Parentalidade LGBTQ+: 'Foi um caminho difícil para me tornar pai, mas estou adorando'

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Paternidade LGBTQ +: Ian 'H' Watkins de Steps lutou contra a homofobia e a mágoa emocional por uma década antes de ter seus filhos gêmeos. (Imagem fornecida)
Paternidade LGBTQ +: Ian 'H' Watkins de Steps lutou contra a homofobia e a mágoa emocional por uma década antes de ter seus filhos gêmeos. (Imagem fornecida)

Ian "H" Watkins, da banda de música pop Steps, é pai dos gêmeos Macsen e Cybi, de seis anos de idade, concebidos com a ajuda de uma doadora de óvulos e uma barriga de aluguel depois de uma longa e difícil jornada. Ele fala sobre os desafios emocionais que a comunidade LGBTQIA+ enfrenta em relação à parentalidade e sobre sua própria história como pai e homem gay.

Parentalidade LGBTQ+: Ian 'H' Watkins com seus gêmeos, orgulhosamente hasteando a bandeira do arco-íris. (Imagem fornecida)
Parentalidade LGBTQ+: Ian 'H' Watkins com seus gêmeos, orgulhosamente hasteando a bandeira do arco-íris. (Imagem fornecida)

Você tinha o sonho de ser pai quando era mais novo?

Sempre quis ser pai e formar uma família. Existem muitas gestações não planejadas e bebês que nascem por acidente. No meu caso, eles foram totalmente desejados, amados e planejados nos mínimos detalhes. Tenho vídeos do momento da concepção dos meus filhos em uma placa de Petri. É incrível ver a vida começando.

Como homem gay, o que você aprendeu sobre a jornada da paternidade?

Eu tinha uma visão muito idealista de que ia virar pai de forma instantânea. Mas é preciso se planejar para os contratempos e os problemas. Não é algo imediato. Para os homens gays, esse caminho é ainda mais difícil do que para as mulheres gays, por causa da forma como outras pessoas se envolvem no processo reprodutivo.

Além disso, no caso das doadoras e barrigas de aluguel, é preciso encontrar pessoas que tenham os mesmos valores e ideias que os seus.

Você já explicou aos seus filhos como eles nasceram?

Sempre fiz questão de ser totalmente honesto sobre a origem deles. Sou um homem gay, e meus filhos sabem que, um dia, vou encontrar meu príncipe.

As crianças aceitam muito bem os fatos. Para elas, é tudo mais simples. Meus filhos sabem que têm uma tia muito especial e por isso estão aqui. Eles entendem e não questionam nada. Conversamos todos os dias com a mulher que os gerou e temos um ótimo relacionamento.

Eles já tiveram que responder a alguma pergunta desconfortável na escola?

Não, moramos em uma cidade muito progressista em Gales. Há muitas famílias de tipos diferentes, de crianças criadas pelos avós a famílias com filhos adotivos. Hoje em dia, não existem apenas famílias tradicionais, e meus filhos sabem que todas as famílias são diferentes. Nós celebramos a humanidade.

Nossa cidade é predominantemente branca, então meus filhos não estão acostumados a ver pessoas negras e de outras etnias. Um dia, quando vimos uma família negra, um dos meus filhos perguntou: "por que a pele deles é preta?", e o outro respondeu: "porque todas as pessoas são diferentes". O progressismo dos meus filhos me enche de orgulho.

Ian 'H' Watkins diz que recebe diariamente abuso homofóbico online, o que ele chamou especialmente quando se trata de seus filhos. (Imagem fornecida)
Ian 'H' Watkins diz que recebe diariamente abuso homofóbico online, o que ele chamou especialmente quando se trata de seus filhos. (Imagem fornecida)

Você continua sendo alvo de ataques no Twitter?

Recebo mensagens abusivas todos os dias. Ainda tem muita homofobia e ódio no mundo. Mas quando tentam envolver meus filhos, eu reajo. Podem me chamar de qualquer coisa, mas minha família, não. É assustador saber que algumas pessoas pensam assim.

Um dia, na escola, alguém disse aos meus filhos que rosa era de cor de menina. Essas coisas vêm dos pais, então, no dia seguinte, fui buscar os dois vestido de rosa da cabeça aos pés. Esse tipo de ideia tem a ver com a educação, e a educação começa na escola.

Agora, meus filhos estão em uma idade em que os coleguinhas já entendem a nossa situação. Então, estou sempre falando com a escola sobre conscientização e sugerindo livros sobre diferentes tipos de família.

Mas mesmo assim temos muita sorte, pois vivemos em uma sociedade em que é possível celebrar e encontrar nossa comunidade. Em outros países, não é assim.

Antes de optar pela barriga de aluguel, você tentou um processo de adoção, mas concluiu que havia muita homofobia. O que aconteceu?

É um processo exaustivo, emocionalmente esgotante, além de ser muito invasivo. Na minha cabeça, eu só queria dar uma casa para uma criança que precisava de uma casa. Então, foi muito duro descobrir que parte da equipe era homofóbica.

É claro que isso foi há mais de 10 anos, e os tempos mudaram. Se fosse hoje, eu teria denunciado essas pessoas. Mas quando você está no meio do processo e acontece algo assim, é muito cansativo.

Então, você optou pela barriga de aluguel. Que desafios você enfrentou?

Já estava preparado para que nem tudo saísse conforme o planejado. Conhecemos candidatas que não funcionaram, doadoras de óvulos que não eram compatíveis, algumas fertilizações não deram certo, houve abortos espontâneos... Foi um caminho realmente difícil.

As regras de barriga de aluguel nos Estados Unidos são bem diferentes das do Reino Unido, então decidimos fazer o processo todo na Califórnia. Lá, encontramos a candidata perfeita. Agora, ela faz parte das nossas vidas e é uma pessoa incrível.

Muitas coisas podem dar errado, mas o meu nome já estava na certidão de nascimento dos dois nos Estados Unidos. Na verdade, acho que isso já estava garantido desde os três meses de gestação, então não fiquei ansioso em relação a essa questão. Mas o processo todo é exaustivo, emocionalmente e financeiramente.

[No Reino Unido, a mulher que gesta o bebê é considerada legalmente como mãe no nascimento. Caso ela seja casada ou esteja em união estável, o ou a cônjuge compartilhará a parentalidade no nascimento do bebê, a menos que não tenha dado permissão para isso. A parentalidade legal pode ser transferida por uma ordem parental ou adoção após o nascimento do bebê.]

Como membro da comunidade LGBTQ+, Ian 'H' Watkins enfrentou a homofobia em sua jornada desgastante para finalmente se tornar pai há seis anos. (Imagem fornecida)
Como membro da comunidade LGBTQ+, Ian 'H' Watkins enfrentou a homofobia em sua jornada desgastante para finalmente se tornar pai há seis anos. (Imagem fornecida)

Como você se sentiu no dia em que os gêmeos nasceram, depois de uma jornada tão difícil?

Cheguei aos Estados Unidos bem perto do nascimento deles. Minha ideia era tirar uns dias de férias, porque sabia que seria a última vez que poderia fazer isso por um bom tempo. Então, aluguei um apartamento lindo, muito chique.

Quando cheguei lá, tomei melatonina e fui dormir para me acostumar com o fuso horário. De repente, acordei com 30 ligações perdidas e uma pessoa batendo na porta do apartamento, dizendo: "sua esposa está em trabalho de parto". Na hora, eu só pensei: "mas eu não tenho esposa".

Minhas férias acabaram durando muito pouco. Três horas depois, eu estava com gêmeos recém-nascidos no colo, totalmente perdido. Então, entrei em modo de sobrevivência.

A parentalidade passou por cima de mim como um trem. A gente não pensa nos sacrifícios que vai precisar fazer. No começo, foi muito difícil, uma verdadeira tortura. Não importava o que eu queria ou precisava, eu sempre estava em último lugar. E fui aprendendo ao longo do caminho, cometendo erros. Mas é preciso celebrar as conquistas e curtir o momento.

Como pai, é muito difícil estar presente. Mas esse é o conselho que eu daria a qualquer pai ou mãe: estar presente, curtir o momento, encarar um dia de cada vez e não se cobrar muito com a forma como você lida com cada situação.

Como você lidou com os desafios de ser um pai solo?

Como fui pai solo desde o início, criando dois garotinhos nada fáceis, sempre apostei no amor, mas com disciplina. Foi a maneira que encontrei de sobreviver.

Todo mundo adora julgar e, vendo de fora, eu provavelmente me criticaria. Mas quando eles eram pequenos, tínhamos uma rotina quase militar. Eu sabia exatamente os horários das refeições, por exemplo. Às vezes, quando eles choravam fora de hora, eu pegava os dois no colo e, se eles paravam de chorar, eu os soltava e saía do quarto porque já sabia que era só manha.

Os dois nunca dormiram comigo. Quando eles ficavam doentes ou quando eu estava preocupado com alguma coisa, eu dormia no chão, entre as caminhas deles.

Agora, estou colhendo os frutos. Desde os três meses de idade, eles dormem 12 horas direto. É sério, eles são incríveis. Alguns amigos meus têm problemas com os filhos nesse sentido e acabam passando a noite em claro. Se eu não pudesse dormir, a parentalidade seria um pesadelo para mim.

Mesmo saindo tudo bem, os cinco primeiros anos foram uma verdadeira escravidão. Às vezes, entre uma mamadeira e outra, eu sentava no corredor, tomava uma taça de vinho e chorava, pensando: "o que foi que eu fiz?"

Parece falta de gratidão, mas é a realidade. Ter filhos não é o conto de fadas que as pessoas imaginam quando veem fotos de famílias de comercial de margarina no Instagram. Minha casa fica uma bagunça. Parece que passou um furacão.

No ano passado, as coisas mudaram um pouco. Eles começaram a entender a ideia de causa e consequência. Podemos conversar e proibir certas coisas quando eles não se comportam bem. Eles são participativos, criativos, doces e divertidos, mas também exigem muita atenção.

Leve a família para o trabalho - Ian 'H' Watkins traz os meninos para a arena durante uma turnê Steps. (Imagem fornecida)
Leve a família para o trabalho - Ian 'H' Watkins traz os meninos para a arena durante uma turnê Steps. (Imagem fornecida)

Como você consegue equilibrar tudo isso e a carreira na música pop?

As coisas mudaram bastante. Na nossa turnê anterior, há quatro anos, eles eram bem pequenos e fáceis de levar, e um dos meus amigos ficava de babá. Tinha um salão de jogos que virou creche, e também tinha uma salinha no estádio.

Agora, meus filhos frequentam a escola e não podem ficar viajando, então conto muito com meus pais. Eles passaram quase dois meses em casa para que eu pudesse me concentrar na turnê.

O Lee, do Steps, tem um filho de quase um ano. Nos primeiros dias do bebê, ele me mandou uma mensagem dizendo: "não sei como você aguentou isso em dose dupla". É difícil, mas não tem outro jeito. Temos que encarar a situação. E estou satisfeito comigo mesmo, porque meus filhos são fantásticos.

O novo álbum do Steps, "Platinum Collection", já está disponível em pré-venda e chega às lojas em 19 de agosto.

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