Paraíso turístico na Venezuela enfrenta falta de água e saques

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Com suas lindas praias, de areia muito branca e um mar quente e verde, típicas do Caribe, a ilha Margarita foi por muitas décadas uma das principais atrações turísticas da Venezuela.

Nos anos em que a economia do país ia bem graças ao petróleo, cadeias de hotéis nacionais e estrangeiras se instalaram ali. E o turismo se transformou em outra importante fonte de renda a partir da década de 1950.

Havia festas quase todas as noites, e a ilha recebia mais de 30 voos por semana, alguns dos quais vindos diretamente da Europa e dos EUA, sem passar pelo aeroporto de Maiquetía, que serve a capital, Caracas.

Desde 2014, quando agravou-se a crise política e econômica do país, hotéis, restaurantes e shoppings começaram a sofrer. O movimento caiu 40%, em média, e muitos estabelecimentos foram obrigados a fechar as portas.

Mas o pesadelo mesmo chegou em 2020, com a pandemia do novo coronavírus. Segundo os números oficiais da ditadura de Nicolás Maduro, a ilha tem 99 casos confirmados da doença --e nenhuma morte. Também segundo o regime, em toda a Venezuela são 335 infectados e dez mortos.

Para Alfredo Díaz, governador do estado de Nueva Esparta, composto por três ilhas, incluindo a Margarita, a cifra deve ser ainda maior, embora não se possa quantificar "devido ao desmantelamento do nosso sistema de saúde".

Segundo ele, que pertence ao partido Acción Democrática, de oposição à ditadura, o único hospital grande da região sofre constantes faltas de água e apagões elétricos, além de carecer de aparelhos e insumos médicos. "Sequer podemos testar a população, quanto mais atender bem a todos os que estão nos procurando."

Com a pandemia avançando, a inquietação dos 426.300 moradores da ilha aumenta. Desde o começo de abril, grupos têm ido às ruas pedir água e ajuda do governo nacional.

Por se tratar de um estado governado pela oposição, o regime não envia para as ilhas as caixas Clap, como são conhecidas as cestas básicas do governo chavista.

O fornecimento de água depende 100% do que vem de fora, por meio de um sistema de tubulação que, segundo o governador, está com sérias avarias. Alguns caminhões-pipa são abastecidos pela água que chega de ferryboat, mas os veículos não são suficientes para atender todos os moradores.

O agravamento da crise levou à invasão de lojas e mercados, que têm sido saqueados. Mas as cenas mais midiáticas foram registradas no último domingo (26), quando um grupo de 70 pessoas assaltou hotéis da ilha.

O mais afetado foi o luxuoso Portofino. Os criminosos roubaram colchões, cobertores, geladeiras, móveis, lâmpadas e computadores. A fachada externa foi vandalizada, assim como o saguão principal e vários quartos.

Apesar dos voos para a ilha terem sido proibidos por Maduro em 17 de março, pousaram em Margarita alguns voos charter, de convidados para um evento da academia de beisebol Roberto Halhis.

O governador acusa a ditadura de ter autorizado o voo e permitido a realização do evento -segundo ele, por ter entre os organizadores pessoas ligadas ao Exército. Houve registro de 41 pessoas contaminadas no clube, entre funcionários e convidados.

Mas o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, afirma que o aumento do número de infectados não está relacionado à aglomeração nesses dias. Segundo ele, o problema é que a população da ilha não cumpre as regras de quarentena vigentes em todo o país e não respeita o toque de recolher imposto pelo regime para a ilha, em vigor das 16h às 10h.

Como em tantos locais da América Latina, na ilha Margarita existe muito trabalho informal, e essa cifra só aumenta desde que a atividade turística começou a cair.

Nos bairros pobres, a reclamação principal é com relação à falta de comida e de água.

"Como podemos seguir os protocolos de prevenção da doença entre pessoas que não têm nem água? Em alguns setores da ilha essa já é uma realidade que dura cinco meses", diz o governador.

Os cortes de luz também são constantes e ficaram claros enquanto a reportagem da Folha tentava conversar com moradores da ilha Margarita. "A eletricidade vem e vai há meses, e nossa internet é muito ruim", diz Esper Sosa, gerente do hotel Bella Vista.

É difícil baixar mensagens de áudio, chamadas por WhatsApp caem com frequência, e as pessoas ficam se deslocando atrás de um sinal pouco melhor. "E agora temos poucas horas para fazer isso", diz Dexcy Guedes.

Ele conta que às vezes precisa percorrer regiões distantes da ilha para tentar encontrar produtos básicos, que estão em falta, e estar em casa de volta antes do toque de recolher.

No Twitter, o governador tem denunciado a crise na região e pedido ajuda do governo federal. Numa das mensagens, acusou o regime de estimular a reunião de pessoas no episódio do clube de beisebol. E foi informado pelo procurador-geral de que poderia ser preso pelas postagens.

A médica epidemiologista Carmen Hernández, que chamou a atenção para a rapidez com que a doença está avançando e a inexistência de hospitais e postos de saúde preparados para receber os pacientes, foi detida e está sendo processada por incitação ao ódio.

Cheia de pontos históricos, prédios coloniais e hotéis de luxo, a ilha aonde Cristóvão Colombo chegou em 1498 é hoje apenas um cartão-postal dos seus melhores tempos.

As vozes de desespero dos moradores e a turba de violência a que alguns aderem por falta de opção eclipsam o passado histórico e glamouroso da ilha. Conhecida como a "pérola do Caribe", a ilha Margarita vive hoje um de seus piores pesadelos.