Para general, muitos brasileiros são pobres por preguiça

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Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

A entrada de generais e outros oficiais na política terá ao menos um aspecto interessante: a abertura de uma janela para a população conhecer mais de perto o pensamento das figuras que comandam o Exército. A julgar pelas palavras do general Antônio Hamilton Martins Mourão, que entrou para a reserva em fevereiro, não teremos muitas novidades, mas sim a perpetuação de um discurso antipobre que caracteriza a direita brasileira.

Como destacado em coluna de 14 de maio, o Exército apresentará ao menos 71 candidatos nas eleições deste ano, tanto para o Legislativo quanto para o Executivo. O Exército é uma entidade plural, mas as candidaturas são um projeto de direita. Isso pode ser verificado de três formas.

A primeira são as declarações. Ao jornal O Estado de S.Paulo, o general Girão Monteiro, pré-candidato a deputado federal pelo Rio Grande do Norte, disse que os militares devem ser agentes de mudança e, com a mobilização eleitoral, “estão dobrando a esquina e a dobrada é para o lado direito”. A segunda forma é avaliar os partidos aos quais a turma do Exército se filiou: todos são de direita ou centro-direita. A terceira é a mais óbvia: esse grupo de 71 candidatos militares apoia Jair Bolsonaro (PSL), o nome da extrema-direita nas eleições presidenciais.

O general Mourão não será candidato, conforme disse em entrevista publicada pelo portal UOL. Ele está filiado ao PRTB, partido de aluguel de Levy Fidelix, mas se concentrará em servir como cabo eleitoral de seus colegas que disputarão as urnas. Sua arma de atuação será a notoriedade adquirida nos últimos anos.

Ainda oficial da ativa e, portanto, proibido de manifestar opiniões políticas, Mourão homenageou o torturador Carlos Brilhante Ustra, em 2015, e, em 2017, defendeu um novo golpe militar. Punido da primeira vez, Mourão passou ileso na segunda manifestação – enfraquecido, Michel Temer nada fez.

Na reserva e diante das candidaturas de colegas, Mourão mantém um discurso dúbio. Diz que os militares vão voltar ao poder “pelas urnas”, mas sustenta a possibilidade de um rompimento da ordem constitucional. “Uma coisa tem que ficar muito clara. Se o país flertar com o caos, é dever das Forças Armadas garantir os poderes e a lei e a ordem”, disse. E o que seria flertar com o caos? “A desobediência total à legislação existente”, afirmou. Quem define o que é caos ou não, aparentemente, é o próprio Mourão.

Somado a isso, o general traz à tona o ranço antipobre que marca muitos discursos na direita brasileira, em especial quando se fala do Bolsa Família. Ao ser questionado pelo UOL sobre a manutenção de programas sociais, Mourão reconhece que uma das funções do estado brasileiro é “auxiliar as populações que vivem em situação mais difícil”, mas na sequência emenda uma balela na linha do “não basta dar o peixe, mas ensinar a pescar”.

“Você vai prestar uma ajuda, mas a partir de determinado momento aquela pessoa vai ser liberada dessa ajuda e vai caminhar com suas próprias pernas”, afirmou Mourão. Aqui, o pensamento do general ecoa a crítica segundo a qual o Bolsa Família não tem “portas de saída” e seria meramente “assistencialista”.

A argumentação do militar piora quando ele tenta explicar por que muitos brasileiros não caminham com as próprias pernas. “Infelizmente, a nossa população, parcela dela, tem aquela tendência de ficar aguardando que o coco caia na cabeça”, disse Mourão, insinuando que os pobres brasileiros estão nessa condição por serem preguiçosos.

Neste quesito, a fala do general é um amontado de preconceitos e falta de conhecimento a respeito do Bolsa Família.

O Bolsa Família foi criado em 2003, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a partir da junção de quatro programas de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (Bolsa Escola, PNAA, Bolsa Alimentação e Auxílio-Gás).

A matriz do programa é liberal: transferir a renda diretamente para as pessoas que precisam de auxílio e dar liberdade a elas para usar a verba como acharem correto, desde que as crianças da família estejam matriculadas na escola e cumpram o calendário de vacinação. A ideia é que isso permita aos beneficiários apostarem na educação das crianças e fazer com que elas rompam o ciclo de pobreza que, muitas vezes, é um problema familiar. Assim, o Bolsa Família não precisa de portas de saída, porque ele é a própria porta de saída da miséria.

Também é mentira que os beneficiários do programa estejam “esperando o coco cair na cabeça”. Dados oficiais de 2015 mostravam que 75% dos beneficiários do programa trabalhavam ou estavam procurando emprego, ainda que muitos deles, pouco qualificados, estejam na informalidade e em funções precárias.

A ignorância sobre o Bolsa Família não é exclusividade de Mourão. O próprio PSDB de Fernando Henrique passou anos falando em “bolsa-esmola”. Em janeiro deste ano, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), acusou o programa de “escravizar” seus beneficiários. É um tipo de argumentação que, em geral, vem acompanhada da acusação de que o Bolsa Família seria uma forma de compra de votos. Em 2016, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, ligado ao PSDB, fez tal comentário.

Estudos científicos mostram que o Bolsa Família eleva a chance de o beneficiário votar no candidato do governo, mas neste debate nem seria necessário considerar essas pesquisas não fosse o preconceito. Afinal de contas, é comum que eleitores votem em candidatos que, avaliam, podem trazer benefícios, inclusive financeiros, a eles.

Isso é válido para as pessoas atendidas pelo Bolsa Família, ou para quem quer inflação baixa, menos impostos, licença para explorar áreas preservadas, mais facilidade para demitir seus empregados ou isenção de tributos para determinadas atividades, por exemplo.

O Bolsa Família é uma política pública como qualquer outra, mas tem como diferencial o fato de ser direcionada aos mais pobres, o que é inadmissível para muitos setores da sociedade brasileira.

Em vez de destilar preconceito contra os mais pobres, gente como Mourão faria melhor se gastasse seu tempo refletindo sobre um país em que cerca de um quarto da população precisa de uma ajuda mensal mínima (o benefício médio é de R$ 178) do governo e, mesmo assim, ela é extremamente relevante. A miséria e a pobreza são realidades de que os políticos brasileiros, de origem militar ou não, deveriam se envergonhar.