'Para vencer a segunda onda precisamos de teste, rastreamento e isolamento e não lockdown', diz pesquisador da USP

Constança Tatsch
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RIO - O pesquisador Domingos Alves, líder do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, diz que há medidas simples e baratas para se enfrentar a segunda onda da Covid-19.

— Precisa fechar tudo? Não. Lockdown? Não. Tem que fazer teste, rastreamento e isolamento. O Brasil até agora não fez esse rastreamento. Agora é o momento para reverter sem custos sociais e econômicos. Aumentar a testagem é mais barato que internar gente e fechar academia, bar, botar toque de recolher — afirma Domingos Alves.

Para Alves, nossa segunda onda não segue a definição europeia porque o cenário aqui é diferente. No Brasil, ele lembra, mantivemos um número de casos e óbitos num patamar muito alto por meses "sem dar pelota para isso". Mas após três meses de queda nas taxas de transmissão (Rt), ela cresceu em quase todo o país, assim como o número de internações hospitalares e a média móvel de mortes.

— A maior parte dos estados brasileiros já entrou na segunda onda, baseado nas taxas de infecção observadas — afirma Alves.

Para o pesquisador, a segunda onda brasileira será mais parecida com a americana do que com o que está sendo visto na Europa.

— Na Europa não se quis achatar curva, quis esmagar a curva. Aqui nunca chegamos a esses patamares de fim de primeira onda. Quando começou a cair, havia propaganda sistemática de que se tinha controle, mas nunca houve. O vírus continua circulando aqui, com o relaxamento das medidas de restrição. Hoje a taxa de isolamento é de 37%, em média, o que era praticado, para se ter uma ideia, antes de 17 de março.

Alves fez três análises de Rt nas últimas semanas: a primeira em 6/10, a segunda em 25/10 e a última em 16/11. No começo de outubro, quatro estados tinham Rt acima de 1, de maneira pontual. No fim do mesmo mês, 15 estados tinham Rt acima de 1, sendo que dez estavam assim há 14 dias, a média móvel da taxa. No último dia 16 de novembro, 20 estados (mais o Distrito Federal) estão com Rt acima de 1, sendo 16 há mais de 14 dias.

A taxa de transmissão no Brasil, no dia 16 de novembro, de acordo com o Observatório de Síndromes Respiratórias da UFPB era de 1,12, indicando que cada 100 pessoas contaminadas contagiam outras 112, que depois vão contagiar outras 125, avançando exponencialmente. A taxa de contágio é uma das principais referências para acompanhar a evolução epidêmica do Sars-CoV-2 no Brasil. Quando abaixo de um, o índice indica tendência de queda.

Além do DF, tem Rt acima de 1 os seguintes estados: Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins) e no Distrito Federal. O Paraná tem a Rt mais alta, de 1,62.

Alves também avaliou a média móvel de Rt, observando os 14 dias anteriores. Nela, o Brasil tinha em 16 de novembro Rt média de 1,06. Desde o dia 11 ela ultrapassou a marca de 1, o que não era visto desde 10 de agosto.

Os 16 estados com Rt média acima de 1 eram: Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina e São Paulo.

'É a hora de tocar o sino e fazer algo'

Alves lembra que na Espanha, quando as infecções começaram a aumentar, no começo do verão, o governo ampliou testes e a grande maioria de casos positivos foi de jovens que estavam transmitindo sem desenvolver a doença. Só agora está ocorrendo o aumento sensível das internações.

— Esse é momento de tocar o sino e fazer alguma coisa. Quem vai fazer? Os gestores, eles que têm que tomar providências. Ou pode ser um cenário pior do que já vivemos. Não tem mais hospitais de campanha e talvez não seja necessário, se agirmos corretamente agora. Hoje temos 21 estados praticando taxa de transmissão exacerbada, e isso deve aumentar na semana que vem. Se interromper a cadeia de transmissão agora talvez não passemos pelo que passamos em julho.

Segundo Alves, o Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi), de São Paulo, indica que o número de testes RT-PCR está caindo desde agosto, cerca de 10% ao mês.

O calendário eleitoral também não ajuda. Para o pesquisador, há motivação política na diminuição de testes. Cinquenta e sete cidades, incluindo dezoito capitais, terão disputa de segundo turno no fim do mês para suas prefeituras.

— Se faço menos teste, tenho menos gente infectada. Chegar na eleição (no caso do incumbente) mostrando que os municípios estão diminuindo casos é considerado positivo (por quem busca a reeleição).