Para Lula, Bolsonaro tem que ser visto 'mais pra Hitler e Mussolini' do que pra direita

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Former Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva speaks during the launching of the Memorial da Verdade (Memorial of Truth) in Sao Paulo, Brazil, on August 12, 2021. - Memorial da Verdade is a book and digital platform to tell the whole story of the judicial persecution suffered by Lula da Silva until his innocence was definitively proved to recover his political rights. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Lula sobre Bolsonaro: "Não tem 3 minutos de argumento pra nada sério, Por isso que a vida dele é fake news". (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)
  • Ex-presidente foi entrevistado por Mano Brown

  • Petista falou sobre uma possível candidatura

  • Ele avalia que Bolsonaro é fruto da despolitização

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) foi o convidado no último episódio do podcast “Mano a Mano”, conduzido pelo rapper Mano Brown, divulgado na madrugada desta quinta-feira (9). Na entrevista, Lula falou sobre uma possível candidatura, sua avaliação da temperatura política do Brasil e sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Sobre o atual mandatário do país, o petista afirmou que ele não chega a ser um político de direita, mas que estaria mais próximo de ditadores como Adolf Hitler e Benito Mussolini.

"O que tá acontecendo no Brasil não é uma disputa de direita e esquerda. É entre fascistas e democracia. Bolsonaro não é de direita. Ele tem que ser analisado mais pra Hitler e Mussolini do que pra um cara de direita. Porque ele não pensa. Ele não constrói um pensamento, ele constrói bobagem. Você não vê uma frase inteira dele dizendo alguma coisa que preste, é só bobagem", disse Lula.

O ex-presidente também definiu os dois polos políticos.

“Esquerda são agrupamentos políticos mais preocupados com a questão social, com o crescimento de oportunidades para os chamados oprimidos. E as direitas são aqueles setores conservadores, que querem ficar mais ricos em detrimento da sociedade”, explicou. Além disso, acrescentou que a direita não busca um estado “menor”, mas "um estado servindo aos seus interesses". Ainda assim, o ex-presidente reconhece sua importância.

"A direita não fala uma linguagem que eu admiro que ela fale. Ele [Bolsonaro] ganhou porque muita gente do nosso povo votou com ele. Nós perdemos no debate ideológico. A direita tem sua importância sim, eu admiro um cara de direita que debate com firmeza. O que não acho é que esteja preparado pra enfrentar o debate destrutivo que eles fizeram", disse.

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Ele concluiu com uma crítica ao presidente Bolsonaro: "Não tem 3 minutos de argumento pra nada sério, Por isso que a vida dele é fake news".

“Eu dizia: ‘eu não gosto de política e não gosto de quem gosta’. Como eu era ignorante.”

Para Lula, a presença de Bolsonaro no cenário político e sua ascensão ao poder é consequência da despolitização que o Brasil enfrenta, que impede as pessoas de falarem de política.

“Eu dizia: ‘eu não gosto de política e não gosto de quem gosta’. Como eu era ignorante. Como a gente não gosta? Eu tenho que gostar de política e fazer. Quando a gente não gosta, o ovo da serpente para em Bolsonaro. O Bolsonaro é fruto da despolitização da sociedade brasileira nessas últimas duas décadas”, afirma.

Para ele, é importante que o jovem se envolva cada vez mais na política e usar sua “raiva” como ferramenta para a transformação.

"Quando você estiver revoltado, quando você não tiver acreditando em ninguém, quando você achar que ninguém presta, preste você. Em vez de você achar que a solução estão em outra pessoa, seja você, faça você, faça você a politica".

Agora, sobre a possibilidade de ele mesmo sair como candidato, Lula afirmou que é uma decisão que ele ainda irá fazer.

“Não estou candidato ainda, só vou decidir se vou ser candidato em março. Eu sei que é difícil acreditar que alguém que está em 1º lugar nas pesquisas não é candidato, mas eu não sou por uma simples razão. Primeiro porque não quero ser candidato de mim mesmo. Preciso construir uma candidatura que venha de baixo pra cima. Eu quero ouvir muita gente, quero conversar com muita gente. Por que? Porque de todo mundo que tá pensando em ser candidato, todo mundo pode prometer o que quiser. Eu não posso, porque eu já fiz. Porque eu tenho um patamar. Eu não posso fazer menos do que fiz. Eu aprendi uma lição. Você não conserta esse país se você não colocar os pobres no orçamento. Você colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda, aí você começa a resolver os problemas do país", declarou o ex-presidente.

Lula explicou a forma como buscou trabalhar nas tomadas de decisões durante seus dois mandatos (2002-2010): "Pra tomar uma decisão, eu gosto de conversar e ouvir. Pegar 4,5, 6 opiniões porque se errar, erro com consistência. No meu governo, todas as decisões foram emanadas de conferências nacionais".

E completou: "O presidente não é deus, ele é um cidadão que tem um papel de síndico. Eu não acredito em ninguém que fale, eu sei, eu posso. Governei durante 8 anos e nunca me senti sozinho. Se estiver numa reunião com 30 pessoas, eu escuto as 30".

“O PT é uma coisa muito forte nas entranhas desse país”

Lula também comentou sobre o Partido dos Trabalhadores. Ele não acredita ser, como muitos dizem, maior que o PT. Além disso, avalia que o partido ainda tem espaço entre os trabalhadores brasileiros.

“Eu acho o PT maior do que eu, apesar de muita gente achar o contrário. O PT é uma coisa muito forte nas entranhas desse país. Uma vez eu fui no Amazonas. Quando cheguei lá, tinha um monte de índio e um monte de criança com bandeirinha do PT. Eu comecei a chorar. O PT tá enraizado na sociedade, tem gente que anda 3 horas de canoa, comendo frango assado com farofa e tomando água do próprio rio pra participar de uma reunião do PT. Por isso eu acho que o PT é maior do que eu”, diz.

Mas o ex-presidente pondera também que o PT precisará de acordos com outros partidos, pois é o "jogo democrático". No entanto, ele afirma que "é muito difícil imaginar um candidato que não seja do PT pela esquerda".

Mano Brown lembrou ao presidente sobre seu discurso durante a campanha eleitoral de Fernando Haddad (PT) para a presidência, em 2018. Na época, Brown disse estar “pessimista” com a possibilidade de “virada” dos votos.

“Eu cheguei e pensei. A gente perdeu a eleição. Olhei pra plateia e não vi os meus lá. Aquele povo que colocou o Lula no governo, a massa negra, a massa operária, a massa da favela. Os nossos eram motoristas, seguranças, gari e eles não estavam do nosso lado. E aquilo me revoltou e eu percebi que a gente tinha falhado ali”, declarou o rapper.

Sobre o tema, Lula disse que aceita as críticas.

"Prefiro que as pessoas digam pra mim a verdade nua e crua e você chamou a atenção do PT pra uma causa. O PT esqueceu do seu discurso originário, que era dar vez e voz ao povo trabalhador desse país, o povo oprimido. Se o PT esquecer pra que que ele nasceu, melhor acabar", admitiu o ex-presidente.

“Não surgiu nada melhor do que o PT nesse país. Eu não vim de cima pra falar com o de baixo, saí de baixo pra levar os de baixo pra cima. Isso o PT não pode esquecer”, completou.

“Imagina a cara do Lula em outro país, fugitivo?”

Sobre as denúncias que levaram a sua prisão, Lula disse que seu objetivo sempre foi provar sua inocência.

"Eu tive convite pra sair do Brasil, mas eu disse que não. Vou lá pra perto da cara do Moro, pra provar que ele é mentiroso. Imagina a cara do Lula em outro país, fugitivo? Não. Eu vou lá pra provar minha inocência", contou. Ele revelou também que, com o bloqueio dos seus bens e do dinheiro de suas palestras, vive com o salário que o PT paga.

“O movimento negro tem que participar em igualdade de condições.”

A dupla também conversou sobre o racismo na política brasileira e a falta de representatividade.

“A política era branca, a cultura era branca, Você não via gerente de banco preto. A direção do PT tinha uma maioria branca, maioria de homem também. O que tá acontecendo agora? Há uma evolução política, dos negros tanto homens quanto mulheres, um grande numero de gente tá adquirindo consciência de que não basta ficar achando que é vitima, resolveram ir a luta, brigar e falar ‘oh, eu quero meu espaço’. O PT é o único partido que tem setoriais. A sociedade é plural, ela tem suas cores, seus gostos, nós queremos que ela se apresente de fato como ela é. Não queremos pegar o negro porque é negro e falar não, vai ter que alguém. O movimento negro tem que participar em igualdade de condições. Pelo caminho da politica”, declarou Lula

O ex-presidente avaliou ainda que o movimento "Black Lives Matters", que tomaram os Estados Unidos ano passado, foram importantes para a transformação. "Tudo que você fizer de manifestação pra se afirmar, acho muito importante. É preciso acontecer isso."

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