei que as desculpas não são um ponto de chegada, mas o primeiro passo que nunca será suficiente; nunca serão poucas as ações para criar uma cultura capaz de evitar que essas situações se repitam e encontrem espaço na sociedade".

Após o discurso do líder católico, lido em espanhol, uma das lideranças presentes colocou um cocar indígena na cabeça de Francisco, que ficou pouco tempo com o acessório. Outros presentes se manifestaram com canções tradicionais.

O ativista indígena Phil Fontaine, 77, que dirigiu a Assembleia das Primeiras Nações do Canadá, disse que a ação do papa ajuda a varrer dúvidas sobre a igreja. "Para que as coisas voltem a funcionar, temos de ser capazes de perdoar", afirmou ao jornal The New York Times. "E isso significa fazer as pazes com a igreja."

Phil foi um dos primeiros líderes indígenas a relatar publicamente o abuso que sofreu em escolas católicas quando criança. Ele concedeu uma entrevista à rede CBC há 32 anos, na qual contou as violências que sofreu e incentivou outros indígenas a relatar o que haviam sofrido.

O local onde Francisco discursou abrigou, entre as décadas de 1890 e 1970, a Escola Residencial de Ermineskinem, fundada por missionários católicos. O espaço foi marcado pela superlotação, marca comum em outras escolas indígenas —em 1920, estimava-se que metade dos alunos da unidade tivesse tuberculose. Ali também foram registradas denúncias de violência sexual contra crianças.

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