Para especialistas, transformações trazidas pela pandemia deixarão legado digital

O Globo
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RIO - Trabalho, consumo, educação. Nada está nem será como antes. A velocidade alucinante com que mudamos nossos hábitos diante da ameaça do coronavírus foi traumática, mas trouxe transformações positivas que vieram para ficar. Para os especialistas em “futurismo”, ou seja, os estudiosos que analisam tendências de consumo e comportamento, eram mudanças que aconteceriam de qualquer forma, mas ainda demorariam anos e seriam graduais.

No mundo corporativo, por exemplo, há consenso de que não veremos mais prédios inteiros ocupados por salas recheadas de funcionários. Fábio Mariano Borges, professor de sociologia do consumo da ESPM, lembra que é muito caro manter o espaço físico para os empregados, ao passo que prover estrutura para o trabalho remoto é mais simples e barato.

— Ainda que a empresa mantenha um ou dois andares, por exemplo, para encontros físicos pontuais, o trabalho permanecerá 80% digital. A exceção, é claro, são os setores essencialmente presenciais, como o de atendimento médico de emergência.

Gasto menor com moradia

É o que Marco Aurélio Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), chama de legado positivo.

— Não faz mais sentido perder três horas por dia em deslocamento por transporte público, por exemplo. É um custo social, ambiental e de saúde muito alto — afirma.

O ganho do trabalho remoto amplamente aceito foi celebrado recentemente pelo gênio da tecnologia Bill Gates, que gravou um podcast com previsões sobre o mundo pós-Covid-19. O fundador da Microsoft lembra que, até a pandemia, não comparecer fisicamente a uma reunião era visto como se a pessoa não se importasse. Agora, diz ele, mesmo que o mundo inteiro consiga vencer o coronavírus — o que ele acredita que levará um bom tempo —, as reuniões virtuais continuarão sendo plenamente aceitas.

Junto com este avanço vem também o de gastos menores com moradia. Gates afirma que não será mais preciso pagar aluguéis caros em cidades cobiçadas por terem economias vibrantes. O trabalho remoto permitirá que o empregado more numa casa melhor e maior, numa cidade mais tranquila, sem o custo diário de deslocamento. Assim, frisa, os grandes centros urbanos passarão a ter menos importância. E, sugere, as companhias poderão dividir escritórios cujos funcionários vão fisicamente em dias alternados.

Comércio eletrônico forte

Já no setor de consumo, o comércio eletrônico continuará forte, diante do aumento na agilidade de atendimento ao consumidor e da possibilidade de ampla pesquisa de preços, diz Borges, da ESPM. Mas as lojas físicas ainda serão valorizadas pelo encantamento que podem gerar em experiências.

— Eu posso trazer pela internet algum produto do exterior, inclusive indo ao local virtualmente, usando óculos especiais, por exemplo, para simular uma visita. Mas não será capaz de substituir a visita física — comenta.

Na educação, há consenso de que para crianças é preciso manter o ensino presencial por causa da importante missão que as escolas cumprem de socialização. Mas as reuniões de pais, por exemplo, poderão continuar sendo feitas virtualmente.

O mesmo cenário não valerá para as universidades, segmento em que a educação à distância permanecerá forte. Borges, no entanto, conta que notou uma queda no rendimento dos alunos. Em que pese o momento de ansiedade diante do futuro nebuloso que nos espera, o professor acredita que a piora está relacionada ao volume brutal de horas em que é preciso atualmente estar em frente a um computador:

— É uma situação opressiva, um ambiente hostil.

Com a ampliação das aulas virtuais e da oferta pulverizada de conhecimento pela internet, o professor da ESPM prevê queda na força das universidades, sobretudo as privadas, que, para reagir, precisarão investir em pesquisa e produção acadêmica, hoje muito relacionadas às instituições públicas.

Ruediger, da FGV, no entanto, chama a atenção para a ampliação do fosso social se esse quadro atual de aulas essencialmente virtuais se prolongar:

— Quando conseguirmos controlar o vírus, será um futuro maravilhoso, com muitos ganhos no campo digital. Mas para quantos, para quem? O que temos hoje é uma legião de crianças que não têm estrutura para estudar em casa, e isso está ampliando o deficit educacional. Precisamos de política pública para resolver esses problema, caso contrário teremos uma geração de hipossuficientes — alerta ele.