Para manter Araújo, Bolsonaro negocia deslocar assessor acusado de gesto supremacista

Jussara Soares e Daniel Gullino
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BRASÍLIA - Pressionado a fazer a mudança na política externa, o presidente Jair Bolsonaro tenta negociar com o Congresso uma blindagem ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Nesta manhã, Bolsonaro procurou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), para verificar se afastamento do assessor especial de Assuntos Internacionais, Filipe Martins, já seria o suficiente para acalmar os ânimos entre os senadores e do Centrão. O principal argumento é que a saída de Martins, um dos expoentes do grupo ideológico, já seria um ponto de inflexão na relação com países como China, Estados Unidos, União Europeia e Índia.

O encontro ocorreu na residência oficial do Senado e foi marcado de última hora, após Bolsonaro telefonar para Pacheco. O presidente, que participava da Cúpula do Mercosul ao lado do chanceler, deixou a reunião virtual e se dirigiu para a conversa com o presidente do Senado. A reunião durou cerca de meia-hora. Segundo Pacheco, Bolsonaro não indicou mudanças imediatas.

O presidente, no entanto, já ofereceu ao assessor internacional ocupar cargos no Instituto de Pesquisa e Relações Internacionais do Itamaraty, uma diretoria ou um escritório no exterior na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e até mesmo um cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Há ainda a opção para que o próprio Martins escolha um cargo que se interesse e que tenha viabilidade de acomodá-lo. Ainda não há uma decisão tomada.

A saída de Filipe Martins repete a solução encontrada para o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, outro expoente da ala ideológica. Na época, Bolsonaro, pressionado pelo Supremo Tribunal Federal, indicou Weintraub para um cargo no Banco Mundial em Washington. A demissão ocorreu após a divulgação da reunião ministerial de 22 de abril em que Weintraub chamou os ministros do STF de “vagabundos” e defendeu a prisão dos magistrados.

Dentro do governo, Martins é chamado de “chanceler informal”. Por despachar no Planalto e ser próximo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o assessor internacional sempre teve uma ascendência sobre as opiniões do presidente na política externa, o que contrariava principalmente ministros militares.

Na última quarta-feira, durante sessão em que o chanceler Ernesto Araújo era cobrado por explicações sobre a estratégia para a aquisição de vacinas contra a covid-19, Martins fez um gesto associado a supremacistas branco. O sinal também pode ser interpretado como xingamento, mas o assessor alega que estava arrumando a lapela do terno.

O episódio elevou a cobrança dos parlamentares para a mudança de rumos da política externa e ganhou força com integrantes do Palácio do Planalto, que tentam convencer Bolsonaro a buscar uma moderação. A demissão de Filipe Martins já era defendida dentro do próprio governo, mas o assessor até agora vinha conseguindo se manter com o apoio de Bolsonaro.

Na conversa com Bolsonaro, o presidente do Senado disse ter cobrado mais uma vez a mudança na política externa para melhorar a relação com todos os países neste momento de pandemia. Segundo ele, no encontro Bolsonaro não manifestou que a intenção de mudança, mas apenas ouviu os argumentos.

— A permanência ou a saída de um ministro, de qualquer que seja ele, inclusive do ministro das Relações Exteriores, é uma decisão que cabe ao presidente da República. O que nós cabe enquanto Senado Federal, Câmara dos Deputados, enquanto Parlamento, é cobrar ações e fiscalizar as ações dos ministérios. E nós consideramos que a política externa do Brasil ainda está falha, ela precisa ser corrigida.

Pacheco disse que relatou ao presidente sobre a investigação da polícia investigativa sobre o gesto feito por Filipe Martins.

— Nós conversamos a respeito disto (Filipe Martins) muito rapidamente. Eu informei ao presidente da República que isso é objeto de um procedimento de apuração, de investigação no âmbito da Polícia Legislativa do Senado Federal, que terá suas conclusões e as consequências jurídicas deste fato, obviamente existentes, serão apuradas e serão tomadas as providências. A providência política, de manutenção ou não desse assessor, cabe ao presidente da República, afinal de contas pode demitir apenas aquele que admite.