Para frear alta de mortes, Covas lança movimento por trânsito seguro

FABRÍCIO LOBEL
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 26.06.2019: O prefeito de SP, Bruno Covas, participa de debate sobre segurança no trânsito, mobilidade e inovação, promovido pela Folha, na capital paulista. (Foto: Reinaldo Canato/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde o início desta semana, totens publicitários de pontos de ônibus em São Paulo foram cobertos por um saco preto com um número gravado em amarelo.

Na rua Líbero Badaró, no centro, o office boy, Luiz Fernando, 26, ficou intrigado diante do saco com a inscrição "Vítima nº 814". "Acho que está quebrado. Meu amigo, que é da zona norte, diz que viu um assim por lá também. Só o número que muda". 

Pelo Twitter, uma jovem publicou a foto de outro saco preto, com a indicação "Vítima nº 607", e perguntava pela rede social o que havia ocorrido. 

Por toda a cidade, a Prefeitura de São Paulo distribuiu 849 sacos pretos como esses. Cada um deles faz alusão a um dos mortos do trânsito paulistano em 2018. 

A ação é o cartão de visitas de uma série de campanhas pela redução da violência no trânsito paulistano. Internamente, a gestão Bruno Covas (PSDB) enxerga a ação como chocante mas necessária para mudar o comportamento no trânsito da cidade. 

Até junho de 2020, deverão ser investidos R$ 20 milhões em estratégias de conscientização sobre o tema.

A estratégia ocorre numa tentativa da gestão Covas de frear o número de vítimas no trânsito paulistano que, em 2018, teve a primeira alta depois de três anos de redução da fatalidade. No ano passado, a capital paulista teve 52 mortes a mais do que em 2017, uma alta de 6,5%. 

Entre os mortos estão o aposentado Oswaldo Borin, 79, que voltava da missa quando foi atropelado a poucos passos de casa, e o policial militar Juarez Santiago, 49, que teve sua moto atingida por um carro enquanto ia ao trabalho na manhã de um domingo.

A gestão Covas tem a meta de chegar até o fim de 2020 com o índice de 6 mortes no trânsito a cada 100 mil habitantes. Em 2018, o índice foi de 6,95 (o indicador brasileiro é de cerca de 19).

As campanhas terão o pontapé inicial nesta sexta-feira (29). Os totens cobertos de sacos pretos pela cidade passarão a exibir que São Paulo teve 849 mortes em 2018. O material exibirá também o slogan "Hoje Não! Um movimento pela vida segura no trânsito". 

O objetivo é chamar atenção para a ideia de que os acidentes no trânsito podem ser evitados e que, para que isso aconteça, é preciso que as pessoas mudem a forma como agem. Nesta sexta, o prefeito Bruno Covas apresentará também a primeira peça publicitária, que será veiculada na TV, rádio e redes sociais.

A propaganda mostra cenas de acidentes de trânsito ao som dos versos da canção "Sujeito de Sorte", de Belchior: "Tenho sangrado demais / Tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri / Mas esse ano eu não morro".

A peça convida o paulistano a não cometerem os mesmos erros de sempre no trânsito e, com isso, evitarem  mortes. "Transformar o comportamento no trânsito é um exercício diário. Por isso, hoje precisamos ser melhores do que ontem", diz a locução.

Entre as mudanças propostas estão não usar celular enquanto dirige, não conduzir após beber e não exceder o limite de velocidade. As ações passaram pela assessoria técnica da Iniciativa Bloomberg e da organização Vital Strategies. 

Outro símbolo dessas campanhas deverá ser uma bandeira branca pela paz no trânsito. Bandeiras assim deverão cobrir pontos públicos neste fim de semana, como a sede da prefeitura e o Teatro Municipal, no centro.

"A gente percebeu que não adiantava fazer apenas uma campanha publicitária. A ideia é lançar um movimento de mudança comportamental do agente de trânsito, seja ele motorista ou pedestre nas ruas de São Paulo", disse o secretário de comunicação da prefeitura, Marco Antonio Sabino. 

Ainda neste ano, a prefeitura planeja a colocação de 849 cruzes no canteiro central da avenida 23 de Maio. A ação virá acompanhada de outras atividades voltadas para motociclistas, que em 2018 passaram a ser as vítimas mais frequentes nas ruas e avenidas de São Paulo, ultrapassando os pedestres. 

Uma terceira rodada de ações deve focar em mensagens para pedestres. Por dia, ao menos um motociclista e um pedestre morrem em São Paulo. 

MENOS MORTE EM 2019

Dados preliminares da prefeitura de São Paulo apontam para uma volta da redução da fatalidade do trânsito paulistano. Entre janeiro e setembro deste ano, teriam ocorrido 583 óbitos, 5% a menos do que no mesmo período de 2018.

Em 2019, entre motociclistas, as mortes caíram de 259 para 214, redução de 17%. Já entre pedestres, houve um aumento de 4% das mortes, de 263 para 274.

O secretário de mobilidade e transporte Edson Caram diz que a proibição do acesso de motociclistas à via expressa da marginal Pinheiros (no sentido Castello Branco) teria ajudado a reduzir as mortes entre motociclistas.

No trecho, entre janeiro e setembro de 2018, ocorreram sete mortes de motociclistas. Neste ano, no mesmo período, uma morte foi registrada. O projeto para que obras segreguem pistas no outro sentido da marginal Pinheiros (Interlagos) está em andamento.

Caram diz ainda que até 2020 a prefeitura pretende implementar avanços de calçadas para conferir mais espaço a pedestres, encurtar o percurso de travessias e diminuir a velocidade dos veículos em conversões. As medidas são recomendadas pela Organização Mundial da Saúde para evitar atropelamentos. 

Outra medida já planejada, mas que segue engavetada pela gestão Covas, é a criação de áreas calmas nos bairros de São Paulo. 

Nesses locais, os veículos deverão ter velocidade mais baixa. Dentro desses perímetros, os motoristas não poderão trafegar a mais de 30 km/h. Mas ainda não há previsão para que elas saiam do papel.