ParadaSP alerta para a sorofobia, o preconceito contra quem contrai HIV

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO -- Realizadapelo segundo ano consecutivo em formato virtual, a ParadaSP, queapresentou shows de diversos artistas, reforçou a preocupação dacomunidade LGTB com um novo tema, a sorofobia, que é o preconceitocontra pessoas portadoras de HIV. O HIV, cujo primeiro caso foiregistrado no Brasil há 40 anos, em 1981, foi escolhido o tema doevento deste ano.

-- Ainda em 2021 vemospessoas reagindo como se estivessem na década de 80 ao receber umresultado (HIV positivo). Agem como se fossem morrer, ficar doente ouque todo mundo fosse descobrir, gerando preconceito. Hoje, com o tratamento, a pessoa semantém saudável ao longo de toda a sua vida, pode ter filho,empreender, viver. Ter uma vida tão longa quanto se não convivessecom o HIV - disse o youtuber e ativista Lucas Raniel, que atribui a reação e omedo diante do diagnóstico à sorofobia, que continua presente na sociedade.

Rico Vasconcelos,infectologista e pesquisador da Universidade de São Paulo, quetambém participou da live da ParadaSP, lembra que osavanços são muitos. Apesar de o Brasil ser um dos poucos países domundo com tratamento totalmente gratuito a portadores do HIV, oinfectologista afirma que o Ministério da Saúde tem ignorado osavanços ocorridos no combate ao vírus e mantém campanhas que selimitam a orientar o uso de camisinhas.

Durante a live, oinfectologista lembrou que já existe um medicamento injetável, quepode ser aplicado uma vez por mês em portadores de HIV, e quesubstitui os atuais comprimidos usados no tratamento. O medicamento,segundo ele, sequer entrou na pauta de discussão do Ministério.

-- Num mundo comdiversas estratégias de prevenção do HIV, as campanhas se limitama repetir como um mantra "use camisinha" e não divulgam asnovas formas de prevenção, que já estão disponíveisgratuitamente pelo SUS - diz Vasconcelos.

O especialista lembra queapenas em 1996 a ciência virou o jogo contra o vírus, ao descobrirque era possível aos portadores de HIV ter vida saudável, manter alongevidade e todos os seus planos tomando retrovirais. Osmedicamentos hoje são mais potentes e têm menos efeitos colaterais.Ele explica que quem toma corretamente os medicamentos não transmitemais o vírus, por exemplo.

-- Tomo apenas duascápsulas. Não é mais um coquetel. O vírus se torna indetectávele deixa de ser transmitido - contou Raniel na live, acrescentando quea ciência avançou no tratamento e prevenção e que é precisolevar as informações para as escolas, para os jovens e para toda apopulação.

Vasconcelos afirma quea camisinha, de forma isolada, nunca foi capaz de conter a epidemiade HIV e que o SUS já oferece dois tratamentos preventivos ealtamente eficazes, ainda pouco conhecidos no Brasil, principalmentepela população mais vulnerável.

Um deles é o Prep -Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, disponível na rede pública desaúde desde 2018. Com um comprimido diário, a pessoa impede que ovírus infecte seu organismo.

Combinação de doismedicamentos, tenofovir + entricitabina), é indicado para pessoascom maior risco de entrar em contato com o HIV, como gays e outroshomens que fazem sexo com homens, pessoas trans e profissionais dosexo. É indicado ainda para pessoas que deixam de usar camisinha nasrelações sexuais ou mantém relacionamento com outra pessoa HIVpositiva que não esteja em tratamento.

Segundo Vasconcelos, oPrep tem baixo efeito colateral - menos de 1% das pessoas - e ele érevertido apenas com a interrupção de uso dos medicamentos.

-- Muita gente poderiaestar protegido e nem sabe que está disponível - afirma.

O PEP, ProfilaxiaPós-Exposição de Risco, deve ser administrado em casos onde houveviolência sexual ou relação sexual desprotegida, sem preservativoou quando houve rompimento da camisinha, por exemplo. O medicamentodeve ser tomado, no máximo, em 72 horas, e também está disponívelgratuitamente pelo SUS.

Qualquer pessoa expostaa risco, independentemente do gênero, deve buscar os medicamentos deprevenção.

Tratamento injetável

Vasconcelos afirma queo novo retroviral injetável, que já foi aprovado nos EstadosUnidos, no Canadá e na Europa no começo deste ano, mas está sendomenosprezado pelo governo atual e, por isso, ainda não chegou aoBrasil.

-- Não houve qualquermovimento para avaliar a incorporação da nova tecnologia aotratamento - diz

O retroviral injetávelé composto por duas substâncias já usadas no tratamento do HIV - ocabotegravir e a rilpivirina. Segundo Vasconcelos, o cabotegravir,sozinho, pode ainda ser usado como Prep, com uma injeção a cadadois meses, segundo estudos já realizados no país.

- Desde que essegoverno assumiu está tudo igual, apesar de, no mundo, terem surgidomuitas novidades - avalia o infectologista.

Vasconcelos afirma queo HIV é um assunto de saúde pública e deve ser discutido com todaa população, que deve se empenhar no enfrentamento do vírus.

-- Ser preconceituosoalimenta a epidemia e permitindo que ela se dissemine. Com receio, aspessoas não busca testagem, tratamento e prevenção - resume.

Em sua 25ª Edição, aParadaSP movimentou o twitter neste domingo e apresentou, além de diversos shows, discussões sobre os temas ligados à comunidade,como a violência contra a população LGBT. Uma das poucas açõesde rua foi a testagem rápida no Minhocão, que fica fechado aosdomingos e é usado como área de lazer.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos