Parada LGBT+ tem mais beijos, passinhos e bumbuns rebolando que coro político

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Goiânia, Salvador. Para cada perfil paulistano que se encontrava ao abrir o Tinder em São Paulo neste feriado de Corpus Christi, havia pelo menos outros três de metrópoles a milhares de quilômetros da capital paulista. Nas ruas, a diversidade geográfica invadia os ouvidos, do "R" retroflexo dos paulistas ao "S" chiado dos fluminenses.

Eventos voltados à comunidade LGBTQIA+ trouxeram neste fim de semana centenas de milhares de turistas à cidade, sobretudo para ir à Micareta São Paulo, que reuniu cerca de 20 mil foliões por dia de quinta-feira (16) a sábado (19) no Sambódromo do Anhembi, e à Parada do Orgulho LGBT, cujos organizadores esperavam levar 3 milhões de pessoas à avenida Paulista na tarde deste domingo.

Um dos principais atrativos da cidade, além da diversidade de baladas e festas para cada letra que compõe a sigla da comunidade, eram cantoras de pop, funk e axé, como Claudia Leitte, Daniela Mercury, Gloria Groove, Ivete Sangalo, Ludmilla, Luísa Sonza e Pabllo Vittar. A maioria se apresentou tanto na Micareta quanto na Parada, empilhando hit atrás de hit.

Foi o caso de Vittar, a drag queen mais seguida do mundo nas redes sociais, que acaba de voltar de uma turnê pela Europa. Antes de dar início à apresentação na Micareta, ela afirmou a este repórter que vê o Mês do Orgulho tanto como uma plataforma para reflexões e reivindicações políticas como uma válvula de escape contra as dificuldades que atravessam a comunidade diariamente.

"Esses eventos representam a celebração das nossas vidas, não só das nossas, que estão aqui, mas também das que infelizmente não estão mais, não deixando esses nomes serem esquecidos nem essas vozes serem silenciadas. Principalmente neste ano, a gente tem que celebrar nossas vidas, depois de Covid e das violências que sofremos no Brasil."

Autora de sucessos como "Diaba", Urias diz acreditar que, para além de combater o preconceito que vem de fora da comunidade, esta é também uma oportunidade para refletir sobre estigmas que existem dentro da própria sigla, como racismo, etarismo ou a inviabilização de grupos como bissexuais ou travestis e transgêneros como ela.

"Temos que pensar sobre nossas reivindicações e nossos inimigos em comum, mas também sobre nossas diferenças, porque são várias letras, LGBTQIA+, cada um com suas questões. Precisamos pensar em como nos organizar em prol de um objetivo em comum."

Embora o vermelho do Partido dos Trabalhadores tenha predominado nas ruas, visto em broches, adesivos, bandeiras e toalhas com o rosto do ex-presidente Lula, a voltagem política dos eventos não foi tão alta quanto em de festivais como o Lollapalooza, a Virada Cultural ou até o João Rock, no interior paulista, que foram marcados por coros de "fora, Bolsonaro" e "Lula lá".

Seja por medo de infringirem a lei e serem acusados de fazer propaganda eleitoral antecipada, seja por escolha própria, foram poucos os cantores que declararam apoio a Lula ou criticaram Bolsonaro de maneira explícita.

Pepita, por exemplo, subiu no trio elétrico do Burger King e da Avon pedindo ao público para fazer o "L", o que Ludmilla também tinha feito na Micareta, mas com o cuidado de deixar claro nas redes sociais que o tal "L" era de Ludmilla mesmo, não de Lula. Assim havia interpretado o vereador paulistano Fernando Holiday depois de seu show na Virada Cultural, o que o levou a pedir na Justiça que o cachê da cantora fosse suspenso.

Luísa Sonza foi quem se manifestou politicamente de maneira mais contundente --não em cima dos trios elétricos, mas à reportagem antes de se apresentar na Micareta.

"É ano de eleição. Não tem como não se posicionar. E por se posicionar não é só dizer em quem vota, mas discutir política. Nós, jovens, precisamos discutir política. Bloquear ou dificultar essa discussão é um desacato à sociedade."

A declaração surgiu cerca de uma semana depois de Sonza ter denunciado nas redes sociais que artistas e influenciadores digitais que se manifestam politicamente estão sofrendo boicote de algumas marcas, que não contratam essas celebridades para ações publicitárias ou tentam vetar seu ativismo contratualmente.

Sua denúncia foi confirmada à reportagem por Fátima Pissarra, uma das diretoras da Mynd, agência de marketing que no ano passado lucrou cerca de R$ 300 milhões negociando "publis" para figuras como Sonza, Vittar, Gil do Vigor e Gkay.

Pissarra afirmou que não há um segmento que seja mais a favor de Lula ou de Bolsonaro, mas que, entre seus agenciados, os que mais se saem prejudicados são os que dizem que vão votar no candidato petista.

"Em geral, independentemente do segmento, quando a marca pede influenciadores que não exponham posicionamentos políticos, ela está se referindo a não contratar influenciadores que apoiam Lula. São pessoas que apoiam questões de sexualidade, de gênero, de raça", disse a empresária, que acaba de lançar um livro sobre gestão de carreira de influenciadores, "Profissão Influencer".

Verdade é que, na Micareta e na Parada, o próprio público estava mais interessado em festejar. Quando o trio elétrico de Vittar já se preparava para estacionar na Micareta, a drag até gritou que era "Lula 2022", mas mal deu tempo de algum coro político se formar e todos já estavam cantando a plenos pulmões "Parabéns", um de seus principais sucessos, gravado com Psirico.

Foi como se, por alguns dias, o público se permitisse esquecer o futuro do país e os coros políticos que se tornaram a tônica de shows Brasil afora, para se preocupar apenas em se divertir, seja com beijos triplos, quádruplos, quíntuplos, seja reproduzindo os passinhos de hits como "Sentadona", improvisando até as cordas em torno dos trios elétricos como apoio para rebolar

Isso, na avaliação de Urias, já é uma manifestação política. "Pode não parecer, mas só o fato de estarmos vivos já é revolucionário."

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