Um dia após invasão, manifestantes se recusam a deixar residência presidencial do Sri Lanka

A incerteza sobre quem está no comando do Sri Lanka aumentou neste domingo, um dia após manifestantes invadirem a residência oficial do presidente Gotabaya Rajapaksa na capital, Colombo. Enquanto o grupo se recusa a deixar o prédio, o paradeiro do mandatário é desconhecido, assim como os detalhes de seus supostos planos de deixar o poder.

Veja vídeo: Manifestantes invadem residência presidencial do Sri Lanka

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Os manifestantes continuam a tirar fotos no prédio, em uma ocupação que é resultado da pior crise econômica desde a independência do antigo Ceilão, em 1948 — e cuja magnitude é posta por muitos na conta de Rajapaksa. Há escassez de combustíveis, gás e remédios, além de inflação recorde. De acordo com a Organização das Nações Unidas, mais de um quarto dos 21 milhões de habitantes do país não tem o suficiente para comer.

— Nossa luta não acabou — disse o líder estudantil Lahiru Weerasekara. — Arriscamos nossas vidas (...). Nós não vamos desistir de nossa luta até que ele realmente vá embora.

O principal hospital de Colombo informou que atendeu 105 feridos no sábado, entre eles sete jornalistas, e que 55 permanecem internados no domingo. O general Shavendra Silva, chefe da Defesa do país, fez um apelo por calma em um discurso televisionado no domingo, afirmando “existir uma oportunidade para resolver a situação de crise de uma forma pacífica e constitucional”.

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No sábado, o presidente do Parlamento, Mahinda Yapa Abeywardena, disse que Rajapaksa deixaria o cargo na quarta-feira para garantir uma “transição pacífica de poder”. O mandatário, contudo, não foi visto ou se pronunciou desde a tomada da residência oficial, lugar que deixou um pouco antes da invasão dos manifestantes, após militares atirarem para o alto, permitindo sua fuga.

A imprensa local especula que Rajapaksa, que faz parte de uma das famílias mais influentes do país, tenha ido no domingo para a base naval de Trincomaleee, no Noroeste da ilha, mas a informação não foi confirmada. Imagens de bagagens sendo levadas para um navio da Marinha e veículos do governo correndo para o aeroporto, no entanto, deram força aos boatos de que ele teria deixado a capital para ponderar seus próximos passos.

Segundo a imprensa local, Rajapaksa teria ordenado no domingo que gás de cozinha suficiente para um mês seja distribuído no país, em uma manobra para tentar aliviar as tensões. A veracidade da informação, contudo, não pôde ser confirmada.

Também não está claro o que pode ser feito para aliviar a curto prazo a situação calamitosa do país, que declarou moratória da dívida externa de US$ 51 bilhões e negocia o resgate com o Fundo Monetário Internacional. Além do delicado momento internacional, com a pandemia e a guerra na Ucrânia, a má gestão também tem impactos dramáticos.

O governo investiu maciçamente em projetos de infraestrutura de utilidade duvidosa e, pouco antes da Covid-19, fez uma reforma fiscal que enfraqueceu significativamente os cofres do governo. Um plano mal executado para incentivar a agricultura orgânica, que chegou a proibir a importação de fertilizantes, agravou a crise alimentar e reduziu a produção de chá, um dos principais itens da pauta de exportações do país.

Em maio, embates entre simpatizantes do governo e manifestantes contrários, que deixaram três mortos, forçaram o ex-presidente Mahinda Rajapaksa, o irmão mais velho do mandatário atual, a deixar o cargo de primeiro-ministro. Além dele, outros três integrantes da família renunciaram a cargos do alto escalão na época. O sucessor como premier foi Ranil Wickremesinghe, cuja casa foi incendiada no sábado e era visto como um protetor dos Rajapaksa. Ele também anunciou que renunciaria.

Caso a renúncia do presidente se confirme, a Constituição determina que o primeiro-ministro seja o sucessor. Com a possibilidade de o cargo também estar vago, contudo, o próximo na linha sucessória seria Abeywardena, outro aliado da família. Ele teria um mês para organizar um novo pleito entre os integrantes do Parlamento.

A crise gera preocupação internacional, com o governo dos Estados Unidos pedindo que os líderes do Sri Lanka trabalhem para encontrar soluções a longo prazo “rapidamente”. Já a União Europeia pediu a “todas as partes que cooperem e permaneçam focadas em uma transição pacífica, democrática e ordenada”. O Papa Francisco, por sua vez, expressou solidariedade ao povo do Sri Lanka.

— Uno-me à dor do povo do Sri Lanka, que continua sofrendo os efeitos da instabilidade política e econômica — disse o Pontífice no domingo.

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