Paraguai faz campanha histórica na Copa América: 'Elas não tem medo', afirma treinador

O Paraguai vive um momento histórico para o futebol feminino. O país de apenas sete milhões de habitantes conseguiu uma vaga na semifinal da Copa América, posição que já qualifica a seleção vermelha e branca para os Jogos Pan-Americanos de 2023. Quem comanda o trabalho é o brasileiro Marcelo Frigerio, que assumiu a equipe no começo deste ano e implementou uma metodologia intensa de trabalho.

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O treinador tem mais de três décadas dirigindo equipes de futebol feminino, com passagens no Brasil em clubes como São Paulo e Cruzeiro. Fora do país, Frigerio também já treinou o Changchun Volskwagen, da China, e a seleção de Guiné Equatorial, com direito a confronto direto com a seleção brasileira na Copa da Alemanha, em 2011.

À frente do Paraguai, Marcelo teve menos de sete meses para conhecer jogadoras, nível do futebol e estrutura da modalidade no país, o treinador apostou nos talentos locais aliados aos nomes que atuam em fora do Paraguai para formar seu time principal para a competição. Amanhã, a equipe comandada por Frigerio disputa a vaga na final com o Brasil, com o adversário da decisão saindo do duelo entre Colômbia e Argentina.

Quais são as principais diferenças entre treinar clubes e seleções?

Clube é clube e seleção é seleção. É uma estrutura maior, com mais apoio, mas os protocolos entre diferentes seleções são parecidos. A seleção brasileira, por exemplo, é a que mais tem recursos na América do Sul, mas até a Bolívia tem estrutura de seleção com todo um apoio, um aparato. O que muda é a cultura do futebol em países diferentes: são metodologias de trabalho diversas, que vão depender da estrutura do lugar. Na China, por exemplo, o departamento médico dos clubes utiliza medicina chinesa e acupuntura, algo que não ocorre em outros lugares do mundo.

Como você avalia o futebol feminino paraguaio?

O campeonato paraguaio ainda está caminhando, começando a ter estrutura. É um torneio sem muita intensidade, com muitos clubes emprestando apenas a camisa para as jogadoras. A competição não fomenta a modalidade e não desenvolve as jogadoras para estarem no nível de uma seleção. Tem equipes que não tem nem academia para as mulheres. Há muitas boas jogadoras, mas falta a estrutura.

Você chegou na seleção no início do ano. Qual metodologia implantou para chegar à seleção que disputa a Copa América?

A primeira coisa que fiz foi conhecer como era o futebol feminino, visitando clubes, conversando com dirigentes, para entender melhor a situação. Fiz uma análise para ver quais eram as principais deficiências para poder traçar um plano. Tive uma "sacada" de convocar jogadoras locais para formar uma seleção com quatro treinos semanais: na segunda e na terça, as atletas ficavam com a seleção, e no resto da semana com seus clubes. A cada convocação eram 30 atletas, foram mais de 120 jogadoras, e em cada data eu colocava um conceito diferente. O objetivo era dar um estímulo de força e melhorar as jogadoras que teriam condições de estar em uma seleção, introduzir um pouco da metodologia e colocá-las para treinar. Dentro das 23 jogadoras da Copa América, seis são locais, e três são titulares: Limpia Fretes, Ramona Martinez e Rebeca Fernández.

A campanha do Paraguai já é o melhor desempenho em uma edição da Copa América. Você esperava esse bom resultado?

Nós saímos do Paraguai com a cabeça de que queríamos ir para o Mundia, sempre estivemos determinados a voltar com a classificação. Nós vamos jogar cada jogo como uma final, temos condições de chegar onde chegamos e até de ir mais. Essas meninas não tem medo, e elas tem um sonho. A classificação para a semifinal despertou o interesse do Paraguai por futebol através do feminino. A seleção masculina está mal, não participou das últimas três Copas, então elas se agarram muito nesse fato e precisam desse bom resultado.

A seleção paraguaia vai enfrentar agora o Brasil na semifinal. Como você trabalha o psicológico das jogadoras para esse duelo?

O Paraguai tem uma peculiaridade que me deixou muito tranquila. Elas não tem medo de jogar contra ninguém, não sentem a pressão. Essas jogadoras cresceram juntas e desde as categorias de base e estão acostumadas a jogar em estádios cheios. São atrevidas, valentes e isso é fundamental para vencer esse tipo de insegurança. O que elas precisavam era de uma identidade enquanto time, e a partir do nosso trabalho conseguiram pegar bastante confiança.

Como foi jogar contra o Brasil na Copa do Mundo de 2011? Qual é a expectativa agora?

A primeira vez que eu ouvi o hino nacional jogando contra o Brasil eu me emocionei, quase chorei. É uma sensação muito estranha, única, e achei que seria difícil cruzar com a seleção de novo, e agora a gente se cruza em uma semifinal de Copa América. Hoje, o futebol feminino está bem estruturado, já é uma realidade no país. É difícil jogar contra o Brasil porque as aletas são profissionais, a diferença física é muito grande, mesmo com o Brasil não jogando tudo aquilo que pode jogar. A gente vai ter que torcer para ter um bom dia, deixar tudo no campo e fazer a nossa estratégia.

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Caso o Brasil vá para a final, vai torcer pela seleção?

Lógico! Eu sempre torço para o Brasil, e sempre torci pelo futebol feminino brasileiro. Sou do tempo em que as meninas não tinham campo para treinar, os clubes só emprestavam a camisa. Se uma atleta se machucava em um clube, ela não podia nem usar o departamento médico para fazer fisioterapia. Eu sempre acreditei em onde o futebol feminino poderia chegar no Brasil e sinto muito orgulho de ter feito parte disso. Hoje, eu sou paraguaio e meu segundo time é o Brasil.

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