Parasita da toxoplasmose pode ajudar no tratamento do câncer

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RIO — Um dos avanços científicos mais recentes e incensados no tratamento do câncer é a imunoterapia, técnica que induz o próprio sistema imunológico a combater as células cancerígenas. E as descobertas na área crescem cada vez mais. Nesta semana, um estudo publicado na revista Journal for ImmunoTherapy Cancer mostrou que o parasita causador da toxoplasmose pode ser adaptado geneticamente para fortalecer o mecanismo imunoterápico que ataca os tumores.

A tarefa de ativar as células de defesa do organismo para combater o câncer é complexa, e ainda não funciona para todos os tipos de tumores e para todas as pessoas. No entanto, a terapia é considerada uma aposta promissora na ciência, e os seus criadores, o americano James P. Allison e o japonês Tasuku Honjo, receberam, em 2018, o prêmio Nobel de Medicina pelo achado.

De forma diferente da quimioterapia — que ataca diretamente as células cancerígenas e pode ser um tratamento bastante agressivo — a imunoterapia auxilia o organismo do paciente a identificar e combater o câncer com suas células de defesa.

— É um tratamento muito mais inteligente. Quando comparado à quimioterapia, pode não só aumentar a eficácia, como diminuir a toxicidade e, para alguns tumores, aumentar o controle a longo prazo. Os pacientes vivem mais e vivem melhor — explica o oncologista e presidente do Instituto Oncoclínicas, Carlos Gil.

Um dos mecanismos utilizados nesta terapia é a administração dos chamados “inibidores de checkpoint”, proteínas carregadas pelas células do corpo humano que sinalizam aos linfócitos T de defesa que elas são parte do organismo e, portanto, não devem ser atacadas.

No entanto, muitas vezes as células cancerígenas desenvolvem a capacidade de produzir um ou mais destes pontos de verificação, o que impede o corpo humano de identificá-las como um problema e atacá-las.

— Se você reprimir esse sistema nos tumores, você consegue uma terapia anticâncer. Essa descoberta foi o início da revolução da imunoterapia que estamos vivendo hoje — diz Gil.

Imunoterapia ainda não é para todos

Porém, alguns tumores não respondem bem aos inibidores de checkpoint, e pesquisadores buscam estratégias para mudar esse cenário. A mais recente foi conduzida por cientistas da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, e da Universidade de Ningbo e da Universidade Agrícola de Shanxi, ambas na China.

O novo estudo partiu da capacidade do parasita Toxoplasma gondii de secretar proteínas que provocam uma inflamação. Os cientistas criaram então uma cepa mutante do parasita que não é capaz de causar uma infecção no hospedeiro e a injetaram no tumor.

— Isso foi feito porque a inflamação desperta o sistema imunológico. Então estratégias como a injeção do parasita buscam aumentar o caráter inflamatório dos tumores e, com isso, fazer com que ele responda melhor às estratégias de imunoterapia com os inibidores de checkpoint — explica o presidente do Instituto Oncoclínicas.

A injeção direta da versão mutante do parasita nos tumores em camundongos teve resultados animadores. Segundo os pesquisadores, a técnica de fato induziu uma resposta inflamatória nos cânceres os tornaram mais responsivos aos inibidores de checkpoint. Consequentemente, isso fez com que o sistema imunológico entendesse aquelas células cancerígenas como ruins e passasse a atacá-las.

Os resultados destacaram ainda que a terapia dupla, com o parasita e os inibidores, estendeu significativamente a sobrevivência dos camundongos, e reduziu o crescimento do tumor em modelos animais de melanoma, carcinoma de pulmão de Lewis e adenocarcinoma de cólon. Os responsáveis pelo estudo acreditam que a descoberta pode ter diversas implicações terapêuticas mais amplas para muitos tipos de câncer.

Futuro do tratamento

O oncologista Carlos Gil destaca que essa perspectiva é importante pois, embora a imunoterapia seja uma ciência promissora, ela hoje funciona muito bem para alguns tipos de câncer, como melanoma e câncer de rim, mas, funciona mal para outros tumores, como câncer de mama e de próstata:

— Para o câncer de pulmão, por exemplo, a imunoterapia funciona para 30% a 35% dos pacientes — ressalta Gil.

Para o especialista, a partir de pesquisas como essa, é possível construir estratégias para pacientes que envolvam a modulação da resposta imunológica, tornando os tumores mais inflamatórios e responsivos à imunoterapia:

— Nos próximos cinco anos, o tratamento do câncer vai ser como um todo completamente diferente.

*Estagiário sob supervisão de Adriana Dias Lopes

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