Paraguai vive tensão após protestos e repressão que deixou um morto

DANIEL AVELAR, ENVIADO ESPECIAL

ASSUNÇÃO, PARAGUAI (FOLHAPRESS) - Quase 48 horas depois de uma noite marcada por protestos violentos e a morte de um manifestante com um tiro da polícia, o ambiente continuava tenso nas ruas de Assunção, capital do Paraguai.

Na sexta (31), centenas de pessoas incendiaram e saquearam partes do edifício do Congresso paraguaio em protesto contra uma manobra de senadores para aprovar mudanças na Constituição permitindo que o presidente Horacio Cartes, do Partido Colorado (conservador), busque um novo mandato.

A manifestação terminou com mais de 30 feridos, 200 detidos e a morte de um líder opositor pela polícia.

Neste domingo (2), o movimento no centro de Assunção era menor do que o comum devido à preocupação com a segurança, segundo residentes relataram à reportagem.

Nos arredores do Senado, ainda se viam cacos de vidro e móveis queimados, além de policiais da tropa de choque que isolavam o local. Transeuntes tiravam fotos em frente ao prédio danificado.

Uma vigília foi montada na praça em frente ao Congresso, e pessoas portavam bandeiras e cartazes com os dizeres "Não ao golpe" e "Defendamos a democracia".

"Não temos cor, religião nem partido", disse Francisco Soteras, 28, que coletava assinaturas contra o projeto de reeleição presidencial.

O taxista Sylvio Ayala expressou preocupação com manifestantes violentos ("atrapalharam o trânsito") e disse ser contra as mudanças na Constituição. "Sou colorado, mas acho que seria melhor se colocassem outro candidato", afirmou.

A polêmica emenda, que foi aprovada no Senado na sexta (31) sem a presença dos principais partidos da oposição, deveria ter sido votada na Câmara no sábado (1º), mas a votação foi adiada para terça-feira (4) devido aos temores de novos confrontos.

Congressistas da Frente Guasú, de esquerda, apoiaram o projeto da reeleição, na esperança de que o ex-presidente Fernando Lugo, deposto em 2012, possa concorrer a um novo mandato.

ENTERRO DE OPOSITOR

Na cidade de La Colmena, a cerca de 130 quilômetros de Assunção, dezenas de pessoas acompanharam neste domingo (2) o enterro de Rodrigo Quintana, 25, dirigente do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), principal sigla de oposição no país.

O militante foi morto na madrugada de sábado, após o protesto no Congresso. Ele levou um tiro disparado por policiais na sede da agremiação, no centro de Assunção.

A reportagem visitou o local, onde foi improvisado um altar com flores e fotografias ao redor de uma grande mancha de sangue no chão, onde Quintana morreu.

"Os policias forçaram a porta, que estava trancada, para entrar aqui", explicou a militante Marta Florentín. "A sorte foi que chegou um jornalista pouco depois, senão eles teriam matado mais gente", disse.

Após a morte de Quintana, o governo demitiu o ministro do Interior e o chefe da polícia do Paraguai.

Os protestos e a violência em Assunção atraíram atenção internacional. No sábado (1º) o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, fez um "chamado às forças políticas do Paraguai pela paz e pelo respeito à democracia".

O papa Francisco expressou neste domingo (2) preocupação com as crises no Paraguai e na Venezuela e pediu que "se evite toda a violência em busca de soluções políticas".