Para madeireiros, declaração de Bolsonaro pode prejudicar exportações

O Globo
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Mark Moffett
Mark Moffett

RIO - A declaração do presidente Jair Bolsonaro, na terça-feira, durante a reunião de cúpula dos Brics, de que tem uma lista de nações que estariam comprando madeira ilegal brasileira vem gerando insegurança e apreensão entre empresas exportadoras e importadoras. A afirmação foi tida como um tiro no próprio pé por representantes do setor.

Segundo estimativas do mercado, os embarques somam 20% do total da madeira que é produzida no país. E, afirmam especialistas, as vendas para o exterior não estão no centro da comercialização ilegal de madeira do país, já que, dizem, o segmento precisa passar por um longo processo de fiscalização e certificação.

O Pará é hoje o principal e maior exportador de madeira amazônica. São cerca de US$ 220 milhões por ano, segundo a Associação de Indústrias Exportadoras de Madeira do Pará.

O pesquisador Adalberto Veríssimo, co-fundador do Imazon, em entrevista ao podcast "Ao Ponto", do Globo, destacou que a declaração de Bolsonaro traz um reflexo brutal entre os importadores, um dos mercados mais fiscalizados.

- Quem vai querer comprar madeira se o próprio presidente diz que ela está sendo exportada de forma ilegal. Essa frase coloca uma pá de cal em um setor, o exportador, que é o mais organizado e estruturado, justamente por ter muita fiscalização -disse Veríssimo.

Antes de a madeira ser vendida ao exterior, é preciso uma série de documentos e autorizações. Ele cita a necessidade de comprovação de origem, com identificação das árvores e elaboração do projeto de manejo. Em seguida, o Ibama e a secretária estadual de meio ambiente precisam aprovar a extração, a depender da localização do terreno.

Em seguida, o extrator e o serrarista (quem serra a madeira) precisam da Guia Florestal, que reúne informações de quando a árvore foi extraída, sua quantidade e o caminho que está sendo feito até o porto, entre outros exemplos.

- A cadeia é longa e tudo pode ser acompanhado de forma on-line. Além disso, muitos países da Europa e Estados Unidos exigem toda essa documentação e comprovações. Eu costumo concordar com o presidente Bolsonaro, mas tem uma impetuosidade que nem sempre traz bons resultados - diz Puppo.

Segundo Puppo, haverá impacto entre os importadores:

- Isso vai gerar apreensão e insegurança. Não existe a possibilidade de uma empresa do exterior comprar madeira ilegal porque há documentação. A madeira, diferente do ouro, você não consegue colocar no bolso - afirmou Pupo.

Países da Europa e Estados Unidos exigem ainda que as empresas brasileiras que vendem a madeira apresentem relatórios de auditoria externa certificando o uso de boas práticas. Diversos países também criam barreiras se a companhia brasileira não tiver o selo internacional chamado FSC, que impede o uso de madeira explorada ilegalmente.

Um especialista disse que é preciso atuar com mais força dentro do território nacional, já que 80% da madeira da Amazônia é consumida dentro do país. O setor madereiro foi um dos que sempre mostrou apoio público ao presidente.

Este ano, a produção total deve oscilar entre 12 e 14 milhões de milhões de metros cúbicos de tora. O número é quase a metade do que total produzido em 2004, de 24 milhões de metros cúbicos de tora.

- O mercado já está em declínio. Além da percepção do desmatamento, agora há a perspectiva de ilegalidade, algo que nenhuma autoridade havia dito antes.