Para historiador do fascismo, Biden está certo em alertar para ameaça de Trump

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Por mais arriscado que seja politicamente, Joe Biden está correto em chamar de "semifascistas" e ameaça à democracia dos EUA o ex-presidente Donald Trump e seus apoiadores, defende o historiador Federico Finchelstein, especialista na história do fascismo. No discurso mais duro de seu governo até aqui, o mandatário afirmou, na noite desta quinta (1º), que a democracia americana está sob ataque.

Autor de "Do Fascismo ao Populismo na História" (Ed. Almedina) e professor da universidade The New School, em Nova York, Finchelstein afirma que tanto Trump quanto o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL), têm se afastado do populismo e caminhado em direção ao fascismo.

Para o argentino radicado nos EUA, no entanto, o ataque à ex-presidente Cristina Kirchner, também na noite de quinta, talvez não se encaixe na definição de neofascismo porque não há, no país sul-americano, conexão clara entre o alto escalão da política e grupos radicais.

PERGUNTA - Biden afirmou que a democracia nos EUA está sob ataque. Uma semana antes, chamou apoiadores de Trump de semifascistas. Para o senhor, essa definição faz sentido?

FEDERICO FINCHELSTEIN - Sim. Vemos populistas como Trump ou Bolsonaro no Brasil que de alguma forma estão se reformulando, tomando uma forma autoritária e reconstituindo-se em um projeto fascista. O populismo degrada a democracia sem destruí-la, enquanto o fascismo destrói a democracia por dentro.

É o caso desses dois personagens, com intenção, aspiração e vocação quase fascista. No caso de Trump, houve uma clara tentativa de golpe. No de Bolsonaro, há sinais de querer replicar essa tentativa. A democracia, por sorte e graças ao poder das instituições e à vontade de muita gente que a defende, não foi destruída. Mas a vocação e a intenção estão lá. Por isso, o termo em inglês que uso é "wannabe fascism"; por essa razão, o termo de Biden está correto.

Esse tom é novo para Biden, que até aqui vinha pedindo união. Acha que é papel do presidente chamar adversários políticos de semifascistas?

F. F. - Depende do caso. Como historiador especialista em fascismo e populismo, quando vemos que não se identificam com a Constituição e a legalidade, defendem golpes e as outras coisas que sabemos que aconteceram, creio que não há outra forma de chamá-los.

Mas pensando no jogo político, não é arriscado estigmatizar grande parcela dos eleitores que ainda apoia Trump e os republicanos?

F. F. - Como historiador, digo que o termo está correto. Agora, se é uma boa estratégia chamar as coisas pelo que elas são, é uma decisão política. Acredito que a normalização do extremismo, da violência, da xenofobia e do apreço pela ditadura também não são boa ideia politicamente.

Goste-se do que dizemos ou não, é o que está acontecendo nos EUA e o que Trump tem feito no Partido Republicano. Talvez haja eleitores que podem não se identificar com o que diz Biden. Por outro lado, é importante para a sociedade americana que aqueles que estão atentando contra a democracia sejam identificados assim.

O atentado a Cristina Kirchner na Argentina também é parte desse movimento fascista que o sr. descreve?

F. F. - Ainda não se sabe muito do criminoso. Mas acredito que haja uma grande diferença com os EUA, onde Trump, neofascistas, nacionalistas brancos, todos formam um grande espectro inimigo da democracia. Lembre-se que Trump já afirmou que entre os nazistas havia gente que era boa. Ele, como Bolsonaro, promove uma normalização e uma integração desses setores, há um arco político inimigo do liberalismo, do constitucionalismo e do iluminismo.

Na Argentina, não está claro que haja essa mesma articulação. Qual seria a vinculação desse criminoso com setores políticos? Não há isso claro. Nos EUA, em casos de terroristas extremistas como o de El Paso [que matou 22 pessoas no Texas em 2019], vemos uma incorporação da linguagem trumpista: todos se veem como participantes de uma frente comum contra o pluralismo, a diversidade. Ainda sabemos pouco do criminoso na Argentina, mas não me parece que represente altos setores da política. No país, ao menos no centro dos principais partidos, não vemos atores políticos extremistas como Trump e Bolsonaro.

O sr. faz uma série de comparações entre Trump e Bolsonaro. Preocupa-se com as eleições presidenciais no Brasil?

F. F. - É interessante porque o Brasil é muito mais comparável aos EUA do que à sua vizinha Argentina. O que vemos no país é um governo cuja vocação é fascista. No caso de Bolsonaro, que tanto imita Trump, há uma vocação e intenção constantes para destruir o sistema legal e a constitucionalidade da democracia brasileira. Por sorte, o Brasil tem instituições fortes e um espectro político que também rechaça em grande medida o que está acontecendo. É uma eleição central na história do Brasil.

Raio-x | Federico Finchelstein, 47

Professor no departamento de história da New School, em Nova York, e doutor pela Universidade Cornell, é especialista em fascismo e populismo. Nascido em Buenos Aires, é autor de "Uma Breve História das Mentiras Fascistas" (Ed. Vestígio) e "Do Fascismo ao Populismo na História" (Ed. Almedina).