Mauritânia expulsa fotojornalista marroquino que investigava sobre escravidão

Rabat, 28 mar (EFE).- As autoridades da Mauritânia expulsaram um fotojornalista marroquino que foi detido na semana passada quando fazia uma reportagem sobre a escravidão no país e que permaneceu detido durante três dias, denunciou nesta quarta-feira a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF).

Em comunicado, a associação precisa que o repórter Seif Kousmate, que trabalha de forma independente, foi detido perto da fronteira da Mauritânia com o Senegal e levado à sede central da polícia em Nouakchott.

Kousmate relatou à "RSF" que confiscaram seu laptop e seu telefone celular e que foi submetido a interrogatórios durante três dias.

A polícia mauritana perguntou com especial insistência pelos vínculos entre Kousmate e o líder abolicionista Biram Dah Abeid, a quem o jornalista entrevistou como fonte para uma reportagem.

Biram é o fundador da associação ilegal Iniciativa pelo Ressurgimento do Abolicionismo (IRA), passou um ano e meio preso por organizar uma "caravana anti-escravista" em 2014 e foi candidato à presidência do país em 2013, obtendo 8% dos votos nas eleições que foram vencidas pelo atual chefe de Estado mauritano, Mohammed uld Abdel Aziz, com 82% dos votos.

Perante o prolongamento da prisão, Kousmate iniciou uma greve de fome, e as autoridades mauritanas optaram por obrigá-lo a pegar um avião com destino à cidade marroquina de Casablanca, onde aterrissou no sábado.

O repórter disse à RSF que, inicialmente, a polícia o deteve em qualidade de "suspeito de terrorismo", para depois passar a acusá-lo de "ativismo anti-escravista".

A RSF afirma que, em abril de 2017, a jornalista independente francesa Tiphanie Gosse também foi forçada a deixar a Mauritânia por investigar práticas escravistas.

Na semana passada, a ONG Anistia Internacional (AI) denunciou num relatório a repressão do Governo mauritano contra os ativistas que denunciam a escravidão e garantiu que, desde 2014, houve 168 detenções "arbitrárias" de pessoas que se manifestaram publicamente a favor do abolicionismo.

Segundo sustenta a AI, o número de pessoas que vivem escravizadas na Mauritânia poderia superar 40 mil indivíduos (1% da população total). EFE