Para Temer, o candidato do governo parece ser Alckmin e não Meirelles

Paulo Lopes/Futura Press

Em entrevista exclusiva à Folha de São Paulo, o presidente Michel Temer (MDB) fez balanço sobre a gestão, falou sobre a sua investigação e, principalmente, sobre o futuro do Brasil com as Eleições de 2018. Inclusive, afirmou que a aliança de Geraldo Alckmin (PSDB) com o centrão mostra que o candidato está mais próximo do Governo do que, até mesmo, Henrique Meirelles (MDB), candidato do seu partido. “Os partidos que deram sustentação ao governo, inclusive o PSDB, estão com ele (Alckmin). Vou ter cautela para não fazer campanha para um ou outro”.

Outro ponto debatido foi o dos novos candidatos. Quem sofreu críticas mais severas foi Ciro Gomes (PDT). Para Temer, os seus ministros pediram para que os aliados não fossem com ele porque “foi sabedoria da base. As pessoas veem esse cidadão (…) dizendo barbaridades sobre o governo e no plano pessoal”. Também falou de Jair Bolsonaro (PSL) e Lula (PT).

Acompanhe a conversa completa:
A maioria das siglas de sua base apoia Alckmin e não Meirelles, do seu partido. Por quê?
Evidentemente eu não iria obrigá-los a apoiar o candidato do governo —do MDB. Aliás, o Alckmin recebeu críticas porque tem o apoio de todos. Se você dissesse: “quem o governo apoia?”. Parece que é o Geraldo Alckmin, né? Os partidos que deram sustentação ao governo, inclusive o PSDB, estão com ele. Vou ter cautela para não fazer campanha para um ou outro. Até porque falam muito da impopularidade. Não quero nem incomodar, digamos.

Diante dessa impopularidade, Meirelles deveria se posicionar de modo diferente?
As pessoas precisam ser verdadeiras. Meu trabalho foi […] mostrar ao MDB que deveria ter um candidato. Agora, o Meirelles tem que fazer uma campanha para… Não pode desligar-se do governo. Dizer “eu não participei deste governo” é impossível.

Ele defende o governo de maneira firme o suficiente?
É o estilo dele. A tendência natural e inafastável é que ele defenda as teses do governo. Basta mostrar o que fizemos. Apesar da greve dos caminhoneiros, que causou impacto, mantemos a possibilidade de [alta de] 1,5%, 1,4%, 1,6% do PIB. Meirelles vai fazer isso. Aliás, o próprio Geraldo Alckmin, quando questionado sobre essas matérias, diz: “a reforma trabalhista é importante, tem que ser mantida” etc.

O sr. disse que Alckmin parece ser candidato do governo. É um fato?
Pode vir a ser fato. Primeiro pelo que ouço ele declarar. Segundo porque esses que ajudaram a fazer as reformas vão estar no governo se ele ganhar. Quem for eleito não vai conseguir se afastar do que começamos.

Mas Alckmin se descola do seu governo. Diz que quem o escolheu como vice foi o PT.
Faz parte do jogo eleitoral. Não tenho crítica ao que ele diz.

Seus ministros pediram que os partidos aliados não apoiassem Ciro Gomes. Por quê?
Foi sabedoria da base. As pessoas veem esse cidadão… Como é o nome? Ciro Gomes, Ciro Gomes… Veem esse cidadão dizendo barbaridades sobre o governo e no plano pessoal. Eles próprios raciocinaram e disseram: “não podemos ir com alguém que vai destruir o que fizemos”.

A candidatura do PT representa o mesmo?
Representa um pensamento que é naturalmente oposição ao que fizemos. Quando assumimos, o PT fez oposição acirrada, para não dizer feroz.

O ex-presidente Lula deveria disputar a eleição?
Não acompanho os autos. Se não estivesse impedido legalmente, poderia participar. Temos que respeitar certas instituições. Falo isso embora o PT fale muito mal de mim. Lula foi presidente. Se cometeu equívocos, são analisáveis pelo Judiciário. Mas não se pode negar alguém que exerceu a Presidência.

A que atribui o desempenho de Jair Bolsonaro?
É filtro de uma insatisfação com uma aparente desordem. Não é sem razão que às vezes pede-se intervenção militar. E os militares, o que eles menos desejam é isso. Ele adota teses conservadoras e tem sucesso.

Bolsonaro diz que nomearia ministros militares. O sr. tem dois em seu governo. O que acha da participação dos militares nesses postos?
Você poderia perguntar: “o que acha do apartamento entre civis e militares?”. Considero todos igualmente brasileiros. A participação no governo é mais do que legítima.

Dadas as tensões políticas do país, o Brasil corre risco de um novo impeachment?
Acho difícil. É importante a boa relação [entre os Poderes]. O risco do impedimento é se houver divergência grande entre Executivo e Legislativo.

Gostaria de ter encontrado outra saída para a crise do governo Dilma Rousseff, e que ela tivesse concluído o mandato?
Se o governo tivesse conseguido continuar, não teria sido ruim. Não que pudesse continuar naquele sistema. Quando assumimos, resolvemos muitos problemas que estavam mal encaminhados.

O sr. deve terminar o mandato com a economia ainda abalada, impopularidade alta e sob investigação. Valeu a pena ser presidente?
Não era necessário, mas valeu a pena. A vida me entregou o papel de presidente. Tenho que interpretar bem esse papel, com todos os azares que isso signifique.

Como planeja a transição? Ajudará a votar medidas do presidente eleito já este ano?
Evidentemente, ajudo se estiver de acordo.

O inquérito sobre a edição do decreto do setor portuário que envolve o sr. vai completar um ano. Como avalia as apurações?
Iniciou-se uma apuração em torno de uma pessoa, não de um fato. É uma coisa juridicamente escandalosa. Sei que vai fazer com que os ânimos se ericem, mas não me incomodo. Eles dizem: “Ah, nós precisamos pegá-lo de qualquer maneira!” etc. Meu papel é fazer essa pregação, porque estou sofrendo as consequências de uma coisa que quase paralisa o país. Se eu não tivesse força pessoal e espiritual suficiente, teria sucumbido. Eu não sucumbi.

Tem preocupação com o que ocorrerá quando deixar o cargo?
Nenhuma. É possível que quando eu deixe a Presidência [eles pensem]: “esse sujeito não é mais nada, vamos abandoná-lo”. Mas o processo deve prosseguir. Tenho convicção da inadequação.

Recentemente, perguntado se temia ser preso, o sr. disse que achava uma indignidade falar do assunto.
Se me permite, registre que a pergunta é ofensiva. Uma inadequação absoluta. As instituições perderam significado e as pessoas perderam respeito. Por isso você faz essa pergunta. Não é culpa sua, é culpa de quem investiga e faz perguntas inadequadas, passa informações. O interesse é alimentar a imprensa, não concluir o inquérito. É deixar no ar.

O que pensa da ideia de conceder foro privilegiado para ex-presidentes?
É decisão do Congresso, nem dou palpite. O fato é que o ex-presidente, quando responde por um fato, não responde como pessoa, responde como instituição. Pela lógica, talvez coubesse a hipótese, mas nem discuto.

Que conselho daria ao futuro presidente?
Pacificação. O Brasil está pautado pela ideia de ódio entre setores. É ruim para o país. Durante a campanha é natural um acirramento dos ânimos, mas depois todas as forças devem se unir.

Veja resposta de Ciro Gomes (PDT):
Acabei de ganhar na loto, diz Ciro sobre críticas de Temer