Para país sair da crise, 'tem que haver harmonia entre Legislativo e Executivo', diz presidente do Itaú

Bruno Rosa

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, mostrou preocupação com a atual crise política no Brasil em meio à pandemia do coronavírus. Em teleconferência com jornalistas na manhã desta terça-feira para a apresentação de resultados do primeiro trimestre, o executivo do maior banco privado do país, destacou ainda que é preciso confiança no momento da retomada da economia, quando a dívida pública deve chegar a 90% do PIB.

— Vamos terminar a crise com uma dívida muito elevada. A dívida pública vai passar de 75% para 90% do PIB. A crise atingiu o Brasil com uma taxa de juros muito baixa, resultado da gestão fiscal e reforma da previdência. E vamos ter que ter essa mesma confiança para a saída da crise.

Ele completou:

— Para isso acontecer, tem que ter harmonia entre os poderes, principalmente entre o Legislativo e o Executivo. E  eu vejo com preocupação essas tensões políticas. Não precisaríamos acrescentar a crise política a esse atual cenário.

Na noite desta segunda-feira, o Itaú divulgou  lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões entre janeiro e março. É uma queda de 43,4% em relação aos R$ 6,9 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.

O banco também informou que a provisão da companhia aumentou 37%,  chegando a R$ 47,1 bilhões em março deste ano. No mesmo mês do ano passado, a provisão foi de R$ 34,2 bilhões.  É assim o maior patamar desde pelo menos março de 2016, informou a instituição em sua apresentação a jornalistas.

Do total das provisões no trimestre, cerca de R$ 22 bilhões são classificados como perda potencial, relacionada ao varejo e ao atacado. Já R$ 11,5 bilhões estão atrelados ao agravamento da classificação de risco.  E os  R$ 13 bilhões restantes estão atrelados a atrasos. 

— No trimestre, fizemos uma provisão complementar de R$ 4,3 bilhões prevendo dificuldade pela frente.  Como é uma pandemia e uma questão sanitária, observamos que os atrasos e a necessidade de renegociação aumenta muito. O papel do banco é repactuar as operações ao longo do tempo — disse Milton Maluhy, vice-presidente executivo do Itaú Unibanco em conferência com jornalistas, lembrando que foram repactuados 850 mil contratos no trimestre.

Apesar do aumento da provisão e do menor lucro, o banco viu no primeiro trimestre um aumento no  volume da carteira de crédito. Ao fim de março, o volume chegou a R$ 769,2 bilhões, maior que os R$ 647,1 bilhões no mesmo mês do ano passado.

Sobre a evolução da taxa de juros, Candido Bracher, presidente e CEO do Itaú Unibanco, também presente na conferência, disse que o banco procurou “manter os níveis pré-crise ou melhores”. Porém, evitou fazer previsões para a economia:

— Já para as empresas, foi uma análise (de juros) caso a caso.  Não forneceremos guidance (previsão) para esse ano. Queremos estar com as mãos livres para fazer as provisões necessárias de modo que a crise evolua. Vamos ter uma atenção muito grande sobre o volume de provisões. A responsabilidade do banco é manter seu balanço forte e vamos fazer as provisões que julgamos ser necessárias - disse presidente do banco.

Perguntado sobre as iniciativas feitas entre bancos e o BNDES, o presidente do Itaú foi cauteloso em sua resposta. Bracher disse que a maior necessidade por parte das companhias será de rolagem de crédito:

— Temos participado com demais bancos e o BNDES em reuniões sobre setores específicos da economia. Temos disposição em participar,  mas não com equity (compra de ações). Concedemos muito crédito para grandes empresas, com crescimento no volume em quatro vezes já em março. E vamos continuar atuantes.

Para ele, as empresas vão precisar mais de crédito do que as pessoas, já que há uma menor tendência de consumo entre as pessoas físicas. Quando a economia retomar, as pessoas estarão mais comedidas com seus hábitos, destacou.

O Itaú Unibanco prevê um PIB do terceiro trimestre oscilando entre uma queda de 3,9% e 6,9%.

—  A queda no PIB vai afetar as empresas, principalmente as grandes e médias.

Na teleconferência, Maluhy destacou ainda a  ampliação da carência e de prazos para os clientes. No primeiro trimestre, aumentou o período de carência de 60 dias para 120 dias para pessoas físicas e para 180 dias para empresas.  O prazo foi ampliado para até seis anos.

— Quando uma empresa tem problemas em tempos de paz, você precisa ser mais rigoroso. Quando acontece com toda a sua carteira, é um fenômeno macroeconômico e tem que mudar o procedimento. Foi o que fizemos.

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