Para cientistas, eficácia da Coronavac e plano nacional de imunização precisam ser detalhados

Evelin Azevedo
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Foto: Primeiras doses da vacina CoronaVac já chegaram a São Paulo. A expectativa é que o estado comece a vacinar contra a Covid-19 em 25 de janeiro de 2021. Foto: Antonio Molina/Zimel Press / Agência O Globo

Os dados de eficácia da CoronaVac apresentados nesta quinta-feira pelo Instituto Butantan não seguiram os mesmos protocolos das demais vacinas já existentes contra a Covid-19. De acordo com a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e colunista do GLOBO, o que foi demonstrado foram apenas os desfechos secundários e não os primários, como os demais imunizantes anunciaram.

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Pasternak explica que o dado primário da eficácia de uma vacina é calculado levando em consideração o número de eventos (pessoas que ficaram doentes, independentemente de ser leve, moderado ou grave) dentro do total de voluntários que foram vacinados com a dose do imunizante, sem contar aqueles que receberam placebo.

— Esse número o Dimas (Covas) não mostrou para a gente. Ele falou vários números de desfechos secundários. Ele disse que a eficácia foi de 78% para prevenir casos que precisem de atendimento médico e 100% de eficácia para casos graves e mortes. Mas o número geral ele não deu. E isso é importante porque todas as outras vacinas trabalharam com esse número, e a CoronaVac também previa isso no protocolo deles — diz Pasternak.

A pesquisadora reafirma que os desfechos secundários são importantes, já que a intenção da vacina é prevenir doenças graves e mortes. Mas diz que os desfechos secundários têm um poder estatístico menor, já que se referem a um número menor de pessoas.

— Precisamos desses dados completos para fazer uma avaliação mais efetiva.

A pesquisadora fez uma conta rápida a partir de informações dadas por Dimas Covas após questionamentos feitos pela imprensa na entrevista coletiva, e chegou a um resultado de aproximadamente 63% de eficácia.

— Uma eficácia de 63% é muito boa, não sei por que ele (Dimas Covas) não anunciou esse número oficialmente. Mas ele disse que era um número de memória, então não podemos dar certeza.

Na visão de Helio Bacha, infectologista e consultor técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia, os resultados apresentados pelo Butantan são suficientes para garantir que a CoronaVac é uma boa alternativa para ajudar no combate à pandemia no Brasil.

— Os resultados dos testes, mesmo que numa amostra pequena de pessoas, mostram que essa é uma vacina eficiente o suficiente para ser experimentada na “vida real” (fora dos estudos) — afirma.

Os especialistas avaliam o anúncio de compra da CoronaVac pelo governo federal como uma medida de mostrar que a pandemia está sendo “levada a sério”.

Para eles, com mais uma vacina comprada, o Programa Nacional de Imunização (PNI) precisa elaborar um plano real de vacinação. Até o momento, há apenas um documento que aponta intenções de vacinação e grupo prioritários, mas não define como será a logística nem quantas doses cada estado receberá.