'Parecia chuva, mas era fogo', diz vizinho de área da Serra do Curral atingida por incêndio

BELO HORIZONTE (FOLHAPRESS) - "Parecia que vinha chuva, mas era por causa do fogo". O líder comunitário Nilo Zack descreve o céu sobre o seu bairro por volta das 16h de sexta (9) em Belo Horizonte.

Zack mora no Taquaril, aos pés da Serra do Curral, cartão-postal da região de Belo Horizonte atingido por incêndio que durou três dias, entre sexta e domingo (11).

"A fumaça escureceu tudo. A roupa no varal ficou coberta de cinza", relata Zack. Há suspeitas sobre o início do fogo, tanto por moradores como por ambientalistas. A Polícia Civil abriu investigação sobre a possibilidade de o incêndio ter sido criminoso.

A Serra do Curral é uma região em disputa. De um lado, ambientalistas. Do outro, mineradoras. A área já conta com reservas de proteção, mas a intenção de quem a defende é torná-la inviolável em toda a sua extensão, via tombamento.

A serra tem também também ligações históricas, econômicas e culturais com a capital, que cresceu aos seus pés.

Em 30 de abril o Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental) aprovou licenciamento para que a mineradora Tamisa explorasse área de 102 hectares que possui na Serra do Curral. Uma ação judicial impede, até o momento, o início da operação.

A principal suspeita em relação ao incêndio diz respeito à área em que o fogo teria começado, às margens de um córrego, em local conhecido como Trilha das Aguinhas, na região que a Tamisa pretende explorar.

A empresa afirma que o fogo destruiu a vegetação em parte da área que detém na serra. A mineradora diz ainda que considera o incêndio criminoso e causado por pessoas que acessam a área sem autorização. Segundo a Tamisa, o Corpo de Bombeiros foi acionado assim que tomou conhecimento do incêndio.

"Foi um fogo proposital, com técnica. Começou em área úmida. Para ter iniciado ali, tem que ter sido colocado", afirma a ambientalista Jeanine Oliveira, que também é brigadista da Serra do Curral e ajudou no combate ao incêndio no sábado e no domingo.

O líder comunitário Zack disse ter estranhado o local em que o fogo teria começado. "Recebi uma ligação de um conhecido que passava pela região por volta das 11h da manhã de sexta. Ele disse que tinham colocado fogo perto do córrego. Respondi que não alastraria, por ser uma área úmida."

Segundo o líder comunitário, o fato de as chamas terem avançado para outras partes da serra é um indicativo de que o fogo foi provocado.

A Polícia Civil não dá informações sobre o andamento das investigações. Em nota, disse apenas que adotou providências iniciais de polícia judiciária, com levantamentos e procedimentos para apurar as causas e as circunstâncias do incêndio.

A Semad (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) afirma ainda não ter o tamanho da área da Serra do Curral atingida pelo incêndio. Os bombeiros também não têm a informação.

Segundo a corporação, a primeira chamada sobre o incêndio entrou no sistema às 18h12 de sexta e partiu da brigada ambiental da Tamisa, baseada na área chamada Fazenda Ana Cruz, dentro da propriedade da mineradora.

O deslocamento da primeira guarnição ocorreu por volta das 21h35, ainda segundo informações repassadas pela corporação.

O incêndio foi classificado como "de grandes proporções", conforme nota enviada à reportagem. "Em um primeiro momento, foi constatado pelos militares duas extensas linhas de fogo, uma na face norte (voltada para Belo Horizonte) e outra em direção ao sul (voltada para Nova Lima)", diz o texto.

Ao todo participaram do combate às chamas 70 militares (bombeiros e PMs) e 50 brigadistas, além de helicóptero e aviões adaptados para o lançamento de água sobre os focos de incêndio, que foi controlado às 18h10 de domingo.

MARCO HISTÓRICO, CULTURAL E ECONÔMICO DE BH

Além da questão ambiental, há também aspectos históricos, culturais e econômicos envolvendo a Serra do Curral e Belo Horizonte. A partir da capital, a visão que se tem da serra é a de um paredão verde. Ao sul da cidade, este paredão se compõe com outro cartão-postal, a praça do Papa.

No século 18 esta formação geográfica ganhou o nome de Serra do Curral, inspirado em um lugarejo conhecido como Curral del-Rei e que foi transformado na capital mineira.

O Curral del-Rei era um ponto que servia de apoio aos bandeirantes, que negociavam animais e alimentos. Além de Belo Horizonte, a Serra do Curral se espalha ainda por outros dois municípios, que são Sabará e Nova Lima.