'Parasita': por que o filme sul-coreano está fazendo história em Hollywood

Patricia Sulbarán - Da BBC News Mundo em Los Angeles
É a primeira vez que um filme sul-coreano é indicado ao Oscar na categoria de melhor filme

O texto abaixo contém detalhes da trama.

"Vou beber até o amanhecer", disse Bong Joon Ho, diretor do filme Parasita, ganhador do Oscar para Melhor Filme no domingo (9), que homenageou o colega Martin Scorsese, que concorria com ele, em seu discurso de agradecimento.

O filme sul-coreano ganhou em outras três categorias: diretor, roteiro original e filme estrangeiro. Foi a grande estrela da edição do Oscar deste ano, se tornando o primeiro longa não falado em inglês a ganhar a estatueta para Melhor Filme. E é a primeira vez desde os anos 1950 que a mesma obra ganha o Oscar e a Palma de Ouro de Cannes.

O longa já tinha feito história em janeiro, ao se tornar o primeiro filme de língua estrangeira a vencer a principal categoria da premiação do SAG Awards, entregue pelo Sindicato dos Atores dos EUA — Melhor Elenco de Filme. Também, levou, no mesmo mês, o prêmio para melhor filme estrangeiro do Globo de Ouro.

"Estou um pouco envergonhado de sentir que somos os parasitas de Hollywood agora!", disse o ator sul-coreano Lee Sun-kyun, estrela do filme Parasita, na cerimônia dos SAG Awards.

O filme sul-coreano de humor ácido, que em alguns momentos flerta com o terror, tem conseguido um sucesso sem precedentes nas cerimônias de premiação de Hollywood.

No SAG Awards, o elenco de Parasita sobressaiu entre outros grupos de atores já consolidados na indústria cinematográfica, que participaram de filmes como O Irlandês, Era Uma Vez em... Hollywood e O Escândalo.

É a primeira vez que um filme de língua estrangeira ganha o prêmio de Melhor Elenco do SAG Awards

No Globo de Ouro, a produção sul-coreana ganhou a estatueta de melhor filme estrangeiro e foi indicada em duas outras categorias.

No dia 09 de fevereiro, vai concorrer ao Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme.

Mas a que se deve o grande sucesso do filme nas premiações americanas?

A história

"Que tipo de filme é esse?", perguntou o crítico Anthony Lane, da revista The New Yorker, quando escreveu sua resenha sobre o longa. E não foi o único a se fazer essa pergunta.

A premissa é simples. Os caminhos de duas famílias se cruzam — uma é muito rica e a outra muito pobre. As interações entre elas revelam as diferenças sociais e expõem problemas de classe.

Mas Parasitas é um enredo coerente que combina sangue e humor, ternura e devastação em pouco mais de duas horas.

"Com frequência, as pessoas me dizem que a história é muito estranha no melhor sentido possível", disse recentemente o diretor Bong Joon-ho em uma exibição do filme em Hollywood.

"Acho que as pessoas gostaram do quão absurda é a história, dizem que é muito difícil de prever", acrescentou.

Bong Joon-ho dirigiu alguns dos filmes de maior bilheteria da Coreia do Sul

De fato, se a princípio parece que se trata apenas da história de um jovem proveniente de uma família desempregada (que vive em um porão) e chega à casa luxuosa de uma família rica para dar aulas de inglês, a trama se complica (e muito).

O jovem acaba inventando maneiras de os novos chefes empregarem o resto da sua família, sem saber que são seus parentes.

E uma noite eles fazem uma descoberta macabra no porão da mansão.

Apesar do universo absurdo em que a história entra, as reflexões sobre a pobreza e a riqueza adquirem um tom universal.

Um exemplo é a sequência do filme em que chuvas fortes provocam inundações que, para a família pobre, implicam na destruição de sua casa, enquanto para a outra representam apenas a interrupção de um acampamento.

"Em qualquer sociedade, há pessoas que têm e pessoas que não têm bens materiais, e esses grupos coexistem", disse o ator Song Kang-ho a jornalistas na noite de premiação do SAG Awards.

Quando perguntaram recentemente a Bong Joon-ho por que ele acreditava que seu filme ressoava em todo o mundo, ele respondeu que "todos os personagens vivem em uma área cinzenta. A família pobre comete erros, mas é adorável, ​​e a família (rica) é mesquinha, mas amigável ao mesmo tempo. Não há vilões".

Sucesso de crítica e bilheteria

Quando estreou no festival de cinema de Cannes em maio do ano passado, os críticos aclamaram o filme como favorito para ganhar a Palma de Ouro, principal prêmio do evento.

A partir dali, o filme ganhou um destaque intenso, arrecadando quase US$ 140 milhões em bilheteria no mundo todo e permanecendo por 18 semanas consecutivas em cartaz em Los Angeles.

Joon-ho já contava com uma célebre trajetória cinematográfica, sendo considerado um dos melhores cineastas do século 21, de acordo com o site especializado Metacritic.

Em 'Parasita', os caminhos de duas família se cruzam — uma é muito rica e a outra muito pobre

Parasita ganhou ainda elogios da imprensa, que classificou o filme como "elegante e robusto".

E não foram apenas os críticos que enalteceram o longa, mas também cineastas premiados, como o mexicano Guillermo del Toro.

"Eu amo e admiro Bong Joon-ho desde Memórias de um Assassino (2003), ele me surpreende, me deleita e me emociona sempre. Então, dizer que este é o melhor filme dele significa muito para mim. E é. Um filme cheio de tristeza, inteligência e profundidade. Irreverente, mas sensível. Impressionante", escreveu em sua conta no Twitter.

Em quase 20 anos de carreira, o cineasta sul-coreano explorou principalmente dois gêneros de filmes: ficção científica e policial, com um toque esporádico de humor, indica o site Metacritic.

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