'Para os que ficam', de Alex Andrade, é retrato asfixiante de uma vida que perdeu o rumo da felicidade

Aos 47 anos de idade, Ana está num momento bem delicado da vida. Com um pé no alcoolismo e outro no tabagismo, vê sua saúde mental indo embora rapidamente. Sem trabalho e sem companheiro, dedica-se somente ao pai, que sofre de Alzheimer já em estado avançado. Tudo isso, claro, tem um preço.

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Este é o pontapé inicial de “Para quem fica”, 12º livro do carioca Alex Andrade. É Ana quem nos conta seu cotidiano, com direito a remexer, e muito, nas memórias pesadas que não a largam. Sua história é comum — mas pessoal e intransferível. O desfecho, no entanto, é menos óbvio.

Esperava-se de Ana que se comportasse passivamente diante dos planos que a família lhe reservara: o lar, o casamento, a tradição. Mas uma paixão adolescente levou-a para longe da ordem vigente. Deu um basta e foi conhecer a liberdade, viver a vida própria. Assim, foi feliz enquanto pôde.

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Até que a sorte mudou. Um dia o príncipe virou sapo e tornou-se um macho como outros tantos, a paixão foi embora, o casamento desabou na cabeça da Ana. Com a morte da mãe e a doença do pai, não teve muita opção a não ser voltar para a casa onde fora criada. E aí a gente vê que debilitar a saúde mental da protagonista era um processo coletivo que vinha de longe. Com muita frequência, é assim que famílias estragam tudo. Sem intenção consciente, vá lá, mas com efeitos invariavelmente brutais.

Tensão em alto grau

Um exemplo asfixiante das interações familiares está no capítulo em que o pai de Ana consegue enganá-la e deixá-la trancada no banheiro, enquanto ele toca sua vida normalmente, em frente à TV em alto volume. Tensão em alto grau, quase um conto (de terror psicológico) dentro da novela.

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Entre idas e vindas na história de Ana, suas certezas se esfarelam, e é nessa experiência de desmantelamento que Andrade mostra um olhar bem especial sobre sua personagem e, claro, sobre a própria literatura.

Diga-se que ele ousou encarnar a narradora, escrevendo a história em primeira pessoa. Saiu-se bem. Não há estranhamento algum na voz e na sensibilidade de Ana, a personagem é íntegra, não importa quem a gerou — mostrando, assim, quão débil pode ser o famigerado “lugar de fala” em sua arrogante reserva de mercado no mundo da criação artística em geral.

“Para quem fica” é uma novela curta, ou um longo poema trágico, com força o bastante para incomodar — ou seja, merece ser lida. Sem romantizar o sofrimento dos personagens, sem cravar lições de moral, Andrade faz do livro uma fonte de reflexão sobre questões importantes como envelhecimento, solidão, saúde, memória, violência contra mulheres, abandonos, superações. As porradas surgem página após página, numa sucessão de imagens intrigantes.

Outro ponto forte da novela é que, para o leitor médio, é impossível não se identificar com Ana, aqui e ali, o que nos conduz sem esforço à resolução do enredo. Até porque, no fim das contas, a sorte pode virar para qualquer um de nós, e não custa nada tentar aprender com a experiência alheia.

‘Para quem fica’ Autor: Alex Andrade. Editora: Confraria do Vento. Páginas: 152. Preço: R$ 51.Cotação: bom.

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