Papa, Peres e Abbas no Vaticano para histórica oração pela paz

O papa Francisco realiza neste domingo um gesto histórico no Vaticano ao reunir para uma oração inédita pela paz no Oriente Médio o presidente israelense, Shimon Peres, e o líder palestino, Mahmud Abbas.

Diante dos milhares de fiéis que acompanharam neste domingo o Ângelus na Praça de São Pedro, o Papa agradeceu a todos que rezaram e seguem rezando "tanto pessoalmente quanto em comunidade" pelo encontro entre Peres e Abbas, provocando fortes aplausos.

"A oração pode tudo", escreveu na véspera o Papa pelo Twitter, onde pediu que rezassem "pela paz no Oriente Médio e no mundo".

O ato, que inclui, orações, meditações e música, será realizado em um local neutro, os jardins do Vaticano, ao ar livre e sem símbolos religiosos.

O líder palestino Abbas classificou de valente a iniciativa do Papa depois de considerar que "o sonho de alcançar a paz não deve morrer", mas que "infelizmente o poder executivo em Israel está agora nas mãos de opositores aos acordos" de paz, afirmou em uma entrevista ao jornal La Repubblica.

Por sua vez, o presidente Peres, de 90 anos, que termina seu mandato em julho, ressaltou que o novo governo palestino nasce com "uma contradição", já que "não se pode coabitar em um mesmo Estado com um setor a favor do terrorismo e outro contrário", disse.

"Não é possível ter em um mesmo copo a água e o fogo", comentou o prêmio Nobel da Paz (1994) à imprensa pouco antes de viajar a Roma.

O Papa argentino, cuja popularidade cresce entre católicos, judeus e muçulmanos, lançou de forma inesperada durante sua viagem em maio à Terra Santa esta iniciativa audaz com o desejo de aproximar israelenses e palestinos, particularmente distanciados após o fracasso em abril das negociações de paz.

"Será como uma pausa da política para contemplar o conflito israelense-palestino do alto", explicou o custódio da Terra Santa, o franciscano Pierbattista Pizzaballa.

O religioso declarou que não se trata de uma "oração interreligiosa" e que cada um rezará segundo sua confissão para invocar a paz.

Cada momento do encontro foi estudado minuciosamente para evitar que o ato seja instrumentalizado por alguma das partes.

Francisco explicou à imprensa que seria "uma loucura" se o Vaticano fizesse propostas de paz ou mediasse as negociações, razão pela qual não são esperados frutos imediatos do encontro.

Trata-se, sobretudo, de um gesto simbólico para defender e invocar a paz, que durará cerca de uma hora.

O chefe da Igreja católica deseja mostrar com fatos que as três religiões monoteístas - cristã, judaica e muçulmana - além de ter raízes comuns podem trabalhar juntas pela paz.

- Um programa minucioso, com orações, meditações e música -

Peres - que desembarcou em Roma na manhã deste domingo - será o primeiro a chegar ao Vaticano, por volta das 18h15 locais (13h15 de Brasília). Quinze minutos depois será a vez de Abbas, proveniente do Egito.

Os dois líderes viajam acompanhados por delegações de entre 15 e 20 pessoas, entre elas representantes das religiões presentes em ambos os países.

Peres e Abbas serão recebidos na residência de Santa Marta, onde Francisco vive, e não no Palácio Apostólico, como costuma ocorrer nas visitas oficiais.

Posteriormente, junto ao Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, caminharão pelos jardins até a Casina Pio IV, não muito longe do Museu do Vaticano.

Ali irá ocorrer a cerimônia, dividida em três atos.

Em cada um deles será feita uma oração - primeiro judaica, depois cristã e por último muçulmana - de agradecimento pela Criação, se pedirá perdão pelos pecados cometidos e por último se invocará a paz.

Todos os momentos serão precedidos por música, interpretada ao vivo, que permitirá aos presentes se recolher em meditação.

Os judeus rezarão em hebraico, os cristãos em inglês, árabe e italiano e os muçulmanos em árabe.

O Vaticano publicou no sábado os textos das orações e das invocações para evitar surpresas.

O encontro público será encerrado com um "gesto comum de paz": os três darão as mãos e plantarão juntos uma oliveira, símbolo da paz.

Ao fim, o Papa terá um breve encontro a portas fechadas com os dois presidentes, antes que eles deixem o Vaticano.