Paradoxo sobre final do conflito antevê duração longa da Guerra da Ucrânia, diz analista

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Europa está de cara mais triste. Não necessariamente mais bonita. A Guerra da Ucrânia deslocou sentimentalmente a ênfase de sua estrutura da União Europeia, calcada na paz e no progresso, para a Otan, que tem a alma na defesa e nos conflitos armados.

Além disso, França e Alemanha deixaram de ver a Rússia como um parceiro que o pós-comunismo reintegraria a um clima de respeito e entendimento. É basicamente o que acreditam quatro especialistas de grande calibre teórico, reunidos em um podcast agora em setembro pela emissora pública de rádio France Culture.

Um ponto sobre o qual todos coincidem: a guerra terá uma duração mais longa que se imaginava, até que se resolva uma espécie de paradoxo político, resumido por Claudia Major, diretora da unidade de segurança internacional do think thank SWP, com sede em Berlim. "A Ucrânia não pode ser derrotada, e a Rússia não deve sair vencedora", diz ela.

"Tudo indica com maior probabilidade que a paz poderá ser ruim para os ucranianos", afirma Alexander Stubb, ex-primeiro-ministro da Finlândia e hoje diretor do Instituto Universitário Europeu, de Florença.

Vejamos os pontos mais fortes de concordância entre os convidados. A começar pelo relativo fortalecimento militar ucraniano, desde que, em junho, seus militares passaram a operar equipamentos mais pesados de artilharia. O principal resultado foi o estancamento do avanço russo e a possibilidade de a Ucrânia se reapoderar de parte dos territórios --a Rússia chegou a capturar 20% do vizinho.

Nesse processo há, entre outros, a ajuda militar britânica, que é a longo prazo de EUR 6,5 bilhões, e a da Polônia, que entregou 200 blindados ao governo de Kiev. Varsóvia tende a ser um parceiro de peso maior, em razão do contrato de EUR 15 bilhões que assinou para a compra de armas sul-coreanas.

O estrategista François Heisbourg, conselheiro do IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, na sigla em inglês), afirma que a inabilidade inicial do presidente Joe Biden facilitou o trabalho do russo Vladimir Putin. Se ele contava com invadir a Ucrânia, a lógica da dissuasão supunha o temor de precisar combater já na fronteira soldados americanos.

Mas eis que Biden reiterou que não enviaria combatentes. Com isso, tranquilizou seu eleitorado, mas também o Estado-Maior russo --que não foi dissuadido de cometer suas barbaridades. Quebrou-se a lógica que prevalecia entre Rússia e EUA desde os tempos da Guerra Fria.

O quarto e último convidado foi Robin Niblett, ex-diretor do prestigiado think tank britânico Chatham House. Ele lida com a simbologia ao discorrer sobre o verdadeiro tamanho da guerra. Para os europeus o conflito é entre Rússia e Ucrânia, mas para Moscou é toda a Europa que está engajada ao lado de seu circunstancial inimigo.

Niblett assinala que os britânicos não precisaram de maior esforço para situar os russos como inimigos. Era uma reação natural para um país há décadas fiel à Otan e aos EUA. De certa forma, com a guerra, a Europa andou até a posição em que se encontrava o Reino Unido.

Esse movimento ocorreu de maneira mais drástica com a Alemanha. Claudia Major assinala a reviravolta que a Ucrânia provocou na política alemã de defesa, a ponto de a Constituição ter sido este ano modificada para permitir que se ultrapassasse um grau de rearmamento que não era permitido desde 1945.

Berlim separou um orçamento de EUR 100 bilhões para construir uma máquina de guerra de perfil abrangente, sem depender necessariamente das armas e de militares americanos estacionados na Europa. É uma reviravolta notável, que o governo alemão classifica como "mudança de época".

É claro que os europeus se preocupam com a falta que o gás russo fará durante o inverno que se inicia em breve no hemisfério Norte. Ao mesmo tempo, no entanto, diz o britânico Niblett, "o boicote à Rússia é uma maneira direta de não mais precisarmos conviver com a matéria-prima energética que ela nos exporta".

A propósito, a Rússia não está famélica por deixar de vender seu gás aos europeus. Ela tem outros mercados na Ásia para se diversificar. O caso mais emblemático é o da Índia.

E a China? Continuará por oportunismo a se colocar como aliada de Putin. Mas não de maneira incondicional. Os chineses, acreditam os estrategistas no podcast, esticarão a corda até o momento em que perceberem que podem sofrer algum tipo de retaliação da Europa. Com todos os cuidados e sutilezas, se afastarão de Moscou para não perderem as vantagens oferecidas pelo poderoso mercado interno europeu.

L’EUROPE FACE À LA GUERRE (A EUROPA DIANTE DA GUERRA)

Onde: No site da rádio France CultureDuração 58 min